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5 meses

Doria, Moro e Renan Calheiros criticam fala de Bolsonaro sobre Anvisa

Marcos Corrêa/PR
Imagem: Marcos Corrêa/PR

Weudson Ribeiro

Colaboração para o UOL, em Brasília

17/12/2021 15h08

Políticos de oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) criticaram por meio das redes sociais suposta tentativa de intimidação por parte do chefe do Executivo aos servidores da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O órgão autorizou ontem a vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra a covid-19 com o imunizante da Pfizer.

Horas depois do anúncio da agência, Bolsonaro pediu que fossem divulgados os nomes dos envolvidos na decisão e mentiu ao dizer que a vacina é experimental.

"Não sei se são os diretores e o presidente que chegaram a essa conclusão ou é o tal do corpo técnico, mas, seja qual for, você tem o direito de saber o nome das pessoas que aprovaram aqui a vacina a partir dos cinco anos para o seu filho. Agora mexe com as crianças. Então quem é responsável é você pai. Tenho uma filha de 11 anos. Vou estudar com a minha esposa qual decisão tomar", declarou o mandatário.

Hoje, o ex-ministro da Justiça, ex-juiz e pré-candidato à presidência pelo Podemos, Sergio Moro, classificou como "lamentável" o ataque de Bolsonaro contra funcionários da Anvisa. "A agência precisa ter autonomia com base na ciência. Repete-se a deterioração institucional, com ataques ao Inpe, Ibama, PF e Receita", disse.

O governador de São Paulo e pré-candidato ao Planalto pelo PSDB, João Doria, também criticou as declarações de Bolsonaro. "Nossas crianças precisam ser vacinadas o mais rápido possível. Vergonhosos os atos intimidatórios e negacionistas desse desgoverno Bolsonaro. Parabéns à Anvisa e seus servidores, por defenderem a vacina, a saúde e a vida, com coragem e honradez".

Hoje cedo, Doria determinou que a Secretaria de Saúde do Estado comece as negociações com a Pfizer para adquirir o imunizante da farmacêutica norte-americana para a vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade. A vacina para essa faixa etária é diferente da administrada em adolescentes e adultos.

Relator da CPI da Covid, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) parabenizou os servidores da Anvisa por se posicionarem publicamente contra a suposta tentativa de intervenção de Bolsonaro.

"O bruxo da opacidade que decreta sigilos centenários em tudo, quer expor e intimidar quem autorizou a vacinação de crianças para preservar vidas. Parabéns aos servidores da Anvisa que não se curvaram com mais essa bravata irresponsável do capitão genocida", disse o congressista.

O que diz a Pfizer

Sobre o prazo da entrega das doses pediátricas da Comirnaty ao Brasil, a Pfizer Brasil emitiu hoje a seguinte nota:

"Tendo recebido ontem a aprovação do uso da vacina da Pfizer/BioNTech contra a covid-19 em crianças de 5 a 11 anos, ainda não é possível determinar a data de entrega de doses pediátricas ao Brasil. A companhia está fazendo todos os esforços para que doses cheguem ao país o mais rapidamente possível e atuando junto ao governo para definir as próximas etapas desse processo".

Anvisa reage a provocação

A Anvisa divulgou no início da tarde de hoje nota para rebater declarações de Bolsonaro.

"A Anvisa está sempre pronta a atender demandas por informações, mas repudia e repele com veemência qualquer ameaça, explicita ou velada que venha constranger, intimidar ou comprometer o livre exercício das atividades regulatórias e o sustento de nossas vidas e famílias: o nosso trabalho, que é proteger a saúde do cidadão", declararam, em nota.

A nota é assinada pelo diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e pelos diretores Meiruze Sousa Freitas, Cristiane Rose Jourdan Gomes, Romison Rodrigues Mota e Alex Machado Campos.

Mais cedo, a Univisa (Associação de Servidores da Anvisa) também havia divulgado nota para repudiar as supostas tentativas de intimidação do presidente ao corpo técnico do órgao.

Segundo a nota, as ameaças são "algo extremamente incompatível com o regime democrático e que deveria inspirar a máxima atenção das autoridades competentes". A Univisa afirmou que a divulgação da identidade dos envolvidos na análise técnica "mostra-se como ameaça de retaliação [...], método abertamente fascista e cujos resultados podem ser trágicos e violentos".

Embate com Barra Torres

O diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, cobrou agilidade do Ministério da Saúde na análise sobre a vacinação de crianças de 5 a 11 anos e rebateu o ministro da pasta, Marcelo Queiroga, ao afirmar que a recomendação para uso do imunizante da Pfizer nessa faixa etária foi "100% firmada pela área técnica da agência".

A declaração veio depois de o ministro da Saúde afirmar que —mesmo com a aprovação para a imunização dessa faixa etária com doses da Pfizer— o processo só deve ser iniciado em 2022. "O que esperamos agora é uma análise o mais rápida possível [por parte do ministério]", disse Barra Torres.

Em entrevista à TV Globo, o chefe da Anvisa disse que o processo foi completo, inclusive com a participação de uma série de entidades médicas. "Não trata-se apenas de decisão dos comitês técnicos da agência com seus mais de 20 anos de experiência. As sociedades médicas nos deram a segurança para promulgar a decisão que fizemos com base técnica, nada de política, nada de outras influências", declarou Barra Torres.

A dosagem da vacina para essa faixa etária deve ajustada e menor que aquela utilizada por maiores de 12 anos, segundo recomendação da Anvisa. Como o Brasil não tem as doses ajustadas para crianças, não há previsão de quando a imunização nesta faixa etária vai começar. O prazo deverá ser definido pelo Ministério da Saúde.

"A aprovação da Anvisa permite que a vacina já seja usada no país para a faixa etária de 5 a 11 anos. A chegada do imunizante aos postos depende do calendário e da logística do PNI (Programa Nacional de Imunizações) do MS (Ministério da Saúde), que coordena a distribuição das vacinas por meio de programas públicos no Brasil", disse a Anvisa em nota.

Antes, questionado se a vacinação das crianças começaria neste ano, o ministro havia dito que "é preciso ser feita uma análise. A avaliação da Anvisa é uma avaliação, a avaliação feita pela câmara técnica do ministério é outra avaliação. O ministério vai discutir amplamente esse assunto com a sociedade. Quanto tempo a Anvisa demorou para dar um posicionamento acerca dessas doses?", disse.

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