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Puxadas por EUA e Brasil, Américas ultrapassam número de casos da Europa

De máscara, mulher passeia com seu cachorro em Jersey City, Nova Jersey; ao fundo, está o World Trade Center, em Nova York - Gary Hershorn/Getty Images - 27.abr.2020
De máscara, mulher passeia com seu cachorro em Jersey City, Nova Jersey; ao fundo, está o World Trade Center, em Nova York Imagem: Gary Hershorn/Getty Images - 27.abr.2020

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

12/05/2020 08h40Atualizada em 12/05/2020 11h24

O continente americano ultrapassou o número total de casos confirmados de coronavírus da Europa segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). Os números são puxados pelos Estados Unidos, o atual epicentro da pandemia, e pelo Brasil, que entrou em curva acelerada de casos e mortes. Já há alguns dias o continente americano vinha registrando mais casos e mortes do que o europeu.

Segundo dados divulgados hoje às 7h, que contabilizam casos oficiais registrados até ontem, as Américas atingiram 1,74 milhão de pessoas contaminadas. A Europa, por outro lado, começa a ver uma desaceleração no número de casos e mortes, que foram por muito tempo puxadas por Itália, Espanha e Reino Unido. O continente tem 1,73 milhão de casos.

"Definitivamente, o continente americano é o atual centro [da pandemia]", afirmou Margaret Harris, porta-voz da OMS, em entrevista coletiva hoje. "As Américas estão certamente dirigindo a pandemia no mundo, com maior número de casos e mortes."

A América do Norte ainda concentra os maiores números, em especial por causa dos Estados Unidos que têm no estado de Nova York o epicentro global da doença. Segundo a OMS, o país tem 1,3 milhão de casos e 78 mil mortes. Os dados da OMS, porém, costumam estar defasados.

O Canadá é o segundo país da parte norte do continente com mais casos e o terceiro da América toda — só perde para o Brasil. Já foram confirmados 69 mil casos e 4.900 mortes no país, que desde a segunda metade de março impõe medidas restritivas para conter a disseminação da doença.

A fronteira entre os dois países norte-americanos está fechada desde 20 de março e, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, já anunciou que manteria o fechamento por pelo menos mais algumas semanas. O presidente americano Donald Trump, por outro lado, manifestou o desejo de que a fronteira com o grande parceiro do norte seja uma das primeiras a reabrir.

Futuro da América Latina preocupa

A situação da América Latina e do Caribe é uma das que mais preocupa nas próximas semanas. No final de abril, o vice-diretor da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), Jarbas Barbosa, disse que a região estava igual à Europa de seis semanas antes — quando a Itália era considerada o epicentro da pandemia.

A entidade, que é o braço regional da OMS, defende que os países mantenham suas políticas de distanciamento social e aumentem a capacidade de testagem. Mas ainda assim prevê um aumento acelerado de casos na região.

Além do número de casos, as organizações latino-americanas se preocupam com a situação econômica pós-pandemia. A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) alertou no dia 29 de abril para uma possível crise alimentar caso os governos não declarem oficialmente a alimentação e a agricultura como atividades fundamentais.

A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) alertou que a pandemia vai levar a uma contração do PIB regional de 5,3%,o que geraria quase 11,5 milhões de novos desempregados e aproximadamente mais 30 milhões de pobres.

O Brasil é o país em pior situação na região, seguido por Peru, Equador e México. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil teve 168 mil casos confirmados hoje e 11.519 mortes, números ainda não computados pela OMS, pois há atraso no envio.

Assim como seus vizinhos, o Brasil está em fase de aceleração de casos e mortes e ainda não passou pelo seu pico. Mesmo assim, setores empresariais pressionam para a flexibilização dos isolamentos sociais. O ministro da Saúde, Nelson Teich, no entanto, disse não ver a possibilidade com o número de casos aumentando nesta velocidade e já admitiu a possibilidade de lockdown regional.

O Peru é o segundo país da América Latina em casos, mas em mortes é superado por México e Equador, segundo a OMS.

  • Peru: 67 mil casos e 1.900 mortos
  • Equador: 29.500 casos e 2.145 mortes
  • México: 35 mil casos e 3.465 mortes

Para conter o avanço da doença, o Peru impôs quarentena absoluta no dia 16 de março e deve mantê-la no mínimo até o dia 10 de maio.

A medida é parcial de segunda-feira a sábado, e permite a um membro da família sair para comprar alimentos ou ir ao banco. Aos domingos, é proibido sair de casa.

