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"Era uma festa, mas virou suicídio", diz mãe de jovem intubado com covid

Policiais militares dispersam festa clandestina com mais de 100 participantes em Belém, zona leste de São Paulo - PAULO LOPES/BW PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Policiais militares dispersam festa clandestina com mais de 100 participantes em Belém, zona leste de São Paulo Imagem: PAULO LOPES/BW PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

10/03/2021 04h00

Recém-diagnosticada com covid-19, Maria de Lourdes, 56, aguardava no ponto de ônibus da avenida Peri Ronchetti, no Jardim Peri, zona norte da capital, na tarde de ontem (9), para voltar para casa.

Com um pouco de falta de ar, mas sem outro sintoma, sua preocupação era o filho de 31 anos, internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Municipal da Brasilândia, não muito longe dali.

Ela conta que ele começou a se sentir mal no início da semana passada, mas, apesar dos avisos, resistiu a procurar ajuda e acabou internado na última sexta (5). Na segunda (8), apresentou piora do quadro e foi intubado.

Já Maria começou a sentir falta de ar no final de semana e decidiu ir à AMA (Assistência Médica Ambulatorial) Jardim Peri. Ela imagina que tenha pegado dele.

"Ele saía. Eu não tenho orgulho de dizer, mas ele saía para essas festas, bailes, que têm na comunidade. Não pode, né? Mas você já viu segurar homem com o próprio dinheiro?", conta a vendedora, que, "com vergonha", pediu que o nome do filho não fosse publicado.

Segundo ela, o filho é frentista em um posto de gasolina e trabalhou durante toda a pandemia. Antes de ser internado, ele dizia ter pegado a doença no trabalho, mas ela diz ter "certeza" de que foi em uma das festas.

A gente avisa. Eu falava dos casos na televisão, mas não tinha jeito. Ele ia para essas festas no final de semana. E tem de tudo, né? Bebida, mulheres, muita gente. Os moradores da comunidade odeiam. A gente já tinha medo antes, com esse vírus ficou pior. Era uma festa, mas virou suicídio.
Maria de Lourdes, vendedora

A internação se dá no momento mais delicado da pandemia no Brasil e em São Paulo. Ontem (9), estado registrou 517 mortes por causa da covid-19 em 24 horas, um recorde, e ultrapassou 62 mil óbitos pela doença. Atualmente, também registra a maior taxa de internação em UTI desde o começo da pandemia: 82%, quase 8.300 leitos ocupados.

O filho ter encontrado uma vaga é o seu "único conforto", diz Maria. Segundo a prefeitura, o Hospital da Brasilândia está com 91% dos seus 222 leitos de UTI voltado à covid indisponíveis.

Aumento de internações de jovens

O filho de Maria não é um caso isolado. O governo de São Paulo informou que, atualmente, 60% dos pacientes que dão entrada nas UTIs estão nas faixas etárias de 30 a 50 anos —e os casos têm crescido.

Segundo o secretário estadual de Saúde, Jean Gorintcheyn, estes grupos passam mais tempo internados porque, como o filho dela, demoram a procurar ajuda.

"Temos encontrado pacientes de forma mais graves, muitos dos quais mais jovens. Jovens que não apresentam sintomas tão exuberantes e, quando vão se apresentar com tosse, já têm grande comprometimento pulmonar", disse o infectologista em entrevista recente. "São pacientes que acabam permanecendo por período prolongado na UTI."

Fila na AMA Jardim Peri, na zona norte de São Paulo, com pacientes com suspeita de covid - Lucas Borges Teixeira/UOL - Lucas Borges Teixeira/UOL
Fila na AMA Jardim Peri, na zona norte de São Paulo, com pacientes com suspeita de covid cada vez mais jovens
Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

"Pancadão é todo final de semana"

Uma funcionária da AMA Jardim Peri também notou o crescimento do atendimento de jovens nas últimas semanas. O que muitos analistas atribuem ao Carnaval, em meados de fevereiro, ela direciona também às festas clandestinas.

"Carnaval tem só uma vez por ano, pancadão é todo final de semana, sexta, sábado e às vezes até domingo. Aí, você vê: um monte de jovem [com sintomas, na fila da AMA]. Muitos vêm dessas festas que ficam até de madrugada", afirmou a funcionária.

Ela contou que toda sexta uma festa clandestina fecha a "rua de baixo" da sua casa, no Jardim dos Francos, extremo norte da capital. "De umas 22h até amanhecer. E vai denunciar para você ver. Ali só chega PM [Polícia Militar] e Rota [batalhão de operações especiais], vigilância [sanitária] não vai, não."

O combate às festas clandestinas tem sido um dos principais focos da gestão estadual nas últimas semanas. Aglomerações são proibidas em todos os estágios do Plano SP. Atualmente a capital está na fase vermelha.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, nos últimos dez dias houve quase 29 mil dispersões de aglomerações no estado, com 330 pessoas presas. Só neste final de semana, mais de 200 eventos de médio e grande porte foram fechados.

Agora, Maria de Lourdes diz que aguardará notícias do filho em casa, por meio do telefonema diário de atualização prometido pela equipe médica. Na UTI de covid não se pode receber visitas. Além disso, ela também tem de cumprir quarentena.

"Só espero que ele fique bem, meu Deus. Ele é a minha vida. Não está certo uma mãe enterrar um filho, é contra tudo. Ele vai ficar bem —e em casa."