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Bolsonaro diz que Moro se ocupou mais com Marielle que facada e mirava STF

Do UOL, em São Paulo

24/04/2020 17h01Atualizada em 24/04/2020 19h27

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou na tarde e hoje, em pronunciamento no Palácio do Planalto, que Sergio Moro só pensa no próprio ego e não se importa com o bem dos brasileiros e do país. Negou ainda que tenha intenção de fazer qualquer interferência política na PF (Polícia Federal) ou que quisesse ter acesso a investigações sigilosas. As declarações foram dadas horas depois da demissão do ministro da Justiça e da Segurança Pública e da exoneração do diretor-geral da PF, Maurício Leite Valeixo,

O presidente fez várias acusações contra a dupla e disse que a PF se preocupou mais em investigar a morte da vereadora Marielle Franco (Psol) do que a facada que ele sofreu na campanha eleitoral de 2018. Afirmou ainda que Moro pediu a ele uma indicação ao STF (Supremo Tribunal Federal) - contrariando o que o próprio ex-juiz falou em pronunciamento nesta manhã - e que "não são verdadeiras as declarações [de Moro] de que eu gostaria de saber de investigações [da PF] em andamento".

Hoje pela manhã, tomando café com alguns parlamentares, eu lhes disse: hoje vocês conhecerão aquela pessoa que tem o compromisso consigo próprio, com seu ego, e não com o Brasil. O que eu tenho ao meu lado é o povo brasileiro
presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

Em nota divulgada após o pronunciamento, Moro afirmou que uma indicação ao STF nunca esteve em pauta como "moeda de troca" pela exoneração de Valeixo.

Hoje mais cedo, Moro deixou o cargo e fez várias acusações contra Bolsonaro. O ex-juiz declarou que o mandatário trocou o comando da PF para ter acesso a investigações e relatórios da entidade, o que é proibido pela legislação. Também declarou que Bolsonaro estava preocupado com inquéritos que correm atualmente no STF (Supremo Tribunal Federal). O anúncio foi feito no final da manhã na sede da pasta, em Brasília.

No pronunciamento desta tarde, Bolsonaro defendeu a exoneração de Valeixo. "Se eu posso trocar o ministro, por que não posso trocar o diretor da PF? Eu não tenho que pedir autorização a ninguém para trocar o diretor ou qualquer um outro que esteja na pirâmide hierárquica do poder Executivo."

Valeixo foi exonerado pelo presidente na manhã de hoje. O decreto, publicado no Diário Oficial da União (DOU), veio assinado eletronicamente tanto pelo presidente quanto por Moro — que negou ter assinado o documento. No decreto, consta que a exoneração ocorreu "a pedido". O agora ex-ministro, no entanto, disse que Valeixo não pediu para ser demitido e que a Secretaria de Comunicação do governo federal havia mentido. Já Bolsonaro reiterou que, sim, Valeixo quem pediu para sair alegando estar "cansado" do trabalho.

Bolsonaro fez o pronunciamento rodeado de apoiadores, entre eles o vice-presidente Hamilton Mourão, os ministros Nelson Teich (Saúde, empossado na semana passada após a demissão de Luiz Henrique Mandetta, Paulo Guedes (Economia), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Abraham Weintraub (Educação), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), Tereza Cristina (Agricultura, Pecuária e Abastecimento), Onyx Lorenzoni (Cidadania) e Augusto Heleno (Defesa).

Também estavam presentes os deputados Carla Zambelli (PSL-SP), Hélio Lopes (PSL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), terceiro filho de Jair Bolsonaro. Das mais de vinte pessoas que acompanharam o presidente durante o discurso, apenas o ministro Paulo Guedes usava máscara de proteção contra o coronavírus, medida recomendada pela Organização Mundial da Saúde para evitar a propagação do vírus.

Bolsonaro diz que PF se preocupou mais com Marielle

Durante o pronunciamento, Bolsonaro se queixou da lentidão da PF, sob comando de Valeixo e de Moro, na apuração do inquérito sobre a facada sofrida pelo então candidato à presidência na campanha eleitoral de 2018.

"É intervenção pedir a Sergio Moro, quase implorar, que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro?", disse o presidente., ao se referir à "interferência política" da qual foi acusado por Moro

A PF de Sergio Moro se preocupou mais com quem matou Marielle (Franco, ex-vereadora do Rio) do que com quem tentou matar seu chefe supremo. Cobrei muito deles isso daí, não interferi
presidente Jair Bolsonaro

"Acho que todas as pessoas de bem no Brasil querem saber. Entendo, me desculpe senhor ex-ministro: entre meu caso e o da Marielle, o meu está muito menos difícil de solucionar. Afinal, o autor foi preso em flagrante de delito", apontou ainda o presidente.

