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Coronavírus

Por que a volta do comércio anunciada hoje excluirá maior parte de SP

SP nos últimos dias pré-quarentena: comércio presencial foi proibido no fim de março -- com exceção para remédios e alimentos - Andre Porto/UOL
SP nos últimos dias pré-quarentena: comércio presencial foi proibido no fim de março -- com exceção para remédios e alimentos Imagem: Andre Porto/UOL

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

08/05/2020 04h01

Resumo da notícia

  • O Plano São Paulo estabelece as regras para flexibilizar a quarentena e dividiu o estado em três áreas: vermelha, amarela e verde
  • Só as cidades na área verde poderão retomar os negócios e ganhar esta classificação exige cumprir critérios de saúde
  • Quando o plano foi anunciado todas as cidades do estado estavam na área vermelha ou amarela e desde então os casos subiram 159% e as mortes, 193%
  • A possibilidade de flexibilização na Grande São Paulo e baixada santista é inviável porque são regiões com alta incidência de covid-19
  • Mas o prefeito de Campinas pede para não impor esta lógica para o restante do estado porque há realidades distintas
  • A lista das cidades que poderão retomar parte dos negócios será apresentada hoje ao meio-dia e meia pelo governo de São Paulo

A reabertura de parte do comércio em São Paulo exige, de acordo com as regras estipuladas pelo governo estadual, curva de contaminação de covid-19 em queda, testagem massiva, isolamento social em alta e leitos de internação disponíveis - quatro coisas que o estado de São Paulo não tem no momento.

Por isso, quando o governador João Doria (PSDB) anunciar hoje, como previsto, o relaxamento da quarentena iniciada em 24 de março, a tendência é que as novas regras deixem de fora a maior parte dos moradores do estado de São Paulo. A lista será conhecida às 12h30.

De acordo com o Plano São Paulo, como é chamado o conjunto das regras de flexibilização da quarentena, será preciso cumprir uma série de requisitos para estar na chamada "área verde", na qual será autorizada a reabertura de alguns setores da economia.

Mas quando os requisitos para a flexibilização do isolamento foram apresentados, em 22 de abril, o secretário estadual de Saúde, José Henrique Germann, afirmou que todas as regiões do estado eram consideradas áreas amarelas e vermelhas. Desde então, não há indícios de que a situação tenha melhorado: o número de casos da covid-19 aumentou 159% e o de mortes cresceu 193%.

Estudo do Instituto Butantan divulgado ontem mostrou que a cada três dias a covid-19 chega a 38 novos municípios. A previsão é que até o final do mês todas as cidades tenham pessoas contaminadas.

Para infectologista, momento pede restrição, e não o contrário

Por isso, na avaliação do infectologista do Instituto Emílio Ribas, Leonardo Weissmann, não é hora de discutir flexibilização, mas sim o endurecimento de medidas.

"Com o aumento crescente do número de casos e de óbitos, associado a um esgotamento dos leitos de terapia intensiva, é momento para avaliar um endurecimento das regras para reduzir a velocidade de propagação do vírus, não flexibilizar".

O isolamento social também é importante. Levantamento do UOL mostrou que dos 104 municípios monitorados pelo governo, 66 não têm metade da população aderindo à quarentena. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que as cidades que não atingirem 50% estão descartadas da lista daquelas que poderão reabrir parte do comércio.

Parâmetros da saúde

Segundo a reportagem apurou, o Centro de Contingência ao Coronavírus teve dificuldade de encontrar municípios que preenchessem os critérios. Um dos entraves é encontrar cidade sem coronavírus ao mesmo tempo rodeada de municípios em situação similar.

Quando o Plano São Paulo foi apresentado, o secretário de Saúde exibiu uma apresentação que vinculava a retomada dos negócios a sete pontos. O item três dizia que a "retomada foi condicionada a curva de novos casos (e transmissibilidade) já "achatadas" e com tendência de queda". Na época, o governo acreditava que o isolamento social havia impedido o avanço do coronavírus.

Mas a adesão à quarentena caiu e fechou em 47% nos últimos três dias. A curva não está em queda. O diretor do Instituto Butantan falou ontem que é preciso 55% de distanciamento social para o sistema de saúde dar conta da pandemia. Estes dados jogam contra a flexibilização.

