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Meio Ambiente

Desmatamento e impunidade atiçam incêndios na Amazônia

Em julho deste ano, as queimadas foram proibidas por 120 dias pelo governo de Jair Bolsonaro - Gabriela Biló/Estadão
Em julho deste ano, as queimadas foram proibidas por 120 dias pelo governo de Jair Bolsonaro Imagem: Gabriela Biló/Estadão

18/08/2020 08h12

Várias colunas de fumaça são avistadas nos arredores da cidade paraense de Novo Progresso, provocadas pelo desmatamento de terras invadidas e por queimadas para limpar a área em um dos municípios mais afetados pelos incêndios na Amazônia brasileira.

Em um assentamento rural, situado a 70 km desta cidade, as chamas devoram em pouco mais de meia hora as terras de Pedro Gomes, um dos pequenos agricultores que há anos as receberam do governo, e se estendem alguns metros por uma coluna de vegetação densa e árvores altas.

Com chapéu de vaqueiro e pele curtida pelo sol, Gomes (o nome é fictício), de 48 anos, é um dos milhares de agricultores e criadores instalados na maior floresta tropical do planeta que recorrem às queimadas na temporada da seca para preparar a terra. eliminar as pragas e cultivar milho e soja ou plantar pasto para o gado.

"Para os satélites do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) isso é um foco de incêndio. Você acredita nisso?", afirma sorrindo em entrevista à AFP, encostado no portão de sua propriedade de 48 hectares, um espaço considerado pequeno para os parâmetros brasileiros.

"Isso é uma queimada, não um incêndio. E se sair a floresta apaga", defende, antes de perguntar: "Como querem que a gente faça sem queimar?", indaga.

A fumaça e os poucos troncos que permanecem de pé apenas deixam ver sua precária casa de madeira.

Em julho deste ano, as queimadas foram proibidas por 120 dias pelo governo de Jair Bolsonaro, após a crise internacional ocorrida no ano passado por seu aumento nessa floresta essencial para o equilíbrio do clima no mundo.

Os meses de agosto e setembro serão decisivos para saber se a ordem foi seguida e se a tendência foi revertida, como afirma o governo.

Em julho, o desmatamento caiu 36% em relação ao nível recorde de julho de 2019, mas no período de agosto de 2019 a julho de 2020 (ano de referência no calendário do desmatamento), a derrubada da floresta atingiu 9.205 km2, 34,5% a mais que nos doze meses anteriores.

No último ano, o município de Novo Progresso foi o epicentro do trágico "Dia do Fogo", em 10 de agosto, quando a floresta foi incendiada em um suposto esquema criado para mostrar que as promessas eleitorais de Bolsonaro foram levadas a sério pelos proprietários rurais do Pará. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo, a 2.500 km de distância.

Agamenon Menezes, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, garante que o "dia do fogo" foi "uma informação falsa da mídia", e pede ao governo que legalize as fazendas existentes, para que seus proprietários tenham que "cumprir a legislação ambiental".

"Plantar bois"

Os ambientalistas ressaltam que na floresta praticamente não existe a combustão espontânea, e que os incêndios estão relacionados ao aumento do desmatamento.

Um fenômeno que atinge principalmente terras públicas, assentamentos rurais e propriedades privadas e que, segundo as ONGs, é estimulado pelo apoio de Bolsonaro à abertura da Amazônia para as atividades extrativistas e agropecuárias.

Dos mais de 9.000 km2 desmatados nos últimos doze meses, cerca de 11% ocorreram em unidades de conservação ambiental e reservas indígenas.

"O grileiro marca o território com o desmatamento e como o boi, um sinal de que a terra esta ocupada. Usa o boi como vigia, invade, vende a madeira, (...) ocupa e espera vender a fazenda lá para frente para outro agente econômico, que vai ser usada para plantar soja ou gado", explica Beto Veríssimo, fundador do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Em agosto, uma equipe da AFP percorreu milhares de quilômetros de estradas de terra entre o norte do Mato Grosso e o sul do Pará, repletas de grandes fazendas com gado e com restos de árvores ainda queimadas.

Também verificou áreas enormes recentemente desmatadas, prontas para ser queimadas. Trata-se de uma situação preocupante que agrava os impactos à saúde em meio à pandemia do novo coronavírus, que no Brasil já deixou mais de 107 mil mortos.

As ONGs consideram que o aumento do desmatamento está vinculado ao desmonte dos órgãos de controle, como IBAMA e ICMBIO.

Em entrevista à AFP neste mês, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que as instituições ambientais têm um déficit de 50% de funcionários há dez anos, e ressaltou que por isso Bolsonaro mobilizou as Forças Armadas para combater o desmatamento.

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