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Senador defensor de cloroquina critica cientista Natalia Pasternak na CPI

Luiz Carlos Heinze, durante sessão da CPI da Covid  - Leopoldo Silva/Agência Senado
Luiz Carlos Heinze, durante sessão da CPI da Covid Imagem: Leopoldo Silva/Agência Senado

Do UOL, em São Paulo

15/06/2021 17h50Atualizada em 15/06/2021 20h09

Defensor da cloroquina e de outros medicamentos do chamado tratamento precoce, o senador governista Luis Carlos Heinze (PP-RS) criticou hoje a microbiologista Natalia Pasternak durante fala na CPI da Covid. As críticas foram feitas quatro dias depois da participação da cientista na comissão.

Para o senador, o fato de Pasternak ser bióloga não a permitiria dar "pareceres e opiniões sobre tratamentos clínicos e recomendações de tratamentos médicos". Heinze acusou a cientista de exercer ilegalmente a medicina.

"Segundo o Conselho Federal de Medicina e as normas que regulamentam o exercício profissional dos médicos, ao emitir pareceres e opiniões sobre tratamentos clínicos e recomendações de tratamentos médicos, a bióloga está exercendo de forma ilegal a medicina", disse Heinze. "A bióloga Natalia não possui atribuições legais para emitir opiniões sobre tratamentos medicamentosos, fato esse que limita várias das suas colocações e conclusões nesta CPI."

"Ao falar o número de pessoas que conseguiram obter a recuperação da covid mediante aplicação de tratamentos medicamentosos, a dra. Natalia me ironizou dizendo que esses quase 15 milhões de pessoas salvas devem ter tomado também o chazinho da vovó. Esta sua ironia revela um sarcasmo e o desrespeito muito grande com as áreas da medicina e da farmácia, como o uso de plantas medicinais e fitoterápicos", disse o parlamentar.

Esses 15 milhões de pessoas também tomaram o chazinho da avó, deram três pulinhos e uma volta no quarteirão" Natalia Pasternak, em depoimento na CPI, no dia 11 de junho

Em nota enviada ao UOL, o advogado Roberto Dias, do escritório DMBL - Dias Brandão Maggi Lima, que representa Natalia Pasternak rebateu a fala do senador Luis Carlos Heinze na CPI.

"Como advogado da Dra. Natalia Pasternak, tenho o dever de esclarecer que o Senador Luís Carlos Heinze, talvez se imaginando protegido pela imunidade parlamentar - e que isso seria sinônimo de impunidade e o autorizaria a ofender a honra das pessoas - diz que ela, ao depor na CPI da Covid e divulgado a comprovada ineficácia do chamado 'tratamento precoce', teria desrespeitado 'as áreas da medicina e da farmácia' e exercido ilegalmente a profissão de médica. Pela lógica do Senador, o Sr. Presidente da República e todos os defensores do tratamento com o 'Kit Covid' que não são médicos teriam cometido essa mesma ilegalidade. Como é público e notório, a Dra. Natalia é graduada em ciências biológicas e doutora em microbiologia pela USP. Na CPI, respondeu às perguntas que lhe foram formuladas, com base na ciência. Exerceu o direito constitucional de liberdade de expressão, de ensinar e de divulgar o pensamento e o saber (arts. 5º e 206 da Constituição). Se isso ofende negacionistas, ao menos permite que o público tenha acesso ao conhecimento científico sobre a ineficácia do chamado "tratamento precoce" pregado pelos aliados do vírus Sars-Cov-2."

Tratamento precoce não tem eficácia comprovada

Não há qualquer substância que tenha eficácia comprovada para prevenção ou tratamento precoce da covid-19. Há medicamentos que controlam sintomas, como febre. Algumas substâncias vêm sendo usadas em casos de pacientes hospitalizados, como o rendesivir, cujo uso é autorizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o corticoide dexametasona.

Em outubro, a OMS publicou que havia evidências conclusivas da ineficácia da hidroxicloroquina para a covid-19. Além disso, desde dezembro, tanto a cloroquina como a hidroxicloroquina são inclusive contraindicadas pela OMS para pacientes da doença. A maioria dos fabricantes brasileiros de cloroquina não recomenda o remédio para covid-19.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.