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Quem é John Bolton e por que ele pode "incendiar" impeachment de Trump

John Bolton (dir.), em foto de 2018 com o presidente, acumulava discordâncias com Trump sobre como conduzir a política externa - Sean Gallup
John Bolton (dir.), em foto de 2018 com o presidente, acumulava discordâncias com Trump sobre como conduzir a política externa Imagem: Sean Gallup

27/01/2020 18h36

Políticos democratas esperam que o ex-conselheiro de Segurança Nacional forneça provas irrefutáveis de que o presidente cometeu abuso de poder nas relações diplomáticas com a Ucrânia.

Congressistas democratas aumentaram a pressão para que o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton deponha no julgamento do impeachment do presidente Donald Trump.

O possível depoimento ganhou ainda mais importância após relatos de que, em novo livro, Bolton afirma que Trump disse a ele que tinha a intenção de congelar ajuda militar à Ucrânia até que o governo do país ajudasse nas investigações contra democratas, incluindo o ex-vice-presidente Joe Biden.

A informação estaria em um rascunho do livro, obtido pelo jornal The New York Times.

O presidente americano nega os relatos. O testemunho de Bolton, porém, colocaria em xeque as alegações de Trump, que afirma não ter cometido abuso de poder ao pedir que o presidente ucraniano Volodomyr Zelensky, em um telefone em julho de 2019, que investigasse Biden, seu potencial rival nas eleições presidenciais de novembro deste ano.

"Se John Bolton disse isso, foi só para vender livros", escreveu Trump no Twitter.

O antigo assessor, que é republicano, seria um herói improvável para o Partido Democrata. Ainda assim, os políticos da sigla acreditam que ele poderia ser uma testemunha-chave, que forneceria provas irrefutáveis de que Trump cometeu irregularidades - dando corpo, assim, à demanda para que o presidente deixe o cargo.

Por dentro do poder

Formado na prestigiada Universidade Yale, Bolton, de 71 anos, ocupou o cargo nos anos de 2018 e 2019.

Ele esteve "pessoalmente envolvido" nas tratativas do presidente com autoridades ucranianas, segundo seu advogado, Charles Cooper.

Se Bolton testemunhasse, seria capaz de fornecer o relato mais detalhado divulgado até este momento da suposta pressão política de Trump sobre Zelensky e sobre a decisão de congelar US$ 391 milhões em ajuda militar.

Outras testemunhas já afirmaram que membros do governo Trump usaram os recursos como instrumento de barganha para pressionar os ucranianos a investigarem Biden e seu filho, Hunter.

Mas nenhuma delas relacionou Trump explicitamente ao condicionamento da ajuda militar a uma investigação, nem indicou que o presidente tenha pessoalmente orientado as operações.

Para os democratas, o ex-conselheiro de Segurança Nacional poderia, justamente, fornecer a prova incontestável contra Trump.

"Bolton estava presente no momento do crime", diz Evelyn Farkas, que atuou na Rússia durante o governo de Barack Obama e, agora, concorre a uma vaga no Congresso pelo Estado de Nova York.

EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA)
Imagem: EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA)

"E ele sabia que era um crime já naquele momento."

De acordo com os relatos, Bolton se opôs ao congelamento de recursos para o Ucrânia e tentou, sem sucesso, convencer o presidente a liberar a ajuda militar durante reunião no Salão Oval.

"Isso é o melhor para os Estados Unidos", teria dito o então conselheiro, segundo o New York Times, ao defender que a Ucrânia deveria receber o montante.

Os recursos acabaram por ser liberados - um dia depois de Bolton deixar o governo, em setembro.

Trump já disse repetidamente que não fez nada de errado é que o processo de impeachment é um golpe.

Advogados da Casa Branca já negaram pedidos de congressistas democratas para que Bolton e outras testemunhas deponham no julgamento no Senado.

De acordo com eles, esses depoimentos violariam o direito do presidente à confidencialidade.

Bolton já afirmou publicamente que, se for convocado, prestará depoimento. Os senadores americanos votarão a convocação de testemunhas nos próximos dias.

"Ávido tomador de notas"

Segundo Tara McKelvey, correspondente da BBC na Casa Branca, Bolton, sem dúvida, sabe muito.

Ela conta que, em todas as ocasiões em que o encontrou, o ex-conselheiro de Segurança Nacional estava sempre carregando um bloco de anotações.

E essas notas provavelmente foram muito úteis para escrever seu novo livro - relatos da imprensa americana dizem que o acordo, com a editora Simon & Schuster, envolveu alguns milhões de dólares.

"Bolton será uma testemunha poderosa para os democratas", diz Jeremy Shapiro, que atuou por anos como diplomata do Departamento de Estado americano.

"Ele é um ávido tomador de notas e queria sempre anotar tudo. Isso dá a ele uma credibilidade extra."

