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Conteúdo publicado há
11 meses

Como foi cair no meio do surto de coronavírus na Itália

Preocupada com coronavírus, turista usa máscara de proteção perto do Coliseu, em Roma, uma das principais atrações turísticas da Itália - Andreas Solaro/AFP
Preocupada com coronavírus, turista usa máscara de proteção perto do Coliseu, em Roma, uma das principais atrações turísticas da Itália Imagem: Andreas Solaro/AFP

Gustavo Setti

Do UOL, em Milão (Itália)

10/03/2020 04h00

A ideia desta matéria surgiu logo nas primeiras horas na Itália, quando a incerteza sobre o que aconteceria nos próximos dias era maior que a felicidade pela viagem à Europa. Cheguei em Roma na manhã do dia 25 de fevereiro, quando o país já confirmava mais de 10 mortes por coronavírus.

Desde então, as cidades por onde passei na Itália se dividiram entre turistas assustados, atrações fechadas, vazias ou cheias, moradores indiferentes e crianças brincando a céu aberto em meio aos dias sem aula.

Na tarde de ontem, o governo italiano ampliou o estado de quarentena para todo o país, restringindo a entrada e saída de pessoas em decorrência do surto de coronavírus. Até o momento, a Itália é o país mais afetado pela doença: já são 463 mortos e 9.172 pessoas infectadas.

Chegada à Roma

O primeiro impacto em Roma começou ainda no aeroporto. Ao desembarcar, o exército italiano media a temperatura corporal de todos os passageiros com um equipamento eletrônico. As poucas pessoas que usavam máscara eram obrigadas a tirar o acessório. Só depois que o aparelho mostrava que um passageiro estava sem febre que ele era liberado.

No desembarque, os primeiros avisos de precaução da vigilância sanitária no aeroporto. Mais banners na principal estação de trem de Roma, desta vez na farmácia: as máscaras cirúrgicas tinham acabado. A estação Roma Termini, por sinal, foi onde mais vi pessoas com máscara, a grande maioria estrangeiros, muitos espanhóis e asiáticos.

Já os romanos, e a maioria dos italianos que vi ao longo dos dias, não usavam máscara nem em ambientes fechados, transporte público e museus, muito menos em ambientes abertos. Uma situação curiosa aconteceu dentro de uma loja de café. A atendente usava máscara, mas explicou que estava com tosse e não queria tossir nos produtos. "Mas eu não tenho febre", ela fez questão de dizer, já aos risos.

O bom humor dos italianos em relação ao coronavírus também apareceu nos museus do Vaticano. O guia turístico fez piada sobre a doença ao dizer que uma famosa estátua na Basílica de São Pedro estava isolada por causa do coronavírus, já que virou tradição passar a mão no pé da estátua. Já na TV, um programa humorístico satirizou o coronavírus com os apresentadores usando máscaras. "É a nova fantasia do Carnaval", disse um deles.

Florença

A parada seguinte foi Florença. O coronavírus (e muita chuva) diminuiu o número de turistas na cidade, apesar de a cidade ainda receber muitos viajantes mesmo na baixa temporada. Mesmo assim, uma vendedora próxima à Ponte Vecchio lamentou a queda do movimento por conta do "exagero", segundo ela, do coronavírus.

"Eu consigo ficar um mês, dois meses, no máximo, com esse movimento baixo, mas no terceiro mês teria que fechar meu negócio, porque não teria como pagar o aluguel da loja", disse. Foi quase um desabafo com os poucos turistas que entravam na loja. "Vieram agora uns turistas americanos super assustados com tudo isso que andam falando, mas eles chegam aqui e veem como é um exagero", acrescentou.

Em meio à lamentação, o bom humor também voltou a aparecer. Um atendente de uma sorveteria brincou ao ser questionado por duas mulheres sobre um bom lugar para tomar café. A resposta: "Aqui na frente tem o Corona Café, mas fiquem tranquilas que lá não tem coronavírus."

A ida ao norte

As passagens por Roma e Florença foram tranquilas e não cheguei a cogitar mudar de lugar. Mas aí chegou a hora de decidir: seguir o roteiro programado e ir para o norte da Itália, onde está a maioria dos casos de coronavírus, ou mudar tudo? Decidi seguir o planejado. Afinal, quem vinha de cidades do norte como Lombardia e Veneto não era impedido de viajar para outros cantos da Itália.

