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Conteúdo publicado há
2 meses

Com Pazuello e sem máscara, Bolsonaro causa aglomeração em ato no Rio

Igor Mello

Do UOL, no Rio

23/05/2021 09h56Atualizada em 23/05/2021 17h50

Sem máscara, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participou hoje de um passeio com motociclistas no Rio que terminou com um discurso em que atacou governadores e prefeitos que decretaram restrições devido à pandemia do novo coronavírus.

Segundo ele, as restrições são adotadas "sem qualquer comprovação científica", na contramão do que dizem epidemiologistas, que recomendam medidas de distanciamento social. Ele não fez menção à compra de mais vacinas e insumos contra a doença pelo governo federal.

O ato percorreu da zona oeste até o Aterro do Flamengo, na zona sul da cidade, onde o presidente encontrou com o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que também não vestia máscara.

Pazuello elogiado

Pazuello depôs por dois dias na CPI da Covid, no Senado, durante a semana, na qual disse apoiar o uso de máscaras. O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, o senador Omar Aziz (PSD-AM), disse ontem que o pedido de reconvocação do ex-ministro será votado novamente na quarta-feira (26) pela CPI.

Ao subir no carro de som, Pazuello foi elogiado por Bolsonaro. "Esse é o gordo do bem. É o gordo paraquedista. O nosso ministro conduziu com muita responsabilidade", disse.

Pazuello e Bolsonaro em evento com motoqueiros, neste domingo (23)  - Reprodução/CNN - Reprodução/CNN
Pazuello e Bolsonaro em evento com motoqueiros, neste domingo (23)
Imagem: Reprodução/CNN

Em seu discurso, Bolsonaro voltou a fazer ameaças em meio a gritos de "Eu Autorizo" de apoiadores. A frase se tornou uma constante em atos pró-Bolsonaro depois que o presidente falou em agir contra medidas de restrição determinadas por governadores e prefeitos para o controle da pandemia.

"Estamos prontos, se preciso for, para tomar todas as medidas necessárias para garantir a liberdade de vocês. Temos o sagrado direito de ir e vir. Temos o direito de trabalhar, temos o direito de professar a nossa fé, de ir às igrejas e nos encontrar com Deus", disse, depois de dizer que governadores e prefeitos decretaram lockdowns e confinamentos "sem qualquer comprovação científica". Na verdade, epidemiologistas recomendam medidas de distanciamento social contra a disseminação do novo coronavírus, o que é ignorado por Bolsonaro.

Apesar de falar que não se tratava de uma ameaça, o presidente disse que a manifestação a seu favor traz "autoridade para agir", mais uma vez sem ser claro sobre quais medidas poderia tomar. No começo do mês, Bolsonaro ameaçou editar um decreto contra medidas de restrição de governadores, mas até o momento nenhuma movimentação neste sentido foi feita pelo governo.

"Não é ameaça, jamais ameaçarei qualquer poder. Mas acima de nós de qualquer poder há o primeiríssimo poder, que é o o do povo brasileiro", disse, antes de fazer um aceno aos gritos de "Eu Autorizo". "Isso nos traz autoridade para agir em nome de vocês", disse.

Veja fotos do passeio de moto de Bolsonaro com apoiadores no Rio

"Meu Exército"

Bolsonaro também repetiu a expressão "meu Exército Brasileiro", dizendo que ele "jamais irá à rua para manter vocês dentro de casa". "O meu Exército Brasileiro, a nossa PM e a nossa PRF. É obrigação nossa lutar por liberdade, democracia. O nosso exército são vocês. Mais importante do que o poder Executivo, Legislativo e Judiciário é o povo brasileiro", disse.

Além de Pazuello, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, participou do ato. Bolsonaro mais uma vez sugeriu seu nome como possível candidato ao governo de São Paulo nas eleições de 2022. Deputados federais bolsonaristas, como Carlos Jordy (PSL-RJ) e Hélio Lopes (PSL-RJ), também estavam presentes.