Parte dos que acompanham a Casa Branca, porém, questionam se Bolton sabe tanto quanto parece ou se sua disposição para testemunhar é apenas uma estratégia para promover seu livro "The Room Where It Happened: A White House Memoir" ("A sala em que tudo aconteceu: memórias da Casa Branca", em tradução livre), que será lançado no próximo mês.

Os advogados do ex-assessor de Trump dizem que o rascunho obtido pelo New York Times foi vazado pela Presidência americana, que havia recebido uma cópia para avaliar a divulgação de informações confidenciais.

Depoimento pode mesmo mudar as coisas?

Muitos, como Shapiro, questionam também se o depoimento de Bolton pode ter realmente o impacto esperado pelos democratas.

"Está absolutamente claro que o presidente é culpado", diz o ex-diplomata. "Mas também está absolutamente claro que os senadores republicanos não ligam."

"Eles nunca condenariam esse cara por nada", afirma.

O impeachment de Trump foi aprovado pela Câmara dos Deputados, de maioria democrata, em dezembro. Para que deixe o cargo, porém, é preciso uma maioria de dois terços no Senado - dominado pelos republicanos, por 53 a 47. Uma votação contra Trump, portanto, é improvável.

Ele é o terceiro presidente americano a enfrentar um processo de impeachment.

Anthony Zurcher, correspondente da BBC News em Washington, menciona outra dificuldade: será que quatro senadores republicanos mudarão de lado e votar a favor do depoimento de John Bolton?

"Embora ele possa claramente ser uma testemunha-chave - revelando os motivos por trás do congelamento da ajuda militar para a Ucrânia e o envolvimento do presidente no caso -, convocá-lo para depor mergulharia o julgamento no Senado em incertezas", diz.

Além disso, poderia haver uma batalha legal envolvendo o tema. Trump já deu indícios de que tentaria barrar o depoimento na Justiça.

Discordâncias

Reuters
Imagem: Reuters

Bolton defendia políticas linha-dura em relação à Coreia do Norte, o Afeganistão e o Irã, e o presidente nem sempre concordava com ele. Por vezes, Bolton era escanteado no governo.

Sua demissão, em setembro, foi anunciada pelo próprio Trump pelo Twitter.

"Informei a John Bolton na noite passada que seus serviços não são mais necessários na Casa Branca. Eu discordei veementemente de muitas de suas sugestões, assim como outros no governo, e portanto pedi sua renúncia, que ele me concedeu nesta manhã. Agradeço muito por seu trabalho. Nomearei um novo conselheiro de Segurança Nacional na semana que vem", afirmou.

Bolton se opunha a negociações de paz com o Talibã, grupo convidado por Trump para dialogar. O plano, depois abandonado, foi alvo de críticas sobretudo por causa do timing: a proximidade com o aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001, realizados pela Al-Qaeda, organização extremista que o Talibã permitiu operar no Afeganistão.

Bolton foi o terceiro conselheiro de Trump na função, depois de Michael Flynn e HR McMaster.

Um ex-funcionário sênior do governo disse à época, em condição de anonimato, que Bolton "operava separadamente em relação à Casa Branca", sem comparecer a reuniões.

Bolton também chegou a ser embaixador temporário dos EUA nas Nações Unidas (abandonou o posto quando percebeu que não teria sua nomeação ratificada pelo Senado americano) e ocupou cargos nos últimos três governos conduzidos por políticos republicanos, desde a gestão de Ronald Reagan (1981-1989).

A maioria dos postos foi nos departamentos de Justiça e de Estado.

É um árduo defensor do direito ao porte de armas por cidadãos comuns - Bolton é ligado à NRA (Associação Nacional do Fuzil, principal grupo de lobby pró-armas dos EUA), onde comandou o Subcomitê de Assuntos Internacionais em 2011.

No primeiro semestre de 2018, após assumir o cargo no governo Trump, um vídeo gravado em 2013 veio à tona e ganhou manchetes nos EUA. No filme, patrocinado pela NRA, Bolton pede que a Rússia garanta o porte de armas em sua Constituição, como acontece nos EUA.

"Isso criaria uma parceria entre o governo nacional russo e seus cidadãos, que poderiam proteger melhor mães, crianças e famílias sem comprometer a integridade do Estado russo", afirmou.

Bolton foi um dos principais articuladores da invasão americana no Iraque, durante o governo de George W. Bush, sob o argumento de que o então regime de Saddam Hussein mantinha um programa secreto de armas de destruição em massa.

Em 2005, porém, dois anos após o ataque, um relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) desmentiu a informação.

O Irã também esteve entre os alvos preferidos do então assessor de Trump, que defendeu bombardeios americanos contra o país em 2008 e em 2015, enquanto o então presidente Barack Obama costurava um acordo de paz entre os dois países - desfeito no ano passado por Trump.

A postura diplomática de Bolton fica clara em um de seus livros de memórias, publicado em 2007.

Em "Surrender Is Not an Option" ("Render-se não é uma opção", em tradução livre), ele defende que organizações multilaterais como a ONU vão além de reger relações entre países e interferem na soberania nacional.

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