O desembarque do trem em Veneza já deu amostras do que eu veria nos dias seguintes. Praticamente zero máscaras. De novo, só alguns turistas as usavam. A queda no número de visitantes, assim como em Florença, foi lamentada pelos funcionários de hotéis e restaurantes, mas o que chamou mesmo a atenção foram as crianças.

Com o decreto do governo de interromper as aulas, os pequenos não ficaram trancados em casa. Eles tomaram os parques e praças. Uma espécie de "Parque Ibirapuera de Veneza" estava lotado de crianças, acompanhadas a maioria das vezes pela mãe, além de muitas avós. Os mais jovens aproveitaram os dias de sol para jogar bola ou andar de patinete.

Piazza San Marco, em Veneza, estava praticamente vazia - Gustavo Setti/UOL - Gustavo Setti/UOL
Piazza San Marco, em Veneza, estava praticamente vazia
Imagem: Gustavo Setti/UOL

Por outro lado, foi em Veneza que deparei com a primeira atração turística fechada. A Basílica de San Marco só permitia a entrada de poucas pessoas para rezar. Os avisos de que a igreja não abriria para o público em geral foram colados nas portas. Já no elevador da torre do sino da basílica só era permitido subir e descer com quatro pessoas por vez: uma ascensorista e três visitantes, um em cada canto do elevador, para respeitar a distância de um metro entre as pessoas, como pedido pelo governo italiano.

Me despedi de Veneza já sentindo saudades e fui para Milão, a cidade que mais pensei sobre ir ou não ir. A quantidade de turistas foi realmente menor em relação aos outros lugares por onde passei.

Andei por algumas ruas onde só se viam moradores (sem máscaras), e poucos turistas na Duomo de Milano, a principal igreja da cidade. Só foi permitido subir no telhado da Duomo pelas escadas. A opção de subir por elevador não estava funcionando justamente para evitar maior proximidade das pessoas.

Duomo de Milano praticamente não tinha turistas circulando - Gustavo Setti/UOL - Gustavo Setti/UOL
Duomo de Milano praticamente não tinha turistas circulando
Imagem: Gustavo Setti/UOL

Já a vida dos milaneses seguiu normal tanto quanto era possível. Do lado de fora da Duomo, os italianos aproveitaram um dia de sol para fazer compras nas lojas do centro.

A vida noturna também não foi afetada. Em um sábado à noite, os milaneses foram aos bares da região de Navigli, e nada de distância de segurança. Minha mesa era, inclusive, compartilhada com outras três pessoas.

A situação mudou bastante ao acordar no domingo. As ruas estavam mais vazias, praticamente todas as lojas fechadas. Uma busca na internet explicou o motivo: o governo italiano colocou Milão e mais outras cidades do Norte da Itália em quarentena após o grande aumento no número de mortes por coronavírus.

Mulher usa máscara em Milão em meio ao surto de coronavírus que atinge a Itália; várias lojas da cidade fecharam - Marco Di Lauro/Getty Images - Marco Di Lauro/Getty Images
Mulher usa máscara em Milão em meio ao surto de coronavírus que atinge a Itália; várias lojas da cidade fecharam
Imagem: Marco Di Lauro/Getty Images

Após a medida adotada pelo governo, diversas lojas do centro de Milão fecharam. No entanto, a situação contrastava com os parques da cidade. Os milaneses aproveitaram o domingo de sol para brincar com as crianças e praticar atividade física nos parques. A dificuldade à noite foi encontrar um lugar para comer depois do decreto que pediu aos bares e restaurantes que fechassem até as 18h.

A solução foi comprar macarrão instantâneo no mercado, onde tinha um único homem aparentemente fazendo compras para estocar comida. Fui dormir com a dúvida se conseguiria deixar Milão e dar fim à viagem à Itália, que já chegaria ao fim, como programado, na tarde de ontem, após o aviso de quarentena.

Acordei cedo e peguei o trem para o aeroporto na Milano Centrale, principal estação da cidade, onde os trens chegavam e saíam de e para cidades de todas as regiões da Itália, sem qualquer impedimento. O aeroporto estava praticamente vazio, com alguns voos cancelados, mas justamente pela pouca quantidade de pessoas.

Meu voo saiu normalmente, onde haviam apenas 11 passageiros, entre eles italianos, que não foram impedidos deixar Milão. Foi o fim do susto após o anúncio de quarentena. No novo destino, nada de medição de temperatura ou qualquer medida preventiva. Peguei as malas e deixei o aeroporto, colocando fim à viagem pela Itália.

Até o momento, a doença já matou quase 4.000 pessoas e contaminou outras 110 mil no mundo inteiro.

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