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A história de como a família do premiê britânico Boris Johnson apagou sobrenome de bisavô turco

28.jul.2019 - O turco otomano Ali Kemal se casou com a britânica Winifred Brun, e seus filhos mudaram de nome para Johnson - Who do you think you are?/BBC
28.jul.2019 - O turco otomano Ali Kemal se casou com a britânica Winifred Brun, e seus filhos mudaram de nome para Johnson Imagem: Who do you think you are?/BBC

28/07/2019 15h35

Se a tataravó do primeiro-ministro britânico não tivesse mudado o nome da família, o Reino Unido hoje seria comandado por um homem chamado Boris Kemal, uma história que não foi conhecida por muitos anos.

Se a trisavó do primeiro-ministro britânico não tivesse mudado o nome da família, o Reino Unido hoje poderia ser comandado por um homem chamado Boris Kemal.

A história de como a família de Boris Johnson apagou seu sobrenome de origem turco-otomana, substituindo-o por um inglês, não foi conhecida por muitos anos, até o então prefeito de Londres descobrí-la em 2008 em um episódio do programa Who Do You Think you Are? (Quem Você Pensa Que É?, em tradução livre), da BBC, em que celebridades britânicas investigam as origens de suas famílias.

Em 2019, em meio à disputa pelo cargo de primeiro-ministro, sua biografia voltou a ser comentada em detalhes. Johnson assumiu o cargo nesta semana, após a renúncia de Theresa May em meio a impasses sobre o Brexit, como é chamada a saída do Reino Unido da União Europeia.

Exílio e nascimento

O avô de paterno do premiê, Wilfred Johnson, nunca havia falado sobre o assassinato de seu pai, Ali Kemal, um político e jornalista, na década de 1920.

Intrigado pelo nome estrangeiro do bisavô e pelo mistério em torno de sua morte, Boris resolver desvendar o passado da família. Ele analisou documentos e foi a Istambul, na Turquia, encontrar seu primo Sinan Kuneralp, que o ajudou na investigação.

Wilfred Johnson foi na verdade foi registrado como Osman Wilfred Kemal ao nascer. Sua mãe, Winifred Brun, era filha do suíço Frank Brun e da britânica Margaret Johnson.

O pai de Wilfred, Ali Kemal, viajava muito, tanto à trabalho como por lazer, e havia se apaixonado por Winifred em uma de suas várias visitas à Suíça. Os dois se casaram em 1903.

Parte da oposição à monarquia na Turquia, Kemal era um jornalista proeminente no meio político do país e tinha forte convicções democratas que fizeram com que ele fosse exilado e fugisse para a Inglaterra em 1909.

No fim daquele ano, Winifred deu à luz a Wilfred, o segundo filho do casal, mas teve complicações no parto e morreu logo após depois.

A mãe de Winifred, a britânica Margaret Johnson - portanto, a trisavó de Boris Johnson - estava presente no nascimento do neto e, após a morte da filha, ficou responsável por criar os dois netos, Wilfred e sua irmã mais velha, Celma.

Em meio a papéis guardados por seu pai, o premiê encontrou uma carta do Ministério do Interior para sua trisavó em resposta a um questionamento feito por ela em 1916 sobre o que seria necessário para mudar o sobrenome do neto. O ministério informou que não seria preciso pedir autorização, porque ele era um cidadão britânico.

Não há em nenhum dos documentos uma indicação do motivo que levou Margaret Johnson a fazer a mudança, mas Boris Johnson e seu primo têm uma hipótese. Wilfred cresceu na época da Primeira Guerra Mundial, quando a Inglaterra estava lutando contra vários países além da Alemanha, entre eles a Turquia.

Um garoto com um sobrenome turco poderia se tornar um alvo na escola e na sociedade. Assim, Margaret deu ao neto seu sobrenome de solteira - ele passou a se chamar Wilfred Johnson - e mudou para sempre o nome da família.

E o pai das crianças, Ali Kemal? Ela havia voltado para a Turquia em 1912, onde se casou com Sabiha Han?m, filha de um pasha (título de alta patente do sistema militar e político) do império Otomano. Eles tiveram um filho, Zeki Kuneralp. Sinan, o primo de Boris que o ajudou na investigação, é filho de Zeki.

