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CPI da Covid só ouviu 27 dos 66 que tiveram indiciamento pedido por Renan

Rafael Neves

Do UOL, em Brasília

20/10/2021 14h09Atualizada em 20/10/2021 16h13

Apesar de ter se prolongado por quase seis meses, a CPI da Covid não ouviu nem metade das pessoas que deverão ser indiciadas pela comissão. Das 66 pessoas indiciadas no relatório final, lido hoje pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), apenas 27 prestaram depoimento aos senadores. As outras 39 pessoas, ou quase 60% do total, não chegaram a ser ouvidas.

O grupo dos que não prestaram depoimento inclui o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que não pode ser ouvido devido ao princípio de separação entre os Poderes. Além dele, contudo, os senadores deixaram de ouvir outras 38 pessoas, que vão desde os filhos do presidente até médicos da operadora Prevent Senior, passando por influenciadores bolsonaristas suspeitos de propagar fake news.

Nesta quarta, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE), pediu que seja anulado o pedido de indiciamento de quem foi ouvido na CPI, sob o argumento de que "o direito dessas pessoas a ampla defesa foi violado".

Em resposta a Girão, o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), disse que é impossível ouvir todas as pessoas e que tudo "foi feito na maior transparência possível".

Uma das integrantes desse grupo, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), afirmou hoje que vai acionar o STF (Supremo Tribunal Federal) para que a CPI tome o depoimento dela. A parlamentar ainda conclamou os demais alvos de indiciamento que também não foram ouvidos a adotarem a mesma medida junto ao Supremo.

"E peço também que os outros indiciados façam isso. Aqueles que não foram ouvidos, que sequer tiveram o direito de se defender, tentem entrar na CPI. Qual será o medo de Omar Aziz, Renan Calheiros e outros membros da CPI, que diversas vezes falaram meu nome, qual é o medo de falar na minha cara o que vocês pensam a meu respeito?", disse Zambelli.

Os excluídos

Segundo o relatório, Zambelli cometeu incitação ao crime ao divulgar fake news a respeito da pandemia. També será sugerido o indiciamento de outros parlamentares, como os deputados Carlos Jordy (PSL-RJ) e Bia Kicis (PSL-DF), além de influenciadores digitais bolsonaristas, como Allan dos Santos, Bernardo Küster e Oswaldo Eustáquio. Assim como Zambelli, eles não foram procurados para depor à CPI.

Renan também deverá pedir o indiciamento do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o do vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Os filhos do presidente são acusados de comandar um esquema de fake news a respeito da pandemia, e Flávio ainda é enquadrado no texto por advocacia administrativa e improbidade.

A CPI também deixou de ouvir pessoas ligadas à operadora Prevent Senior que aparecem no relatório de Renan. Entre gestores e médicos, 11 representantes da empresa devem ser indiciados. Só um deles, porém, falou aos senadores na comissão: o diretor-executivo da empresa, Pedro Benedito Batista Júnior, que negou acusações contra a empresa, como a ocultação de mortos pela covid.

Entre as 66 pessoas que terão indiciamento pedido pelo relator há seis ministros ou ex-ministros do governo Bolsonaro. Dois deles, contudo, não foram chamados a dar esclarecimento à CPI: o atual ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni, e o da Defesa, general Walter Braga Netto.

Além de estar arrolado no relatório por incitação ao crime devido à divulgação de fake news, Lorenzoni também é enquadrado por Renan no crime de genocídio de indígenas, por suposta "omissão deliberada e temerária no fornecimento de água" às aldeias quando era ministro da Cidadania.