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Pazuello disse que seria exonerado por não ceder a chantagem, diz deputado

Luciana Amaral e Gilvan Marques

Do UOL, em Brasília e São Paulo.

25/06/2021 20h06

Em depoimento à CPI da Covid, nesta sexta-feira (25), o deputado Luís Miranda (DEM-DF) disse ter alertado o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello sobre indícios de irregularidades em relação a contrato para aquisição da vacina indiana Covaxin. Segundo Miranda, Pazuello confidenciou durante conversa que já sabia que deixaria o cargo de ministro da pasta por não ceder a chantagem parlamentar.

A primeira conversa sobre o assunto teria ocorrido em uma viagem oficial para busca de vacinas em uma aeronave da FAB. O deputado aproveitou a ocasião para relatar as denúncias da compra suspeita.

"Aí ele [Pazuello] olhou pra minha cara, com uma cara de descontentamento, e falou assim: 'Luis, no duro, mas nessa semana, é certeza, eu vou ser exonerado. Eu tenho conhecimento de algumas coisas, tento coibir, mas, exatamente por eu não compactuar com determinadas situações, é que, assim, eu vou ser exonerado' (...) 'No final do ano mesmo, eu não quis dar o 'pixulé' para o pessoal. O 'cara', botou o dedo na minha cara e, olhando no meu olho, falou assim: 'Eu vou te tirar dessa cadeira'", relembrou Luís Miranda à comissão, sem citar nomes.

Após ser demitido do Ministério da Saúde, em março, Pazuello fez acusações de que havia interesse nos recursos da pasta em um discurso de despedida de sua equipe. Segundo ele, "todos queriam o 'pixulé' do final do ano", numa referência à distribuição dos recursos da pasta. O termo 'pixulé' é uma gíria e refere-se a uma pequena gorjeta.

Questionado por parlamentares da CPI se Pazuello lhe deu detalhes sobre o 'pixulé', Luís Miranda respondeu.

Falou apenas que pessoas muito poderosas que são do Parlamento avisaram a ele que, se ele não soltasse aquelas famosas emendas de final de ano pra um grupo específico —entregaram uma lista pra ele—, ele estaria fora. E naquela semana, realmente, ele cai. Deputado Luis Miranda relembra conversa com Pazuello

Pressionado por senadores, Luis Miranda não quis revelar o nome do parlamentar e disse que a CPI vai descobrir.

Denúncias de irregularidades

Na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo divulgou o depoimento sigiloso de Luís Ricardo Miranda, chefe da divisão de importação do Ministério da Saúde, e irmão do deputado federal Luís Miranda. Ele disse ao Ministério Público Federal em Brasília que recebeu uma "pressão atípica" para agilizar a liberação da Covaxin, desenvolvida pelo laboratório Bharat Biotech.

A compra de 20 milhões de doses da vacina colocou o governo federal em meio a suspeitas de crime na negociação do imunizante. Ontem (23), a polêmica esquentou com a insinuação de que o presidente Jair Bolsonaro foi informado de possíveis irregularidades.

No dia anterior, o deputado Luís Miranda disse, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ter alertado Bolsonaro e o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo a compra da Covaxin.

Em entrevista coletiva ontem, o ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência, afirmou que o presidente determinou à Polícia Federal que investigue a declaração de Miranda.

"Trata-se de uma compra muito suspeita, não apenas pelas denúncias graves de pressão para que a compra ocorresse rapidamente, mas por todos os elementos que cercam essa compra", disse Molon, destacando, entre outras questões, o preço do imunizante.

Documentos do Ministério das Relações Exteriores mostram que o governo comprou a vacina por um preço 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela própria fabricante.

O Brasil aceitou pagar o valor de US$ 15 a dose pela vacina indiana Covaxin, bem acima do valor das demais vacinas contra a covid-19 adquiridas pelo país, segundo apuração do UOL. As vacinas da Jansen e parte das vacinas da Pfizer, por exemplo, custaram US$ 10 a dose. Já a Coronavac, vendida pelo Instituto Butantan, custou menos de US$ 6 a dose.

*Com Gabriel Toueg, colaboração para o UOL

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.