Topo

Boris Johnson visita a Irlanda do Norte em meio a incertezas sobre fronteira após Brexit

O ministro britânico para a Irlanda do Norte, Julian Smith, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson em Belfast, capital da Irlanda do Norte - AFP
O ministro britânico para a Irlanda do Norte, Julian Smith, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson em Belfast, capital da Irlanda do Norte Imagem: AFP

Em Londres

31/07/2019 08h04

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, se reúne amanhã com os líderes dos principais partidos políticos da Irlanda do Norte, onde tentará acalmar as preocupações sobre o futuro da fronteira irlandesa no caso de um Brexit sem acordo.

Johnson, que chegou a Belfast ontemà noite, discutirá com os líderes partidários na província britânica para encontrar uma solução para a falta de um executivo local, que dura desde janeiro de 2017.

Mas a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) será a questão chave da sua visita.

Quando o Brexit entrar em vigor, os 500 quilômetros que separam a Irlanda do Norte da República da Irlanda, membro da UE, se tornarão a única fronteira terrestre entre o bloco comunitário e o Reino Unido.

Boris Johnson telefonou ontem ao seu colega irlandês, Leo Varadkar, para assegurar que seu governo "nunca" estabelecerá controles físicos na fronteira, mesmo no caso de um Brexit sem acordo e, portanto, sem a "salvaguarda irlandesa" prevista no Acordo de Retirada concluído entre Bruxelas e a ex-primeira-ministra Theresa May.

Este mecanismo é um dispositivo de último recurso para garantir que, se não for encontrada uma solução melhor, não haverá o restabelecimento de uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.

Graças a ele, seria criado um "território aduaneiro único", que incluiria a UE e o Reino Unido, e a Irlanda do Norte permaneceria em linha com uma série de regras do mercado único europeu, como normas sanitárias e controles veterinários.

Este é precisamente um dos principais pontos de discórdia sobre o Brexit, principalmente para o pequeno partido unionista norte-irlandês DUP, um aliado indispensável dos conservadores no Parlamento.

Manifestantes anti-Brexit protestam durante visita de Boris Johnson a Belfast, na Irlanda do Norte - Paul Faith/AFP
Manifestantes anti-Brexit protestam durante visita de Boris Johnson a Belfast, na Irlanda do Norte
Imagem: Paul Faith/AFP

A formação é contra a Irlanda do Norte receber um tratamento diferente do da Grã-Bretanha, algo que acredita que abriria caminho para a reunificação com a Irlanda, seu maior pesadelo.

Para Johnson, a "salvaguarda irlandesa está morta". Portanto, quer renegociar o acordo de saída sem este dispositivo, algo que a UE exclui.

Varadkar assinalou na terça-feira que a salvaguarda é "necessária", mesmo que "algumas soluções alternativas" possam ser consideradas no futuro, caso sua eficácia seja demonstrada.

Um Brexit sem acordo deixará a fronteira em uma situação confusa e representará um grande risco à economia da Irlanda, separando-a de seu principal parceiro comercial.

Em sua visita, o primeiro-ministro britânico também planeja discutir o risco de um ressurgimento da violência na Irlanda do Norte.

Varadkar apontou que um Brexit sem acordo tornaria mais provável a reunificação da Irlanda do Norte com a República da Irlanda.

"Nacionalistas moderados ou católicas moderados, que estão mais ou menos felizes com o status quo, olharão com mais atenção para uma Irlanda unida", assegurou.

"A fronteira foi o ponto de convergência de numerosos atos de violência durante o conflito na Irlanda do Norte", declarou em abril à AFP Gemma Clark, professora de história na Universidade de Exeter. "É um símbolo que os republicanos detestam".

O conflito da Irlanda do Norte envolveu republicanos nacionalistas - católicos e partidários da reunificação da Irlanda - contra os unionistas - protestantes e partidários da permanência na Coroa Britânica. Deixou cerca de 3.500 mortos até os acordos da Sexta-Feira Santa de 1998.

A morte, em abril, da jornalista Lyra Mckee em Londonderry, cidade localizada na fronteira com a Irlanda, cuja responsabilidade foi reconhecida pelo grupo dissidente republicano Nova IRA, alimentou ainda mais esses medos.

Mais Internacional