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Bairros com favelas e cortiços concentram mais mortes por covid-19 em SP

24 set. 2014 - Vista de drone da comunidade de Heliópolis - Rubens Chaves/Folhapress
24 set. 2014 - Vista de drone da comunidade de Heliópolis Imagem: Rubens Chaves/Folhapress

Carolina Marins e Gabriela Sá Pessoa

Do UOL, em São Paulo

05/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Sapopemba, na zona leste, registrou 101 óbitos, dez vezes mais do que o verificado em bairros centrais
  • Prefeito da capital explicou que a epidemia começou na área central da cidade, mas se espalhou com mais gravidade na periferia
  • Brasilândia, Grajaú, Sapopemba e Cidade Tiradentes foram bairros destacados por Bruno Covas
  • Segundo pesquisador, mortes caem nos bairros mais ricos, e estão em plena ascensão nos mais pobres

Bairros onde há favelas, cortiços e conjuntos habitacionais são os mesmos onde há mais mortes registradas em decorrência do novo coronavírus na cidade de São Paulo, mostram dados divulgados pela Prefeitura ontem.

Em geral, essas localidades estão fora do centro expandido e na periferia da cidade. Por exemplo, Sapopemba, na zona leste, tem concentração desse tipo de moradia e registrou 101 óbitos, número mais de dez vezes maior do que o verificado em bairros centrais como Sé (8 mortes) e Barra funda (6). Esses dados contabilizam tanto mortes que já foram confirmadas quanto as com suspeitas de covid-19.

O prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), afirmou, em entrevista coletiva, que a epidemia começou na área central da cidade, mas se espalhou com mais gravidade na periferia —citou os bairros de Brasilândia, Grajaú, Sapopemba e Cidade Tiradentes.

"A gente conseguiu mostrar também o quanto isso se concentra nas áreas em que temos favelas na cidade de São Paulo. Toda a atenção do poder público é justamente para a população em situação de maior vulnerabilidade", disse Covas ao apresentar o mapa elaborado pela gestão que destaca áreas onde há favelas e cortiços (pontos pretos) em cada distrito.

mapa sp covid - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

A conclusão da prefeitura é parecida com a a que o economista Guilherme Lichand, professor da Universidade de Zurique, chegou em sua pesquisa sobre a evolução do número de casos de coronavírus.

Ele publicou, junto a outros dois pesquisadores brasileiros, um artigo em que analisam informações sobre sintomas de coronavírus fornecidas voluntariamente pela população de Santo André, cidade da Grande São Paulo com que estabeleceram parceria.

"Nos bairros mais ricos, o número de mortes está realmente caindo de proporção ao longo do tempo. Nos mais pobres, está em plena ascensão", diz Lichand.

Quando os pesquisadores começaram a aferir os dados, em 19 de março, não havia muitas diferenças entre os sintomas relatados por integrantes das classes A e B e os das classes D e E.

"A correlação é clara entre classe social e densidade do domicílio [número de pessoas vivendo numa mesma casa]. Agora, os relatos de sintomas aumentaram onde a densidade domiciliar é mais alta. A densidade facilita muito a contaminação pelo vírus, mas o ponto mesmo é que ele chegou nos mais pobres", afirma o pesquisador.

Mesmo considerando a subnotificação da epidemia, a maior incidência de mortes nas periferias pode estar relacionada à presença menor de equipamentos de saúde nessas regiões do que em bairros mais ricos.

"Nas regiões de moradia subnormais, mais periféricas para você fazer o isolamento adequado para que as pessoas fiquem bem é mais difícil. Então, a gente espera que nessas regiões o vírus tenha uma vida mais fácil para se disseminar, infelizmente, e a hora em que isso ocorrer em larga escala, começa a se traduzir em manifestações clínicas mais graves", diz o infectologista Evaldo Stanislau, médico do Hospital das Clínicas.

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