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Cúpula da CPI vê evidências de "crime gravíssimo" após Miranda citar Barros

Gabriel Toueg

Colaboração para o UOL, em São Paulo

25/06/2021 23h52Atualizada em 26/06/2021 10h30

Senadores da cúpula da CPI da Covid disseram hoje, após o encerramento de uma sessão longa, tumultuada e repleta de trocas de farpas, que há evidências de um "crime gravíssimo" por parte do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na negociação da vacina indiana Covaxin.

A declaração da direção do colegiado foi feita depois que o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) afirmou, durante o depoimento de hoje, que o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), foi o nome que Bolsonaro relacionou às supostas irregularidades na Covaxin.

Barros afirma que não participou da negociação da compra das vacinas da Covaxin e que está à disposição para prestar esclarecimento.

"A CPI entrou em uma outra fase a partir do depoimento de hoje", disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão. "Até agora tínhamos comprovado que houve omissões na aquisição de vacinas, [...] tínhamos comprovado que houve uma estratégia deliberada de imunidade coletiva, [...] tínhamos comprovado a existência de um gabinete paralelo negacionista".

Nós só não tínhamos a informação, até agora, é que tudo isso era por dinheiro, que esse esquema todo tinha como alicerce um enorme e estruturado esquema de corrupção"
Randolfe Rodrigues, senador

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), disse que a situação é muito grave. "Essa pessoa [Barros] que é citada pelo presidente [Bolsonaro] é líder do governo dele na Câmara", afirmou. "Nos estranha ele ter falado até aqueles impropérios e não ter tomado nenhuma providência".

Segundo o relato de Miranda à CPI, ao ser avisado por ele e pelo irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, de irregularidades no processo de aquisição da Covaxin, Bolsonaro disse dito que o "rolo seria coisa do...", sem citar o nome de Barros, que foi confirmado por ele mais tarde.

Após pressão de senadores, Miranda afirmou após insistência da senadora Simone Tebet (MDB-MS) que Barros era deputado que ele havia citado anteriormente. Ao longo do depoimento, Miranda disse 12 vezes "não se lembrar" do nome do líder do governo, que teria sido citado por Bolsonaro.

"O presidente da República demonstrou ter conhecimento [da denúncia] e de quem era o principal agente, o líder de seu governo na Câmara", afirmou Randolfe. "Estamos diante de evidências de um crime gravíssimo. Mesmo com a denúncia tendo chegado ao presidente, ele só vem tomar providências, pedindo a instalação de inquérito por parte da Polícia Federal no dia de hoje, exatamente no dia do depoimento do servidor público e do deputado federal", disse o vice-presidente da comissão parlamentar de inquérito.

Segundo Aziz, a CPI vai analisar uma proposta da senadora Simone Tebet de fazer uma acareação entre o ex-ministro Eduardo Pazuello (Saúde) e servidores envolvidos no processo da Covaxin com a Precisa Medicamentos, farmacêutica que agiu como intermediária na aquisição da vacina. Segundo Randolfe, além de Pazuello, participariam o ex-secretário executivo da pasta Elcio Franco e dois servidores "que participaram da construção do processo da Precisa".

Barros nega. "Não participei de nenhuma negociação em relação à compra das vacinas Covaxin. Não sou esse parlamentar citado. A investigação provará isso", postou em suas redes sociais "Estou à disposição para quaisquer esclarecimentos."

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.