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Homem que atacou enfermeiras trabalha para o Ministério de Direitos Humanos

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

05/05/2020 00h01Atualizada em 05/05/2020 18h34

Resumo da notícia

  • Renan da Silva Sena agrediu enfermeiras que faziam protesto pacífico no DF
  • Funcionário de ministério, ele não executa tarefas ou comparece desde março
  • Pasta afirma que pediu demissão do funcionário terceirizado há mais 40 dias
  • Ministério não respondeu ao UOL sobre provas do desligamento do servidor
  • Sena presta serviços à Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente

Renan da Silva Sena, funcionário terceirizado do MDH (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), agrediu verbalmente e cuspiu em enfermeiras que faziam uma manifestação na Praça dos Três Poderes, em Brasília, na última sexta-feira (1º).

Sena é analista de projetos do setor socioeducativo, mas não aparece nem exerce suas atividades no ministério desde meados de março. Ele foi contratado pela empresa G4F Soluções Corporativas Ltda, que tem um contrato com o MDH no valor de R$ 20 milhões de prestação serviços operacionais e apoio administrativo.

Comandada pela ministra Damares Alves, a pasta afirmou, em resposta ao UOL, que pediu à empresa terceirizada a demissão de Sena e que ela teria sido concretizada em 23 de abril. Porém a reportagem pediu e não recebeu a documentação que provasse o ato demissionário. Verificou-se também que o email funcional dele continuava ativo até o dia de ontem.

Após a publicação desta reportagem, o MDH e a empresa terceirizada afirmaram que a rescisão contratual de Sena foi efetivada ontem, três dias depois de ele agredir as enfermeiras.

O ministério declara ainda "reputar [crer] por inadmissíveis quaisquer atos de violência e agressão, tendo a ressaltar neste sentido uma série de ações de enfrentamento a todos os tipos de violência desenvolvidas no âmbito de suas pastas temáticas."

Sem trabalhar desde março

Na sexta, cerca de 60 enfermeiros homenageavam 55 colegas de profissão mortos por causa da pandemia do novo coronavírus. Vestido de camisa amarela e com uma bandeira nacional, Renan agrediu com xingamentos e empurrões duas enfermeiras que participavam do ato. Ele cuspiu ainda no rosto de uma estudante de medicina que tentou defender as profissionais de saúde.

Renan Sena 222 - Reprodução/Sindicato dos Enfermeiros do DF - Reprodução/Sindicato dos Enfermeiros do DF
Imagem: Reprodução/Sindicato dos Enfermeiros do DF

Engenheiro eletricista de formação e missionário da Igreja Batista Vale do Amanhecer, Renan Sena presta serviço, desde fevereiro, à SNDCA (Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), que coordena o Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), responsável pela execução de medidas destinadas a adolescentes em conflitos com a lei.

Sena é considerado por colegas de trabalho "como uma pessoa de trato difícil e insubordinada", apurou a reportagem.

Desde meados de março até o dia em que agrediu as enfermeiras, ele chegou a alegar que estava doente, não respondeu aos emails de seus superiores no MDH nem executou suas tarefas. Contudo, participou de diversos protestos em que pedia intervenção militar ou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cometesse um golpe de Estado, como o ato realizado em Brasília no dia 15 de março.

No dia de 19 de abril, Sena foi visto no ato em que Bolsonaro discursou para manifestantes que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal).

Sena participou ainda de protestos em frente à Embaixada da China, país a quem acusa de propagar intencionalmente o coronavírus, e também em frente ao STF, classificado por ele "como vergonha nacional".

Ministério afirma que havia pedido demissão de Sena

Em resposta, o ministério afirmou que no dia 18 de março notificou a G4F para que desligasse Sena, "já que o prestador de serviços demonstrou expresso descontentamento com a função até então exercida na pasta e a necessidade da área a que ele encontrava-se vinculado de um outro profissional que pudesse desempenhar as funções que até então lhe eram atribuídas."

A apuração do UOL permite afirmar que a empresa terceirizada não foi notificada do pedido de desligamento

renan sena - Reprodução - Reprodução
Renan da Silva Sena agrediu enfermeiras na última sexta-feira (1º) em Brasilia
Imagem: Reprodução

No dia de 16 de abril, ainda de acordo com a resposta do ministério, a empresa terceirizada foi informada que Sena "não apresentava entregas e tampouco retornava às tentativas de contatos telefônicos ou por email desde 06/04, ressaltando-se que até esta data, o mesmo apresentava as demandas que lhe eram solicitadas por sua chefia imediata."

O MDH afirmou por fim que em 20 de abril, reiterou "a manifestação de preocupação com o eventual estado de saúde do prestador e, em 23 de abril, tivemos parecer favorável a sua substituição, oportunidade em que nos foi informada sua demissão."

A reportagem pediu acesso à assessoria do ministério a um parecer ou a uma documentação que comprovasse a demissão de Sena, mas não recebeu resposta.

Conselho de enfermagem afirma que acionará Justiça

Renan Sena estava acompanhado da empresária Marluce Carvalho de Oliveira Gomes, que também insultou as enfermeiras. O professor de inglês Gustavo Gayer divulgou nas redes sociais imagens do protesto, classificando-o como "mentiroso" é considerado o terceiro agressor.

Foram enviadas mensagens aos emails dos três citados nesta reportagem, que não responderam. Ligações telefônicas para os respectivos celulares não foram atendidas.

"O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) juntou todo o material probatório, identificou os agressores e vai processar cada um deles, pelos atos que praticaram hoje. A ignorância e a violência perpetrada contra a Enfermagem do Distrito Federal, em pleno Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, não ficará impune, será respondida judicialmente, para que não mais se repita", afirmou o órgão representativo dos profissionais.

A G4F Soluções Corporativas Ltda pertence aos empresários Elmo Toledo Lacerda e Matheus Falcão Lacerda. Os contratos com o governo federal já lhe renderam pouco mais de R$ 98 milhões, de acordo com dados do Portal da Transparência.

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