Uma possível justificativa para o alto número de casos no Peru é sua alta capacidade de testagem. Segundo o site Worldometers, que compila dados de todos os países, a taxa de testagem peruana é de 14,3 para cada milhão de habitantes. É o segundo neste quesito na América Latina (excluindo ilhas), ficando atrás apenas da Venezuela (17,8 testes por milhão).

O Equador, segundo país em casos na América Latina, protagonizou o noticiário internacional nas primeiras semanas de abril quando surgiram imagens de cadáveres acumulando nas casas e até nas ruas de Guayaquil, no sudoeste do país.

O México decidiu fechar a sua fronteira com os EUA em 21 de março a fim de impedir que os altos números do vizinho chegassem ao seu território. O distanciamento social começou antes, em 16 de março, e deve durar no mínimo até 16 de maio. Mas o governo já fez projeções de manter até 1º de junho, segundo a imprensa mexicana.

Assim como o Brasil, o México sofre com a baixa adesão ao distanciamento social. Segundo dados de monitoramento de movimentação feito pelo Google, apenas 55% dos mexicanos estão respeitando o isolamento.

Os bons exemplos

Dois países que têm sido apontados como exemplos no combate à pandemia na região são Paraguai e Argentina, que impuseram duras restrições de circulação e fechamento de fronteiras logo nos primeiros casos e agora estão entre os números mais baixos.

O Paraguai comunicou no dia 29 de abril não ter mais nenhum paciente de coronavírus em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). O país tem um dos menores números de mortos: 10, e 724 casos Só está em pior situação que as ilhas do Caribe, que ainda estão na casa das dezenas de casos e nem registra óbitos em alguns casos.

No dia 1º de maio, no entanto, o ministro da saúde do país anunciou 67 novas casos no país, sendo 63 de viajantes brasileiros. O país tem demonstrado preocupação com a situação brasileira. No dia 7 de maio, o chefe do Congresso paraguaio disse que o Brasil é uma "ameaça" ao seu vizinho.

O país decretou quarentena no dia 10 de março, três dias após registrar seu primeiro caso e antes mesmo da recomendação da OMS.

"Estamos bem e vamos ficar melhor", comemorou o presidente Mario Abdo Benítez. A partir de 4 de maio o Paraguai adotou o que chama de "quarentena inteligente", um retorno gradual às atividades de trabalho e lazer com medidas de distanciamento social e higiene.

A Argentina tem 6.034 casos confirmados e 305 mortes, com poucos novos óbitos registrados diariamente. Desde o dia 19 de março, os argentinos estão em quarentena total, que foi prorrogada até 10 de maio nas grandes cidades.

Os baixos números do país permitiram ao presidente Alberto Fernández flexibilizar o distanciamento em regiões com poucos casos.

Segundo o monitoramento do Google, os argentinos são os que mais respeitam o distanciamento social no continente, em uma taxa de 85%. Mas o país teme uma nova onda de casos e por isso cogita prorrogar mais uma vez o isolamento.

Uma das maiores preocupações de Fernández, no entanto, é justamente o vizinho Brasil, como já declarou mais de uma vez. "Não acho que o governo brasileiro esteja encarando o problema com a seriedade que o caso requer. Digo isso sinceramente", lamentou. "Eu gosto muito do povo do Brasil, mas isso me preocupa muito porque pode vir para a Argentina".

O Brasil já superou o dobro do número de mortes da China e está entre os dez países mais afetados tanto no número casos quanto no de mortes, de acordo com dados da OMS.

Segundo o infectologista especializado pelo hospital Emílio Ribas, Natanael Adiwardana, o país ainda tende a ter uma piora de situação devido à baixa adesão ao isolamento e a vontade de algumas cidades em flexibilizar as medidas de contenção. Além disso, a geografia brasileira contribui para que a contaminação se espalhe mais facilmente para os interiores.

"Nossa distribuição geográfica é diferente da dos nossos vizinhos, com menos obstáculos geográficos em alguns estados, o que poderia acentuar a transmissão dentro desses corredores, que se traduzem como as grandes estradas e pontos de parada (polos e cidades do interior)", disse.

"E, considerando que as cidades do interior são as que mais estão considerando flexibilizar o distanciamento, vemos um grande risco da situação piorar pela frente", avalia.

Até o presidente Donald Trump tem manifestado preocupação com a situação brasileira. "Eu odeio dizer, mas o Brasil está [com números] muito altos, o gráfico está muito, muito alto. Lá em cima, quase vertical", afirmou em 30 de abril. "O presidente do Brasil é realmente um bom amigo meu, um ótimo homem, mas eles estão vivendo um momento muito difícil".