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De nomeação de irmã à operação da PF: o rompimento de Witzel e Bretas

Marcelo Bretas e Wilson Witzel em foto publicada nas redes sociais - Reprodução
Marcelo Bretas e Wilson Witzel em foto publicada nas redes sociais Imagem: Reprodução

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

19/05/2020 20h00

Alvo de acusações do governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), o juiz federal Marcelo Bretas —responsável pelas ações em primeira instância da Lava Jato fluminense— tem um histórico de amizade e apoio ao ex-colega de toga, do qual agora se tornou desafeto.

Na tarde de hoje, Witzel disse à CNN Brasil que as recentes decisões judiciais de Bretas contra integrantes do seu governo são "ilações". O governador fez questão de lembrar que Bretas é investigado pelo TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) por suposta atividade político-partidária ligada ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Mas, até pouco tempo atrás, os dois trocavam elogios e apoios.

Antes mesmo de anunciar a candidatura ao Palácio Guanabara, em 2017, Witzel foi à Câmara Municipal do Rio de Janeiro e discursou na cerimônia em que Bretas foi condecorado com a Medalha Pedro Ernesto —a maior comenda do município.

Na ocasião, Witzel, que ainda era juiz federal, disse que Bretas era como um "bom vinho que fermentou por alguns anos em Petrópolis", em referência ao local em que o colega havia trabalhado antes de vir para a capital e passar a protagonista da Lava Jato no estado.

Irmã de Bretas nomeada e "sumiço" de Witzel das redes sociais do juiz

Ex-colegas de magistratura, os dois sustentaram durante a campanha que haviam cortado relações provisoriamente em nome da isenção do processo eleitoral.

Em 2019, no entanto, Bretas postou em seu perfil no Instagram uma foto de mãos dadas com o governador do Rio, para quem desejou sucesso: "Que Deus o oriente e abençoe", disse na legenda.

Marcilene Cristina Bretas Santana, irmã de Bretas, foi nomeada em um cargo comissionado na Controladoria-Geral do Estado em abril de 2019 e segue no posto.

Porém, a proximidade de Bretas com o clã Bolsonaro afastou os antigos amigos. O juiz saiu em defesa do presidente da República quando houve o vazamento do depoimento do porteiro do condomínio em que morava na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

Na ocasião, o funcionário do condomínio Vivendas da Barra afirmou que foi Bolsonaro quem autorizou a entrada do ex-PM Élcio Queiroz —um dos acusados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco— no local horas antes do crime, versão que foi posteriormente descartada pelas investigações.

Dias depois, o presidente da República acusaria Witzel de manipular as investigações. Após esse episódio, Bretas e Witzel se afastaram, e o juiz da Lava Jato apagou de suas redes sociais todas as menções ao governador.

Na entrevista de hoje à CNN, Witzel revelou mágoa com o ex-colega. "[Bretas] Apagou todas as fotos que tinha comigo na internet. É preciso avaliar a decisão [dele], essa ilação. Até onde eu li, é extremamente frágil. Eu acho, assim como vários governadores, que a Polícia Federal está fazendo várias ilações. Estão tentando colocar todos os governadores em investigação", rebateu.

O governador ainda disse que Bretas teria se aproximado de Bolsonaro de olho em vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

"É bom lembrar que o juiz está sendo investigado pelo TRF-2 por atividade político-partidária, pelo que está na imprensa, ligado ao presidente Bolsonaro com intenção de ser ministro do Supremo", completou.

Em nota, Bretas lamentou as falas de Witzel e disse não ficar surpreso com atitudes do governador do Rio. O magistrado optou por não rebater as declarações.

Lava Jato: Bretas autorizou prisão de empresário com contratos no governo Witzel

Na última semana, a Lava Jato no Rio prendeu preventivamente o empresário Mario Peixoto durante a Operação Favorito. As prisões foram feitas pela PF depois de autorizadas por Bretas.

De acordo com a denúncia, o grupo liderado por Peixoto manteve durante o governo de Witzel um esquema de corrupção iniciado em 2012. De acordo com a Lava Jato, interceptações de ligações telefônicas e mensagens feitas com autorização judicial mostram que Peixoto continuou sendo beneficiado com contratos direcionados na atual gestão.

A relação entre Witzel e o empresário era questionada desde a campanha eleitoral. Braço direito do governador, o secretário Lucas Tristão (Desenvolvimento Econômico e Geração de Emprego e Renda), seria o elo entre o governador e o empresário, de quem foi advogado.

Em nota, o governador Wilson Witzel disse que todos os contratos com as empresas serão auditados e terão os pagamentos suspensos durante a apuração. Caso irregularidades sejam encontradas, os vínculos serão encerrados.

"Caso haja participação de funcionários e servidores do governo, os mesmos serão exonerados", disse o governador. "É inadmissível que pessoas queiram cometer ilícitos, principalmente neste momento de pandemia e de luta pela vida de milhares de pessoas."

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