Jair Bolsonaro discursa durante ato a seu favor no Rio de Janeiro; Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello (1º à esq) participou de ato  - Pilar Olivares/Reuters - Pilar Olivares/Reuters
Jair Bolsonaro discursa durante ato a seu favor no Rio de Janeiro; Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello (1º à esq) participou de ato
Imagem: Pilar Olivares/Reuters

Aglomerações

A passagem de Bolsonaro pelo Rio de Janeiro foi marcada por aglomerações. Depois de descer do helicóptero, Jair Bolsonaro cumprimentou apoiadores. Assim como o próprio presidente, a maioria dos seus seguidores estava sem máscara.

O evento aconteceu em momento que o próprio governo recebe alertas para uma nova onda de casos de covid-19, que especialistas avaliam como ainda pior, e a média móvel de mortes pela doença parou de cair.

Na sequência, o presidente posou para fotos e, por volta das 10h, colocou o capacete e deu a arrancada para o passeio. No meio do percurso, Bolsonaro parou e subiu na moto em que era conduzido, como se posasse para fotos.

O último decreto estadual com medidas de prevenção da covid-19 determina que o uso de máscara é obrigatório em todos os locais públicos do Rio.

1.000 policiais

A participação de Bolsonaro mobilizou um efetivo de mais de 1.000 policiais militares de mais de 20 unidades diferentes. O evento em apoio ao presidente, pelas ruas das zonas oeste e sul da cidade, ocorre no momento em que o governo é pressionado pelas revelações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19, no Senado, e em que o o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cresce nas pesquisas de intenção de voto na eleição de 2022.

Apesar de o evento ser oficialmente organizado por apoiadores de Bolsonaro, toda a segurança no Aterro do Flamengo foi feita por homens do GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República). Os agentes estão munidos de detectores de metais e criaram um cercadinho para a imprensa, nos mesmos moldes do montado diariamente no Palácio do Alvorada.

Críticas da oposição

Enquanto o passeio de moto percorria as ruas do Rio de Janeiro, oposicionistas à gestão federal declararam que a cena é "debochada e perversa".

A líder nacional do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), relembrou que o país está diante de um alerta de terceira onda do coronavírus e sem insumos suficientes e com a capacidade de leitos reduzida, enquanto Bolsonaro "marca uma nova aglomeração".

"É debochado e perverso, só está onde está porque tem a cumplicidade de aliados irrigados por emendas e que nos negam o impeachment", disse Gleisi.

A mesma linha crítica foi adotada pelo senador Humberto Costa (PT-PE), integrante da CPI da Covid. O parlamentar acredita que o evento representa a "crueldade" de Bolsonaro diante de uma nação com "14,5 milhões de miseráveis".

Oposicionistas também publicaram vídeos de panelaços durante a passagem de Bolsonaro por alguns bairros do Rio de Janeiro.

Jornalista agredido durante o ato

Um jornalista da CNN Brasil foi agredido verbal e fisicamente durante o ato organizado pelos apoiadores do presidente, que contou com a presença de Bolsonaro.

O repórter Pedro Duran precisou ser retirado do local com a escolta da polícia. O jornalista foi insultado, além de receber chutes e socos, segundo apurou o UOL.

Em imagens compartilhadas na internet é possível ver apoiadores de Bolsonaro intimidando o jornalista a não executar seu trabalho com palavras como "vai para casa", "vagabundo" e "lixo".

O presidente circulou pela zona oeste e sul do Rio, mas não estava presente no momento em que o jornalista foi alvo das agressões.

Em nota ao UOL, a CNN Brasil informou que repudia qualquer tipo de agressão e que acredita na liberdade de imprensa como um dos pilares de uma sociedade democrática.

"A CNN Brasil repudia veementemente qualquer tipo de agressão. Acreditamos na liberdade de imprensa com um dos pilares de uma sociedade democrática. Os jornalistas têm o direito constitucional de exercer sua profissão de forma segura, para noticiarem fatos, dentro dos princípios do apartidarismo e da independência", escreveu a assessoria da emissora.

Assista ao vídeo:

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