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15 dias

Advogada cita parceria pró-cloroquina da Prevent com 'gabinete paralelo'

A advogada Bruna Morato, que representa médicos da Prevent Senior, durante depoimento à CPI da Covid - Roque de Sá/Agência Senado
A advogada Bruna Morato, que representa médicos da Prevent Senior, durante depoimento à CPI da Covid Imagem: Roque de Sá/Agência Senado

Thais Augusto, Luciana Amaral e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em São Paulo e em Brasília

28/09/2021 15h12Atualizada em 28/09/2021 21h21

A advogada Bruna Morato, representante do grupo de 12 médicos que denunciou a Prevent Senior, afirmou hoje, na CPI da Covid, que diretores da operadora de saúde se aproximaram do chamado gabinete paralelo para uma estratégia de defesa do medicamento hidroxicloroquina contra a covid-19.

Segunda a advogada, os médicos lhe relataram que existia interesse do Ministério da Economia para que o comércio e a indústria do país não parassem a fim de não haver um "abalo econômico muito grande". Por isso, formularam um "plano para que as pessoas pudessem sair às ruas sem medo".

Bruna relatou que, no início do ano passado, diretores da Prevent Senior também estavam preocupados após críticas do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta com relação à proliferação do vírus dentro da empresa e, por isso, tentavam se aproximar do governo.

"Durante essa aproximação, ele [diretor-executivo Pedro Batista Júnior] buscou o apoio, parece que tinha um médico, que era primo ou sobrinho do ministro Mandetta. Essa aproximação não teria dado certo", afirmou a advogada.

Após essa primeira tentativa, os diretores da Prevent Senior teriam então contatado o gabinete paralelo, grupo de aconselhamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre assuntos relacionados à covid-19 à revelia das orientações oficiais do Ministério da Saúde.

"Qual era essa estratégia? Através do aconselhamento de médicos... Esses médicos eu posso citar também de forma nominal, porque me foi dada essa explicação: o Dr. Anthony Wong, toxicologista responsável por desenvolver um conjunto medicamentoso atóxico; a Dra. Nise Yamaguchi, especialista em imunologia, a qual deveria disseminar informações a respeito da resposta imunológica das pessoas; o virologista Paolo Zanotto, para que ele falasse a respeito do vírus e tratasse a respeito dessa situação de forma mais abrangente, evocando notícias. E a Prevent Senior iria entrar para colaborar com essas pessoas. É como se fosse uma troca, a qual nós chamamos na denúncia de pacto, porque assim me foi dito. Alguns médicos descreveram como aliança; outros médicos descreveram como pacto", declarou Bruna.

A CPI investiga o envolvimento de Nise Yamaguchi e Paolo Zanotto no gabinete paralelo praticamente desde o início dos trabalhos. A médica chegou a depor à comissão, mas negou qualquer participação no grupo.

Ao UOL, Paolo Zanotto disse nunca ter tido contato com alguém no ministério da economia nem que o chamado gabinete paralelo tinha o objetivo de estimular o kit covid para frear medidas de restrição de locomoção.

O virologista afirmou que procurou a Prevent Senior algumas vezes para pegar dados, analisá-los e divulgá-los nas redes sociais. Mas sem que isso fosse um trabalho feito para o governo federal.

Anthony Wong morreu em 15 de janeiro deste ano, após ficar internado em um dos hospitais da Prevent Senior desde dezembro de 2020. Ele foi internado com sintomas de covid-19, segundo prontuário médico em reportagem da revista Piauí. Contudo, de acordo com a reportagem, a morte em decorrência do coronavírus teria sido ocultada.

A advogada dos médicos disse que esse "pacto" dava "certa segurança" para a Prevent Senior de que a empresa não sofreria fiscalização do Ministério da Saúde ou de outros órgãos vinculados.

"Inclusive, foi essa segurança que fez nascer neles o interesse de iniciar um protocolo experimental cientes de que não seriam devidamente investigados ou averiguados pelo ministério", completou.

Bruna Morato negou ter ouvido que o ministro da Economia, Paulo Guedes, estaria diretamente envolvido no suposto pacto.

Na verdade, o que eles falavam era de um alinhamento ideológico. A economia não podia parar, e o que eles tinham que fazer era isto: conceder esperança para que as pessoas saíssem às ruas. E essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina."
Bruna Morato, advogada

Segundo o relato, a Prevent Senior produziria informações para convergir com a teoria de tratamento precoce, com uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19.

"Havia um interesse inicial, vinculado ao governo federal, de que o Brasil não podia parar. A população geral ouviria a palavra 'prevenção' e teria coragem de sair na rua. Ainda que doentes, pessoas teriam esperança de que não iriam falecer daquilo."

Diretor da Prevent nega conversa com 'gabinete paralelo'

Na semana passada, o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, relatou à CPI da Covid que o empresário Carlos Wizard o colocou em um grupo de WhatsApp, mas que ele recusou participar e saiu logo em seguida.

"Quando tentaram me explicar, não entendi, [o grupo] não tinha um objetivo próprio e saí do grupo imediatamente. Não tinha porque permanecer em grupo que não tinha objetivo".

Segundo o presidente da CPI, o senador Omar Aziz (PSD-AM), a conversa seria de membros do "gabinete paralelo" —o grupo foi uma das principais linhas de investigação nos primeiros meses da comissão.

Na avaliação da cúpula da CPI, esse grupo sem vínculo formal com o Ministério da Saúde influenciou a tomada de decisões do Palácio do Planalto na condução da pandemia, como o incentivo à cloroquina e a defesa da tese de imunização de rebanho, na contramão do que dizem estudos científicos e autoridades da saúde.

O que diz a Prevent Senior

Procurada pelo UOL, a Prevent Senior afirmou que o depoimento da advogada Bruna Morato à comissão "confirma que se tratam de acusações infundadas, que têm como base mensagens truncadas ou editadas vazadas à imprensa e serão desmontadas ao longo das investigações". Disse ainda que "estranha o fato" de ela manter os autores da acusações sob anonimato e que não teve acesso aos autos da CPI para fazer sua ampla defesa.

A Prevent afirmou que a advogada já havia levado o "mesmo teor dessas imputações" à empresa antes da CPI para tentar fechar um acordo para não levar o caso à comissão.

À reportagem, Bruna confirmou a tentativa de acordo. Segundo ela, o acordo procurado não envolvia dinheiro. Segundo ela, a intenção era que a empresa reconhecesse dois pontos relativos a ações tomadas, como o estímulo ao chamado kit covid, e ajudasse os profissionais em eventuais processos que sofressem por conta do trabalho realizado na rede. Ou seja, os médicos também querem se defender de eventuais acusações de má conduta ética.

Na nota de hoje, a Prevent voltou também a dizer que sempre respeitou a autonomia dos médicos, "nunca demitindo profissionais por causa de suas convicções técnicas".

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.