Adéllio Bispo foi considerado "inimputável" por ter transtornos psicológicos e está preso. Bolsonaro não recorreu da decisão, o que acabou encerrando o caso.

Moro exigiu indicação ao STF, diz Bolsonaro

O presidente afirmou ainda durante a coletiva que o ex-ministro da Justiça pediu para ser indicado a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) antes que Valeixo fosse exonerado da direção da PF.

'O senhor pode exonerar em novembro, depois que me indicar para o Supremo Tribunal Federal'
Sergio Moro, segundo Jair Bolsonaro

Bolsonaro afirmou que Moro teria sido favorável à saída de Valeixo ao fim do ano, caso o presidente o indicasse a uma vaga no STF. "Mais de uma vez o senhor Sergio Moro disse para mim: 'Pode trocar o Valeixo sim, mas em novembro, depois que me indicar para o Supremo Tribunal Federal'", disse Bolsonaro. "É desmoralizante para um presidente ouvir isso e, mais ainda, externar", disse.

A declaração contraria o que o próprio Sergio Moro falou de manhã. Ele negou que tenha negociado uma vaga no STF com Bolsonaro ao ser convidado para assumir o Ministério da Justiça. Durante seu mandato, o presidente terá direito a indicar pessoas para duas vagas na Corte, com as saídas já previstas de Celso de Mello e Marco Aurélio Mello.

Após a fala de Bolsonaro, Moro divulgou em rede social uma nota negando as alegações do presidente.

"A permanência do Diretor Geral da PF, Maurício Valeixo, nunca foi utilizada como moeda de troca para minha nomeação para o STF. Aliás, se fosse esse o meu objetivo, teria concordado ontem com a substituição do Diretor Geral da PF", afirmou ele.

Família

Bolsonaro falou sobre a família mais de uma vez ao longo de quase uma hora de pronunciamento. Primeiro, ele afirmou ter posto em jogo "o desconforto de sua família" ao se candidatar à presidência: "Mais que a vida, para minha pátria, eu tenho dado. Eu tenho dado o desconforto da minha família. [Sofri] as acusações mais torpes possíveis. Não só contra minha família, bem como aqueles que estão ao meu lado".

Ao lembrar a facada que levou em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral, em 2018, Bolsonaro disse que o episódio "marca a história de uma nação" e que ficou registrado "muito mais que a minha vida, a da minha família, em especial, da minha filha Laura, de 9 anos de idade". Laura é a quinta filha do presidente, a única fruto do casamento com Michelle Bolsonaro.

Por fim, ele mencionou acusações sobre sua família — em especial sobre seu quarto filho, Jair Renan, e sobre a mãe e a avó de sua mulher, Michelle. "A questão do meu filho 04 [Jair Renan], quando, no clamor da questão do porteiro [nas investigações do assassinato de Marielle Franco], apareceu que ele teria namorado a filha desse ex-sargento [Adélio Barbosa]", lembrou.

Bolsonaro disse que, para esclarecer, pediu que o filho "abrisse o jogo" e teria ouvido, como resposta: "Pai, eu saí com metade do condomínio, nem lembro quem é essa menina, se é que eu estive com ela".

Ele continuou citando acusações também sobre a família da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. "Descobriram que a avó da minha esposa já foi presa por três anos por tráfico de drogas. Confesso que não sabia, e se soubesse teria casado com a sra. Michelle assim mesmo", falou.

"Fiquei sabendo através de vocês [imprensa] também que a mãe dela cometeu crime de falsidade ideológica. Na sua inocência, em vez de fazer uma cirurgia plástica para ficar mais jovem, mais bonita, ela resolveu fazer uma cirurgia na certidão de nascimento diminuindo dez anos a sua idade. Esse foi o crime dela", terminou o presidente.

Jair Bolsonaro discursa após saída de Sergio Moro - EVARISTO SA / AFP - EVARISTO SA / AFP
Jair Bolsonaro discursa após saída de Sergio Moro
Imagem: EVARISTO SA / AFP

1º contato com Moro em 2017 foi decepcionante

Bolsonaro relatou ter conhecido Moro em março de 2017 e, relembrou que no primeiro contato, foi ignorado pelo então juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba ao abordá-lo no aeroporto de Brasília.

"Ele praticamente me ignorou. A imprensa toda noticiou isso, dando descrédito à minha pessoa. Confesso que fiquei triste porque era um ídolo para mim. Eu era apenas um deputado, um humilde deputado", afirmou Bolsonaro, que disse que Moro depois ligou para se desculpar.

"Não vou dizer que chorei porque estaria mentindo, mas fiquei muito triste. Para minha surpresa, alguns dias depois, eu estava em Parnamirim e recebi um telefonema dele, onde obviamente, sua consciência tocou e ele conversou comigo sobre o episódio. Dei por encerrado o assunto. Me senti de certa forma reconfortado."

