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Antes de morrer, enfermeiro pede socorro a colegas: "estou agonizando"

Evandro Silva, enfermeiro, morreu de covid-19 - Reprodução/Facebook
Evandro Silva, enfermeiro, morreu de covid-19 Imagem: Reprodução/Facebook

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, de Ponta Grossa (PR)

17/05/2020 16h53Atualizada em 18/05/2020 12h42

Profissional da linha de frente no combate ao novo coronavírus na rede pública estadual do Amapá, o enfermeiro Evandro Costa Silva, de 42 anos, morreu anteontem de covid-19, em Macapá, horas depois de pedir ajuda em mensagem a colegas.

"Vou falar aqui até apagar. Não tem como falar no pv [privado] de ninguém", disse o enfermeiro, por volta das 23h45 de quinta-feira (14). Logo depois, disse: "Vou morrer sentado agonizando aqui. Minhas mãos estão cianóticas, saturando 60 agora e sem assistência alguma". A última mensagem no grupo teria sido enviada a 0h30 de anteontem.

Evandro estava internado desde quinta-feira no hospital de campanha Centro de Tratamento Covid 2, montado pelo governo estadual para tratar somente casos suspeitos e confirmados da doença na cidade. Procurado, governo do Amapá -- responsável pelo centro de tratamento -- ainda não se manifestou.

Evandro trabalhava na rede privada e no Hospital Estadual de Clínicas Alberto Lima (HCAL), local onde ficou internado pelo menos desde quarta (13), antes de ser transferido no dia seguinte para o hospital de campanha.

Troca de mensagens de Evandro Costa num grupo de colegas enfermeiros  - Reprodução
Troca de mensagens de Evandro Costa num grupo de colegas enfermeiros
Imagem: Reprodução

O UOL confirmou a troca de mensagens com dois amigos de Evandro. Um deles, que preferiu não ter ser nome divulgado, disse que trocou mensagens diretamente com o enfermeiro e que o colega afirmou que não estava em respiração mecânica em razão da falta de medicamentos sedativos usados para intubação.

Kliger Campos, delegado do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (SindSaúde) no Conselho Estadual de Saúde do Amapá, endossou a declaração do amigo Evandro. "O oxigênio estava disponível, mas estamos com um problema muito grave no estado que é a falta de sedativo para intubar os pacientes nos dois centros especializados para tratar a covid-19 em Macapá. É dito algo na mídia, mas quando vamos fiscalizar, não é nada daquilo que é anunciado", afirmou.

"No grupo, ele pediu um socorro, dizendo que estava passando mal e que iria morrer, pois ninguém estava dando atenção a ele. Nisso, passou a noite mal, estabilizando pela manhã de anteontem. Só que ele piorou e recebemos a notícia de que o Evandro morreu a tarde."

Evandro era diabético e deixou a esposa e dois filhos, segundo o amigo. A reportagem não conseguiu entrar em contado com a família.

O governo do Amapá não respondeu ao questionamento sobre a eventual falta de sedativo ao enfermeiro. Em nota enviada em 11 de maio ao UOL, o governo alegou, na ocasião, que "a compra [do sedativo] tem se efetuado de forma contínua, com decréscimo de alguns destes medicamentos que passam a ser escalonados para suprir a alta demanda". O governo ainda disse que o problema atinge "todos os estados".

O Amapá tem 3.834 casos confirmados e 108 mortes do novo coronavírus, incluindo a de Evandro. O estado tem a segunda maior taxa do país e está com o seu sistema de saúde em colapso, conforme admitiu anteontem o governador Waldez Góes (PDT) ao decretar 'lockdown'.

Manifestação de enfermeiros

Além de Evandro, duas enfermeiras morreram anteontem. Elas também atuavam na rede pública no combate à covid-19 e não resistiram aos sintomas da doença, informou em nota o Conselho Regional de Enfermagem (Coren).

As mortes geraram revolta na categoria, que ontem fez uma manifestação em frente ao Hospital de Clínicas Alberto Lima - o principal da rede pública do estado e onde Evandro trabalhava - cobrando melhores condições de trabalho, como fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e testes rápidos. O UOL também questionou o governo sobre o problema, mas não obteve resposta.

O Conselho de Saúde contabiliza mais de 200 profissionais de enfermagem infectados pela doença no Amapá.

Sistema em colapso

Ao decretar lockdown, ontem, o governador do Amapá, Waldez Góes, falou pela primeira vez "em colapso na saúde" da rede pública.

Recentemente, o UOL mostrou que o estado está com dificuldades para suportar a demanda de doentes do novo coronavírus somado a outras enfermidades.

No Hospital de Emergências, por exemplo, que é a porta de entrada para rede estadual, pacientes chegaram a esperar por leitos em centros especializados para tratar a covid-19 ao lado de corpos nas enfermarias.

Além da falta de leitos, o Amapá enfrenta falta de remédios para intubação em respiradores e médicos. Das 115 vagas ofertadas no edital para contratar os profissionais, 14 foram classificados, mas apenas dois se apresentaram para trabalhar, segundo o governo.

O colapso gerou várias ações do Ministério Público (MP) do Amapá contra o governo para obriga-lo a fornecer medicamentos, leitos e médicos aos doentes com covid-19. Em meio à pandemia, o secretário de Saúde, João Bitencourt, também pediu demissão.

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