A secretária de Desenvolvimento Econômico, Patricia Ellen, também fez uma apresentação em 22 de abril e afirmou que três parâmetros de saúde seriam cruciais: acompanhamento da disseminação da doença; capacidade de atendimento do sistema de saúde; e monitoramento do vírus.

O último item exige testagem massiva de pessoas suspeitas de covid-19 e assintomáticos. A secretária mencionou até fazer exames em grandes empresas na ocasião. Este ponto é importante porque faz parte do protocolo usado em outros países. Mas também é outro parâmetro não cumprido.

Isolamento social e disponibilidade de UTI

Os outros itens de saúde são o respeito ao isolamento social e a capacidade do sistema de saúde, dois pontos que sofreram degradação nas últimas semanas.

O reflexo da queda na adesão ao mantra "fique em casa" aparece nas portas e nos leitos de hospitais. A média de ocupação na Grande São Paulo é de 89% e no estado 66%. A diferença existe porque São Paulo é o epicentro, mas um levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Regional mostrou que a covid-19 cresce quatro vezes mais no interior do que na capital.

ponte - Felipe Rau/Estadão Conteúdo - Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Trânsito na altura da ponte Eusébio Matoso
Imagem: Felipe Rau/Estadão Conteúdo

Sem flexibilização na Grande São Paulo e baixada

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), se antecipou à divulgação de hoje e endureceu as regras de circulação: ele anunciou rodízio de carros que deixará quase metade da frota nas garagens a cada dia. O sistema de saúde municipal tem 83% das UTIs ocupadas e a soma de mortes confirmadas e suspeitas por infecção do novo coronavírus dá 4.496 pessoas.

Na Baixada Santista o sentimento não é diferente. O prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), é contra qualquer medida de flexibilização na cidade. "Hoje, com 80% de ocupação [de UTIs] não tem sentido. Seria irresponsável".

O secretário municipal de Saúde de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple Sobrinho, tem o mesmo pensamento. "Impossível reabrir a Grande São Paulo com taxa ocupação [de UTIs] em 90%. Abri hospital quinta-feira da semana passada com 19 leitos de UTI e já tem 13 ocupados", afirmou.

Atibaia - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Pessoas aguardam serem chamadas para fazer compras em Atibaia durante quarentena
Imagem: Reprodução Instagram

Algumas cidades e o comércio defendem reabertura regionalizada

Se os prefeitos da Região Metropolitana de São Paulo e da maior cidade da baixada concordam em não relaxar o isolamento social, o mesmo não ocorre em outras regiões. Atibaia entrou na justiça para retomar parte das atividades e acredita que fez um bom trabalho de contenção da pandemia, informou a assessoria por meio de nota.

"A administração municipal de Atibaia mostrou competência na gestão do enfrentamento ao coronavírus com a reabertura de microempresas individuais, microempresas e empresas de pequeno porte".

O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), quer poder trilhar o mesmo caminho. Ele reclama que a realidade da Grande São Paulo é diferente do restante do estado e disse que sua cidade tem condições de estar na lista de flexibilização porque tem 449 casos confirmados até o momento, 25 mortes e está sem registrar óbito há 48 horas.

Alfredo Cotait Neto é presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, uma entidade que reúne associações em 420 cidades. Ele concorda que não há espaço para abrir nada nas duas regiões citadas, mas acredita que no restante do estado é possível retomar os negócios. A reivindicação foi apresentada em reunião com os representantes do Plano São Paulo e ele saiu do encontro com uma constatação.

"O governador está com economistas, mas falta alguém com barriga no balcão. Está um pouco acadêmico, economistas que não têm o dia a dia do comércio".

hospital - RICARDO MORAES - RICARDO MORAES
Autoridades de saúde são poupadas de reuniões sobre flexibilização porque lidam com pressão nos hospitais
Imagem: RICARDO MORAES

Autoridades de saúde foram poupadas de pressão

Como ocorreu na última prorrogação da quarentena, houve pressão para relaxamento das medidas. O comércio foi o setor que mais fez solicitações de reabertura, mas elas não chegaram até a saúde. O governo exclui autoridades sanitárias das reuniões com setores da economia.

Na saúde, a iniciativa é recebida com agradecimentos. "Já basta ter que lidar com a pressão nos leitos de UTI nos hospitais", dizem os médicos e infectologistas.

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