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Com Lula no Nordeste, Bolsonaro dedica à região uma em cada 3 entrevistas

Com viagem de Lula (à esquerda na foto) ao Nordeste, Bolsonaro (à direita) deu início a uma série de entrevistas a rádios locais - Divulgação e Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
Com viagem de Lula (à esquerda na foto) ao Nordeste, Bolsonaro (à direita) deu início a uma série de entrevistas a rádios locais Imagem: Divulgação e Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo

Juliana Arreguy

Do UOL, em São Paulo

29/08/2021 04h00

Na cruzada para reduzir a rejeição no Nordeste e reverter os efeitos políticos da visita do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à região, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem cumprido uma vasta sequência de aparições em veículos de imprensa da região, dedicando pouco mais de um terço de suas entrevistas exclusivas a órgãos de imprensa nordestinos.

De 26 entrevistas exclusivas concedidas por Bolsonaro em 2021, 24 ocorreram nos meses de julho e agosto, após a divulgação da notícia de que Lula viajaria por estados nordestinos em busca de alianças para 2022. Nove destas 24 foram para veículos da região, que recebeu a mesma quantidade de entrevistas que Sul e Sudeste juntos.

Embora a sequência tenha iniciado em 7 de julho na Rádio Guaíba (RS), a Rádio Arapuan (PB) foi a primeira nordestina a entrar no circuito. A entrevista ocorreu em 26 de julho, um dia após a colunista do UOL Juliana Dal Piva noticiar detalhes da viagem de Lula.

O levantamento do UOL foi feito com base na agenda oficial de Bolsonaro e não levou em consideração eventos, entrevistas coletivas, lives de quinta-feira e declarações no gradil do Palácio do Alvorada. Apenas três entrevistas que não constam na agenda foram acrescentadas: para a rádio Jovem Pan (15/1), para a TV Brasil (19/7) e para a Voz do Brasil (20/7).

Confira, abaixo, as entrevistas de Bolsonaro ao longo de 2021:

  • 9 para o Nordeste: Rádio Arapuan (PB), Rede Nordeste de Rádio, Rádio Cidade (Luis Eduardo Magalhães/BA), TV Piauí (PI), TV Asa Branca (Caruaru/PE), Rádio 96 FM (Natal/RN), Rádio Brado (BA), Rádio Farol (AL) e Rádio Jornal (PE)
  • 6 de âmbito nacional: duas para as estatais TV Brasil e Voz do Brasil, duas para o apresentador Sikêra Junior (RedeTV!), uma para Ratinho (SBT) e uma para o "Nos Pingos nos Is" (Jovem Pan)
  • 5 para o Sudeste: Rádio Itatiaia (MG), Jovem Pan (Itapetininga/SP), Rádio 89 FM (São Paulo/SP), Rádio 93 FM (Rio de Janeiro/RJ) e Rádio Nova Regional (Vale do Ribeira/SP)
  • 4 para o Sul: Rádio Guaíba (RS), Rádio Banda B (Curitiba/PR), Rádio ABC 103 FM (Novo Hamburgo/RS) e Rádio Jovem Pan (Maringá/PR)
  • 2 para o Centro-Oeste: Rádio Grande FM (Dourados/MS) e Rádio Capital Notícia (Cuiabá/MT)

Para cientistas políticos consultados pelo UOL, o desafio de Bolsonaro é superar a lembrança de prosperidade durante o governo Lula (2003-2010), período em que houve maior oferta local de empregos e políticas sociais.

"Existe uma memória positiva do eleitor, uma gratidão econômica em relação ao Lula", diz Adriano Oliveira, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Luciana Santana, da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), cita a "memória de longo prazo" da população, principalmente no interior dos estados.

"Normalmente as pessoas ficam muito atreladas à gestão anterior, e o anterior é o Temer, a Dilma. Não é o caso aqui", diz.

Lula passou 12 dias no Nordeste. Encerrada na quinta-feira (26), a viagem serviu para que o petista retomasse contato com líderes de siglas como PP e PSD.

Nas redes sociais, apoiadores de Bolsonaro trataram a visita do petista à região como malsucedida e alegaram baixa adesão do público. O próprio presidente, na live de ontem, declarou que "o evento que mais juntou gente não tinha mais que 20 pessoas". Na visão dos especialistas, trata-se de uma tentativa de distorcer o objetivo da viagem.

Lula está indo a lugares estratégicos para acordos e lideranças locais. Claro que ele [Bolsonaro] vai buscar outra narrativa, porque quer comparar em termos de multidão."
Luciana Santana, cientista política da Ufal

Adriano Oliveira observa que Lula não cumpriu agendas públicas costumeiras, como visitas a agrovilas ou recepção em aeroportos.

"Nós sabemos que o bolsonarismo gera narrativas que não necessariamente correspondem à verdade. Não é uma visita pública ao Nordeste, mas sim para tratar de questões individuais com lideranças", diz o professor.

A disputa pelo eleitorado se dá também nas redes sociais, com a circulação de desinformação sobre a viagem do petista e de obras do governo federal na região.

Algumas das postagens que mais circularam nas redes foram de vídeos adulterados para fazer parecer que Lula foi vaiado no aeroporto do Recife (desmentido por AFP, Agência Lupa, Aos Fatos e Fato ou Fake), e a falsa notícia de que o ex-presidente foi expulso de um restaurante na cidade (verificado por Agência Lupa e Boatos.org).

Em julho e agosto, o Projeto Comprova, do qual o UOL faz parte, desmentiu que a transposição do Rio São Francisco e obras na rodovia BR-304, no Rio Grande do Norte, sejam mérito apenas do atual governo.

Carona em gestões anteriores

Luciana Santana avalia que Bolsonaro tenta resgatar a ideia de prosperidade a partir de conquistas anteriores à sua gestão. Ela citou como exemplo a presença dele no "lançamento" de uma obra em Maceió, em maio deste ano, que havia sido inaugurada cinco meses antes e foi empenhada pelos governos Dilma e Temer.

Bolsonaro vem fazendo isso desde o ano passado e vindo mais para o Nordeste para inaugurar obras, por exemplo, embora não sejam do governo dele."
Luciana Santana, cientista política da Ufal

    Apesar das investidas de Bolsonaro para conquistar o eleitorado no Nordeste, com forte apelo para as lideranças evangélicas e a pauta voltada para a segurança pública, os especialistas observam que a exigência da população é voltada para o social.

    "Por mais que tenha auxílio emergencial, não é o suficiente para reverter a crise econômica que está afetando muito as pessoas. É contraditório receber um auxílio do governo se tudo está caro no supermercado", afirma Luciana Santana, da Ufal.

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