Como aventura de dupla nos Andes pode desvendar mistério sobre acidente aéreo após 32 anos

  • Dan Futrell

    Dan (esq.) e Isaac (dir.) mostram pedaços da caixa-preta do voo 980, que finalmente vai ser analisada por peritos nos EUA

    Dan (esq.) e Isaac (dir.) mostram pedaços da caixa-preta do voo 980, que finalmente vai ser analisada por peritos nos EUA

A aventura de dois amigos que adoram desafiar os próprios limites se transformou numa descoberta que pode solucionar um dos grandes mistérios da aviação internacional: a queda do voo 980 da Eastern Airlines, com 29 pessoas a bordo, na Bolívia.

O avião bateu no monte Illimani, a mais de 6 mil metros de altitude, no dia 1º de janeiro de 1985, quando se aproximava do aeroporto de La Paz.

As buscas foram suspensas depois que equipes internacionais não conseguiram recuperar os corpos nem as caixas-pretas do Boeing 727 por causa da dificuldade de acesso.

Até que no ano passado os americanos Dan Futrell, de 33 anos, e Isaac Sotner, de 31, decidiram arriscar a sorte e chegar até lá.

Eles contaram a aventura a Jo Fidgen no programa Outlook, do serviço mundial da BBC.

Caçando caixas-pretas

Dan e Isaac vivem num subúrbio da cidade de Boston, no nordeste dos Estados Unidos.

Tudo começou quando eles acompanhavam o noticiário sobre o voo MH370, da Malaysia Airlines, que sumiu dos radares com 239 pessoas a bordo em março de 2014.

"Era sábado e eu estava sentado preguiçosamente em casa, pensando no voo da Malaysia Airlines. Fui para a internet e vi que havia 19 caixas-pretas não encontradas em todo o mundo", lembra Futrell.

Uma delas era a do voo 980 da Eastern Airlines, que saíra de Assunção, no Paraguai, para Miami, com escalas na capital boliviana de La Paz e em Guaiaquil, no Equador.

A preparação

"Quanto mais líamos sobre o voo 980, mais víamos que havia várias teorias da conspiração em busca de uma explicação para a queda do avião. Diziam até que uma bomba tinha derrubado o voo", conta Sotner.

Veterano da Guerra do Iraque, Futrell trabalha em uma empresa que coleta dados da internet. Stoner, por sua vez, é especialista em biotecnologia. Eles adoram esportes radicais e competir.

A aventura nos Andes bolivianos começou assim, como se fosse uma disputa entre eles.

"Sabíamos que a altitude ia ser um grande desafio. Compramos uma tenda que era enchida com hidrogênio para simular as condições naquela altitude e ficávamos nela, nos preparando. Fazíamos abdominais e corríamos com mochilas pesadas nas costas", diz Futrell.

Quando desembarcaram no aeroporto de La Paz, os amigos entenderam por que ele é chamado de El Alto (O Alto, em espanhol): é o aeroporto internacional mais elevado do mundo e sua pista fica a cerca de 4 mil metros de altitude.

"Assim que você desembarca, sente o ar rarefeito", lembra Stoner.

A dupla chegou à Bolívia em maio e foi recebida pelo guia no aeroporto.

Em busca do voo 980

"Passamos os primeiros dias em La Paz nos aclimatando à altitude e à falta de oxigênio. Fomos levados para um glaciar onde aprendemos como escalar na neve. Nunca tínhamos feito aquilo", conta Futrell.

Eles foram para o monte Illimani, montaram o acampamento e começaram a subir.

"Depois de uma hora, a primeira coisa que encontramos foi um colete salva-vidas. O primeiro pensamento que tive foi: 'Achamos algo que deveria salvar vidas e ninguém foi salvo'", continua.

"Sabíamos que estávamos na área certa e que era um lugar trágico para 29 famílias. Encontramos restos de seis pessoas e a pergunta era: o que vamos fazer com eles? Resolvemos enterrá-los, marcar o local e avisar as famílias. Eles estão em um lugar lindo, a 3 mil metros de altura", prossegue Stoner.

Dan Futrell
A roda do trem de pouso foi um dos primeiros destroços do voo da Eastern Airlines encontrado pelos americanos

Ele acrescenta que a primeira peça do avião que viram foi uma roda do trem de pouso. "Havia uma peça por metro quadrado. Era uma área de destroços muito maior do que imaginávamos".

Os amigos também encontraram o que restou de um carregamento de répteis, principalmente lagartos e cobras, que estava sendo contrabandeado.

'A caixa-preta não estava intacta'

Dan Futrell
Em busca da caixa-preta, que na verdade é laranja, os amigos separaram todos os destroços encontrados por cor

"Achamos camisetas, uma cafeteira, a tampa da privada", diz Stoner, para acrescentar: "Estávamos procurando a caixa-preta, que na verdade é laranja, a cor internacional do equipamento. Mas não sabíamos qual era o formato exato nem como ela estaria".

"Nos primeiros dias, encontramos cinco pedaços de metal laranja e um rolo de fita de gravador que poderia ser da caixa-preta", afirmou Futrell.

No último dia, Stoner achou uma peça que se encaixava nas outras e tinha a etiqueta do gravador de voz da cabine comando: "A caixa-preta não estava intacta".

Dan Futrell
A etiqueta presa aos fios do gravador de voz era a prova que falta para os aventureiros afirmarem que haviam achado a caixa-preta do voo da Eastern Airlines

A dupla guardou os destroços e os levou para casa, em Boston.

"Não desrespeitamos as leis internacionais, isso é relativo", justifica Stoner, lembrando que fez contato com a NTSB, a agência americana de segurança nos transportes.

Perícia nos EUA

"A primeira coisa que perguntaram era se tínhamos levado aquilo para os EUA. Mandaram que devolvêssemos e falássemos com a embaixada da Bolívia em Washington para conseguir uma autorização para que os destroços fossem examinados na NTSB".

Eles mandaram vários emails, telefonaram e tentaram se comunicar com as autoridades bolivianas de todas as formas. Mas dizem não ter obtido resposta.

Dan Futrell
Entre os achados, a fita onde poderiam estar gravados os diálogos da cabine de comando

Sete meses depois, receberam um telefonema do capitão Edgard Chavez, inspetor do Departamento de Aviação Civil da Bolívia, informando que as investigações seriam entregues à NTSB.

No mês passado, eles entregaram aos peritos americanos o material que trouxeram dos Andes bolivianos.

"Esperamos ter ajudado a descobrir o que aconteceu com aquele avião", diz Futrell.

Eles levaram um presente para Stacey Grear, que tinha dois anos quando o pai, o engenheiro de voo Mark Bird, morreu na queda do voo.

"Trouxemos alguns fragmentos de metal para ela. Umas 35 peças pequenas. Ela precisava pegar nos pedaços do avião em que o pai estava", revela Stoner.

Stacey fez um colar com os pedaços de metal - uma lembrança do pai e da sua perda.

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