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Estudo aponta aumento do nível de populismo em convocação de Bolsonaro

Presidente retomou níveis só utilizados na campanha eleitoral - Zak Bennet/AFP
Presidente retomou níveis só utilizados na campanha eleitoral Imagem: Zak Bennet/AFP

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

10/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Pesquisa internacional identificou populismo de Bolsonaro
  • Dados inéditos mostram que discurso de Roraima aumentou característica
  • Nível de populismo iguala índices das eleições de 2018
  • Bolsonaro se apresenta como representante do povo, diz pesquisador

A nova convocação para as manifestações do próximo domingo (15) fez o populismo reinaugurado no Brasil pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) subir para níveis só vistos na reta final da campanha eleitoral de 2018.

É o que mostram estudos de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que participam do Team Populism, projeto da Universidade de Brigham Young (BYU), nos EUA, que monitora o fenômeno no planeta.

Em Roraima, Bolsonaro disse que os protestos marcados são um "movimento que quer mostrar para todos nós, para Executivo, Legislativo e Judiciário, que quem dá o norte para o Brasil é a população".

Os pesquisadores do Centro de Comportamento Político (Cecomp) da UFMG, Mário Fuks e Eduardo Ryo Tamaki, mostraram ao UOL números inéditos dos estudos que desenvolvem sobre o tema desde 2018.

Pela metodologia do Team Populism, um político — seja de esquerda, centro ou direita — que atinge nota maior ou igual a 0,5 numa escala até 2 é considerado populista.

Bolsonaro aumentou a força de seus discursos populistas na campanha eleitoral. Chegou a 0,9 durante o segundo turno.

Depois, no primeiro semestre de 2019, baixou o tom. Ficou em 0,6 em junho do ano passado. Mas, no discurso de Roraima, retomou para o índice de 0,9, destacou Tamaki ao UOL.

"Se você for olhar pelos números e pelo teor do discurso, ele retoma esse nível de populismo agora em Roraima também."

Para ele, o presidente se vale desse artifício para obter apoio de seu núcleo duro em um momento em que está cercado de problemas desde o final do ano passado.

Entre a questões mencionadas por Tamaki, estão o crescimento do Produto Interno Bruto abaixo dos níveis recentes da era de Michel Temer (MDB), os escândalos de corrupção, a morte de Adriano Nóbrega e os ataques de seus ex-aliados e adversários no Congresso, a elite da política.

Collor se valeu de populismo, mostra estudo

Como mostrou o portal no ano passado, desde a redemocratização, os únicos presidentes populistas foram Fernando Collor (ex-PRN, hoje no Pros) e Bolsonaro (ex-PSL, hoje sem partido), segundo o Team Populism.

Para um político ou um discurso ser considerado populista, é preciso valorizar o povo acima das instituições.

Também é necessário enfatizar uma disputa entre "nós" e "eles" e fazer uma crítica às "elites". Os pesquisadores do Team Populism consideram o fenômeno um risco para as democracias no mundo.

08.mar.2020 – Em grupo de WhatsApp, militante bolsonarista pede fechamento do Congresso e do STF como pauta das manifestções de 15 de março. A mensagem foi enviada em 8 de março de 2020. - Reprodução - Reprodução
"Retirar o STF do poder", diz convocação
Imagem: Reprodução

O líder mais populista do planeta é o presidente da Venezuela, o político de esquerda Nicolás Maduro, com nota 1,6. Donald Trump, de direita, tem nota 0,8, mostra a base de dados do Team Populism.

Bolsonaro se apresenta como representante do povo, diz pesquisador

Até agora, os pesquisadores da UFMG separaram mais de 60 discursos do presidente Jair Bolsonaro desde 2018 para a base de dados do Team Populism.

Isso inclui cerimônias no Palácio do Planalto, algumas entrevistas na portaria do Alvorada e transmissões ao vivo em redes sociais. No momento, mais de 20 discursos já foram analisados e receberam uma nota.