Controle de gastos

O presidente afirmou que "busca dar exemplo" quando o assunto é controle de gastos e que nunca pediu para ser "blindado" por Moro e pela PF.

"Nos últimos dois anos como deputado, gastei menos da metade do que poderia gastar da cota parlamentar com passagem aérea, com despesa de combustível, com alimentação, com aluguéis. Na vida de presidente da República, tenho três cartões corporativos: dois são usados para despesas, as mais variadas possíveis, afinal de contas mais de 100 pessoas trabalham na minha segurança diariamente; e um terceiro cartão, que eu posso sacar R$ 24 mil por mês sem prestar conta", declarou.


Bolsonaro continuou, dizendo que nunca usou a cota de R$ 24 mil e que abriu mão de regalias como o aquecimento da piscina do Palácio da Alvorada, sua residência oficial em Brasília.

"Quanto eu usei dessa verba desde janeiro do ano passado? Zero. Desliguei o aquecedor da piscina olímpica do Alvorada, modificamos o cardápio, mas isso não tem nada a ver, é obrigação da minha parte. Eu tenho preocupação com a coisa pública e busco dar exemplo", disse.

Demissão de Moro

Em um pronunciamento forte (leia a íntegra) realizado hoje no Ministério da Justiça, Moro procurou se distanciar de Bolsonaro e marcar posição. Disse que a mudança como foi feita é uma interferência política do presidente na PF e que o mandatário está preocupado com inquéritos que estão sendo avaliados pelo STF.

O ex-juiz federal era o principal nome do governo Bolsonaro. Tinha popularidade, segundo o Datafolha, mais alta que a do próprio presidente. As taxas giram acima dos 50% de aprovação, enquanto a do presidente patina abaixo dos 40%.

As acusações feitas pelo ministro podem encaminhar processos no Congresso e no STF —como as sobre interferência política na PF e uma possível falsidade ideológica por constar o nome do ex-ministro na exoneração de Valeixo, que Moro nega ter assinado.

Embates recentes

O atrito mais recente entre Bolsonaro e Moro tem relação com investigações sobre os gastos de prefeituras com verbas para o combate à pandemia do novo coronavírus teriam motivado uma pressão de parlamentares do "Centrão" contra a PF. A saída de Valeixo, que Bolsonaro queria tirar do cargo desde meados do ano passado, seria uma consequência dessa situação.

Mas Moro já esteve a ponto de ser demitido em agosto de 2019. Na época, o ex-ministro e Bolsonaro discordavam sobre retirar o superintendente da PF do Rio de Janeiro, Ricardo Saadi. Moro queria mantê-lo no cargo, mas o presidente queria sua saída. Saadi acabou exonerado no final de agosto daquele ano.

Segundo Moro, com a saída de Valeixo, Bolsonaro queria novamente fazer uma troca no comando da PF no Rio. "Sem que me fosse apresentada uma causa, uma razão".

Nomeação e armas

Um dos primeiros atritos foi a respeito de uma nomeação de Moro no começo do ano passado. A cientista política Ilana Szabó seria suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Mas Bolsonaro e apoiadores do presidente desaprovaram a escolha por conta de posições de Szabó. A ela, Moro admitiu que sofreu pressão para o recuo sobre a nomeação.

O decreto para flexibilização da posse de armas também gerou embate entre Bolsonaro e Moro. O ex-ministro dizia que ela não fazia parte de uma estratégia de combate à criminalidade. A flexibilização, porém, era uma bandeira de campanha de Bolsonaro.

Coaf e Segurança Pública

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) também foi alvo de embates entre o presidente e o ex-ministro. Moro queria ficar com o órgão em razão de ações para investigações de corrupção. O Coaf chegou a investigar um dos filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ). Bolsonaro aprovou a mudança do órgão para o Banco Central.

Em janeiro, Bolsonaro chegou a pensar em retirar a responsabilidade da Segurança Pública da pasta de Moro, o que enfraqueceria o ex-ministro. O presidente, porém, desistiu da ideia.

A pandemia

A crise com filhos do presidente foi mais recente, em meio à pandemia do novo coronavírus. O Ministério da Justiça pensou em disponibilizar tablets para que presos pudessem ter contato com seus familiares, já que visitas estão suspensas em razão das medidas de distanciamento social para evitar a propagação da covid-19. Os três filhos de Bolsonaro fizeram críticas a respeito da intenção.

A condução de Bolsonaro das ações contra a pandemia do novo coronavírus também irritou Moro. O ex-ministro não foi chamado pelo presidente para participar de debates no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a judicialização de questões ligadas ao combate à covid-19.

Moro também estaria descontente com o presidente por ele não ter afinado o discurso com Luiz Henrique Mandetta (DEM), então ministro da Saúde, cujas orientações contra a pandemia eram seguidas pelo ex-ministro da Justiça. Bolsonaro era contra Mandetta.