Assassinato e intrigas políticas

O bisavô de Boris tinha uma forte atuação política em um período turbulento e controverso na história da Turquia, o que acabou levando a uma morte violenta e prematura.

Filho de um comerciante de cera turco, Ali Kemal teve uma criação islâmica tradicional na infância, mas foi estudar na França e na Suíça e acabou se tornando um jornalista de sucesso, crítico do governo que controlava o Império Otomano.

Depois da derrota da Turquia na Primeira Guerra, Ali Kemal se tornou ministro do Interior do novo governo. Mas ele cometeu um erro ao enviar um memorando ordenando ao governo que ignorasse o nacionalista Mustafa Kemal Atatürk, que era extremamente popular e que acabaria se tornando um herói nacional da reforma do país e da fundação da República da Turquia.

Suas ações acabaram fazendo com que tivesse que renunciar ao cargo, e Ali Kemal voltou a escrever artigos criticando fortemente as táticas dos nacionalistas. Mas, quando houve uma outra mudança de regime e os nacionalistas tomaram o poder, seu destino foi selado.

Em 1922, Ali Kemal foi sequestrado pelo governo em uma barbearia - havia ordens para prendê-lo e julgá-lo por traição. No entanto, um general ligado a Atatürk interrompeu seu transporte, e o jornalista acabou linchado por uma multidão que havia sido armada pelo general com varas, pedras e facas.

Quem é Boris Johnson?

Assim como seu bisavô, Johnson foi do jornalismo à política e viveu entre países diferentes. Nascido em Nova York, em 1964, até pouco tempo ele tinha nacionalidade britânico-americana.

Já na Inglaterra, Johnson estudou em Eton, uma renomada escola privada, e depois na Universidade Oxford - percurso tradicional entre personagens da elite política britânica. Na universidade, integrou, junto com o ex-premiê David Cameron, o famigerado Bullingdon Club, um clube exclusivo para estudantes homens - em geral, ricos -, conhecido por suas festas regadas a bebida e baderna.

Conhecido por seu cabelo desgrenhado, algumas gafes, frases polêmicas e o gosto pelos holofotes, Boris Johnson se tornou muito popular entre uma parcela relevante do Partido Conservador.

Ele começou sua vida profissional como jornalista do The Times, de onde foi demitido após ter sido acusado de inventar uma frase de um entrevistado, e se tornou conhecido como correspondente em Bruxelas do The Daily Telegraph, quando escrevia histórias sobre a União Europeia com um tom negativo.

Em 2001, entrou de vez para o cenário político ao ser eleito parlamentar. Três anos depois, foi demitido de um alto posto na hierarquia do Partido Conservador por ter supostamente mentido a respeito de um caso extraconjugal.

Mas foi reeleito para o cargo no ano seguinte e, a essa altura, já era nacionalmente conhecido e muito popular - um político-celebridade. Em 2008, conquistou um grande feito para um membro do Partido Conservador: o posto de prefeito de Londres, uma cidade de tendências mais progressistas e liberais. Depois, em 2015, voltou ao Parlamento.

No plebiscito de 2016, a respeito do Brexit, Johnson foi umas das principais figuras políticas a apoiar o movimento a favor da saída do bloco, que acabaria sendo vitorioso. Ele ficou conhecido por seus ataques à União Europeia e foi acusado de exagerar e até mentir ao falar contra o bloco e na sua defesa dos supostos benefícios do Brexit.

Com a saída do premiê David Cameron, Johnson foi um dos cotados a assumir o governo em 2016, mas perdeu o apoio de seu coordenador de campanha, Michael Gove, que questionou sua capacidade de liderança. O posto acabou ficando com sua agora antecessora Theresa May, e Johnson se tornou secretário das Relações Exteriores.

Deixou o posto dois anos depois por desentendimentos com May por conta do Brexit. Voltou a ser suplente do Parlamento até este ano, quando foi eleito para comandar o Partido Conservador e o governo após a saída de May.


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