Para o pesquisador Eduardo Tamaki, no discurso de Roraima Bolsonaro se apresenta como representante do povo. "Por causa do embate contra o establishment político, contra o Legislativo, Judiciário, Supremo, ele acaba usando táticas populistas, que é essa polarização, 'nós contra eles'. É falar que ele está ali porque ele está representando o povo."

O discurso e Roraima "tem forte exaltação do povo", ao contrário do que acontecia naqueles do início do governo de Bolsonaro. "A imagem do povo ocupava uma posição secundária, era inconsistente ou implícito, durante a campanha e esses primeiros meses", lembra.

"Só que nesse tipo de discurso que ele deu em Roraima tem uma forte exaltação do povo. O povo sai de uma imagem de segundo plano e volta a assumir a centralidade. É o que se espera de um discurso populista."

De acordo com os estudos do Team Populism e da UFMG, Bolsonaro utilizou um discurso populista uma vez no primeiro turno da campanha eleitoral. Mas Tamaki destaca que esse nível foi subindo após a facada recebida em Juiz de Fora (MG), em setembro. O então candidato volta a ser populista na reta final da campanha.

Mesmo com vetos, Bolsonaro infla manifestações

Nas redes sociais e grupos de WhatsApp as manifestações são contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), algumas pedindo o fechamento das instituições, uma ameaça de regime totalitário, em afronta à democracia. No entanto, Bolsonaro nega que os protestos tenham esse objetivo.

Na semana passada, o governo e o Congresso fecharam um acordo e mantiveram vetos para deixar, nas mãos do Executivo, o controle sobre R$ 30 bilhões do orçamento, um dos motores das manifestações do dia 15. No entanto, o governo e os parlamentares ainda negociam se o Legislativo teria controle sobre R$ 20 bilhões dessas verbas.

Para Tamaki, Bolsonaro precisa de apoio do seu núcleo duro de apoiadores para resolver isso. Por isso, ele apela a um discurso populista para enfrentar este e outros problemas que se acumulam desde o fim do ano passado.

"Conforme vão surgindo mais problemas, mais escândalos relacionados à família, a gente vê que a imagem dele começa a deteriorar um pouco, mas ele ainda mantém aquele apoio do núcleo bruto dele."

Regimes populistas atacam a democracia, diz professor

Um dos coordenadores do Team Populism, o professor Bruno Castanho, explicou ao UOL que os regimes populistas costumam atacar a democracia.

"Alguns ataques a elementos da democracia acontecem com governos populistas", afirmou ele, em entrevista no ano passado, quando os primeiros números do governo Bolsonaro foram divulgados.

"Alguns deles dão alguns passos em direção a um regime menos democrático, alguns deles completamente para um lado mais autoritário, como é o caso mais extremo da Venezuela. Vários regimes populistas atacam sistematicamente a liberdade de imprensa."

O Team Populistm é uma rede internacional de cerca de 80 pesquisadores, dirigida pelo professor Kirk Hawkins, da Universidade de Brigham Young (BYU), nos EUA.

Os números coletados pela UFMG estão em atualização. Mais discursos de Bolsonaro devem ser acrescentados à base de dados, como outras transmissões ao vivo em redes sociais, para serem analisados depois. As falas do presidente entre julho de 2019 e fevereiro de 2020 ainda não receberam uma avaliação. A análise do discurso de Roraima foi feita com base na publicação disponível nas redes sociais do presidente.

29.fev.2020 - Em grupo de WhatsApp, militante bolsonarista compartilha vídeo do deputado Otoni de Paula (PSC-RJ) convocando para manifestações de 15 de março. Abaixo, ele escreve mensagem defendendo o fechamento do Congresso. As mensagens são de 29 de de fevereiro de 2020. - Reprodução - Reprodução
"Apoiar o fechamento do Congresso", diz convocação
Imagem: Reprodução

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