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Quem é Milton Ribeiro, ex-ministro de Bolsonaro que foi preso hoje

Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, investigado pela Polícia Federal por irregularidades na liberação de verbas do MEC - Luís Fortes/MEC
Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, investigado pela Polícia Federal por irregularidades na liberação de verbas do MEC Imagem: Luís Fortes/MEC

Do UOL, em São Paulo

22/06/2022 14h21Atualizada em 22/06/2022 17h50

Ex-ministro da Educação e homem de confiança do presidente Jair Bolsonaro (PL), o pastor Milton Ribeiro, 64, foi preso hoje pela Polícia Federal na operação batizada de "Acesso Pago". Ribeiro assumiu o comando do MEC (Ministério da Educação) em julho de 2020, indicado pela primeira-dama Michelle Bolsonaro e por André Mendonça, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).

À época, o nome de Milton Ribeiro não recebeu apoio da Frente Parlamentar Evangélica para a chefia do MEC, segundo o presidente Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). O ex-ministro nunca foi consenso entre os evangélicos mais combativos da bancada, que se ressentem com o acesso, influência e poder do núcleo fundamentalista calvinista, do qual Ribeiro faz parte, no Executivo.

Pastor presbiteriano, Ribeiro foi o quarto ministro da Educação da gestão Bolsonaro. Antes, Ribeiro tinha sido vice-reitor da Universidade Mackenzie e vice-presidente do conselho deliberativo da mantenedora da instituição.

Quando assumiu o ministério —em julho de 2020—, ele era visto como um perfil mais discreto na comparação com seus antecessores. Apesar disso, o MEC, segundo fontes, continuou sendo uma pasta ideológica no governo Bolsonaro e Ribeiro sempre ouviu, respeitou e obedeceu o presidente.

Ribeiro pediu exoneração do cargo em 28 de março de 2022. A saída aconteceu uma semana após a divulgação de um áudio em que Milton Ribeiro diz que o governo priorizava a liberação de verbas a prefeituras ligadas a dois pastores. Ao deixar o cargo, Ribeiro disse que pediu a saída "a fim de que não paire nenhuma incerteza" sobre sua conduta e a do governo federal.

Sem cargos formais no ministério, os líderes religiosos Gilmar Santos e Arilton Moura, alvos da ação da PF hoje, atuaram em um esquema informal de liberação de verbas do MEC, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. "Foi um pedido especial que o Presidente da República [Jair Bolsonaro] fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar [Santos]", diz o ex-ministro na gravação.

Tiro em aeroporto e homofobia; relembre as polêmicas de Ribeiro

O ex-ministro Milton Ribeiro acumulou uma série de polêmicas enquanto esteve no comando da pasta. Em abril, ele disparou um tiro acidental no aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, quando estava no balcão da Latam. Uma funcionária da Gol que estava no guichê ao lado foi atingida por estilhaços, mas sem gravidade.

Declaração homofóbica

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em setembro de 2020, o pastor disse que o "homossexualismo" acontece em "famílias desajustadas".

Acho que o adolescente que muitas vezes opta por andar no caminho do homossexualismo (sic) tem um contexto familiar muito próximo, basta fazer uma pesquisa. São famílias desajustadas, algumas. Falta atenção do pai, falta atenção da mãe.
Declaração do então ministro Milton Ribeiro

Ribeiro também argumentou que a orientação sexual de uma pessoa pode ser opcional. "Vejo menino de 12, 13 anos optando por ser gay, nunca esteve com uma mulher de fato, com um homem de fato e caminhar por aí", completou.

Em janeiro deste ano, Ribeiro foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) ao STF (Supremo Tribunal Federal) pelo crime de homofobia.

Incomodou a primeira-dama

Outra declaração do pastor enquanto chefe do MEC, e que incomodou inclusive a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que atua em prol da comunidade surda, ocorreu em agosto de 2021.

À época, o então ministro afirmou que existem crianças com "um grau de deficiência que é impossível a convivência" nas escolas. Depois da repercussão, ele pediu desculpas nas redes sociais.

Ribeiro também já disse que a universidade deve ser um espaço "para poucos" e foi criticado após o jornal O Estado de S.Paulo revelar que exemplares de Bíblias com fotos de Ribeiro e dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura foram doados em evento do MEC no Pará. Relembre as falas polêmicas.

Gestão de Milton Ribeiro no MEC

A falta de coordenação nacional por parte do MEC ao longo da pandemia foi a principal crítica feita por dirigentes de escolas, professores e especialistas em relação à gestão de Ribeiro. Ele não realizou nenhum mapeamento que mostrasse os impactos do fechamento das escolas devido aos casos de coronavírus.

O trabalho foi feito por estados e municípios —além dos próprios profissionais da área, que procuraram alternativas na adaptação ao ensino remoto.

Até mesmo as recomendações de como o ensino remoto deveria ser implementado e como as redes poderiam condensar dois anos em um —o chamado continuum curricular— foram feitas pelo CNE (Conselho Nacional de Educação). Coube ao MEC apenas homologar.

Ribeiro chegou a fazer um pronunciamento em rede nacional para convocar os alunos para o retorno presencial, sem consultar nem avisar com antecedência as secretarias locais de Educação. Naquele momento, a média de mortes por covid por dia passava de mil.

Um estudo do Unicef mostrou que a covid gerou uma "erosão" do ensino no Brasil e retrocesso de uma década no aprendizado.

Maior crise do Inep

Também foi durante a gestão de Ribeiro que o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), responsável por elaborar e aplicar o Enem, viveu a pior crise de sua história. Semanas antes do exame, dezenas de servidores pediram demissão citando fragilidade técnica.

O presidente do instituto é Danilo Dupas, próximo de Ribeiro, e que também foi secretário de Regulação e Supervisão do Ensino Superior no MEC. Durante todo o período de crise, o então ministro apoiou Dupas, que mesmo com todas as pressões continuou no cargo.

Antes disso, Ribeiro já havia dito também que queria ter acesso prévio ao Enem para evitar questões de "cunho ideológico".

Entenda a investigação da PF contra Milton Ribeiro

A operação de hoje da PF apura indícios de pagamento de propina e atuação de lobistas no processo de liberação de verbas do ministério a municípios.

Ribeiro é suspeito de realizar tráfico de influência a fim de beneficiar aliados com recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), órgão do MEC controlado por políticos do centrão. O caso foi revelado inicialmente em reportagem do jornal O Estado de S.Paulo. O inquérito da PF cita ao menos quatro investigados, e há ainda indícios de corrupção passiva, prevaricação e advocacia administrativa.

Também foi detido hoje o pastor Gilmar Santos, um dos dois religiosos ligados ao ex-ministro e que foram citados como lobistas do "balcão de negócios" no ministério. O segundo é Arilton Moura —a Polícia Federal não informou à imprensa a situação dos demais alvos das diligências.

No total, são quatro mandados de prisão e 13 mandados de busca e apreensão distribuídos entre quatro estados (São Paulo, Goiás, Distrito Federal e Pará). O crime de tráfico de influência tem pena prevista de 2 a 5 anos de reclusão, de acordo com o artigo 332 do Código Penal.

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