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Boi Tolo faz desfile alternativo por caminho secreto no centro do Rio

Jesus e seus seguidores no bloco Boi Tolo, no Rio de Janeiro - Marcelo de Jesus/UOL
Jesus e seus seguidores no bloco Boi Tolo, no Rio de Janeiro
Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

Michel Alecrim

Colaboração para o UOL, no Rio

03/03/2019 09h25Atualizada em 05/03/2019 17h23

O Boi Tolo fez jus hoje novamente à fama de ser um dos blocos mais irreverentes e alternativos do Rio de Janeiro. O desfile partiu da Igreja da Candelária, no Centro, sem destino certo, mas foi reunindo ao longo do caminho os adeptos com fantasias bem inspiradas. Apesar do mistério que normalmente ronda o local e horário do bloco, os organizadores mantiveram o ponto de concentração já anunciado na noite anterior nas redes sociais.

Já às 6h, alguns foliões aguardavam na porta da igreja o início do cortejo. Aos poucos, a multidão foi se formando ainda na expectativa de uma súbita mudança de itinerário, como já ocorreu em outros anos, mas por volta das 8h a chegada dos músicos serviu de confirmação para todos. Os participantes partiram pela Avenida Presidente Vargas ao som de "Ó Abre Alas", marchinha clássica de Chiquinha Gonzaga.

De olho na política

Marcelo de Jesus/UOL
Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

Apesar do repertório composto basicamente de músicas de antigos carnavais, o Boi Tolo é um bloco super antenado com o momento político atual.

Na frente, junto com a turma de pernaltas, um integrante carregava placa com frase tirada do enredo da Mangueira deste ano: "Brasil chegou a sua vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês", em homenagem a mulheres que lutaram por igualdade.

A cineasta Ana Nogueira, de 37 anos, desfilou de topless e foi na frente do bloco sobre pernas de pau. "É cada vez mais importante para nós mulheres mostrarmos que somos donas do próprio corpo", afirma Ana. Segundo ela, o Boi Tolo, apesar de contestador, procura incentivar a limpeza das ruas e a colaboração com os ambulantes. Durante o trajeto, o cortejo parou até que uma criança perdida fosse encontrada. Para isso, todos se agacharam no chão.

A parada foi estratégica também para se estudar o percurso. O bloco recebe "manadas" de outros lugares. Parte vinha de Niterói, outro grupo chegou de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e outro de Campo Grande, na zona Oeste carioca.

Rebeldia 

Marcelo de Jesus/UOL
Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

Apesar da presença da Polícia Militar e da Guarda Municipal, o desfile ocorreu tranquilamente, mesmo sem o alvará de uma agremiação formal. Essa rebeldia é o que atrai pessoas não só do Rio, como do Brasil todo, numa tentativa de retomar a espontaneidade dos carnavais passados.

O gaúcho Leonardo Tonetto, de 28 anos, fez sucesso fantasiado de Jesus. Os cabelos compridos já ajudaram a compor naturalmente o personagem. "Acho que esse é o bloco que mais tem a cara do Rio. Fiz questão de acordar cedo por isso", afirmou o folião.

A estudante de medicina carioca Clara Silva, 25, desfilou grávida de sete meses, ao lado do pai da criança, o inglês Andy Veazy, também de 25. Ele está de partida de volta para sua terra e queria conhecer o tão falado Boi Tolo. "Vimos vários vídeos e ficamos loucos para conhecer", disse Clara.

"Fora Bozo!"

Marcelo de Jesus/UOL
Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

Numa brincadeira com os temas políticos do momento, a designer Barbara Queiroz, 35, foi toda de vermelho, fantasiada de "ameaça comunista". Seu amigo Jefferson Mendes, 30, colocou uniforme escolar com a faixa "escala com partido", ironizado o projeto de lei que tenta controlar o que chamam de "doutrinação" nas salas de aula. "É um deboche contra a censura", explicou Mendes.

No meio da Avenida Passos, quando a banda tocava a marchinha "Índio Quer Apito", formou-se um coro a cada refrão de "Fora Bozo!". Um protesto claro contra o presidente Jair Bolsonaro, que ganhou essa alcunha nas redes sociais desde a campanha presidencial.

No trajeto até a Lapa, o bloco até fez "olas", com todo mundo pulando no final. A algazarra também ficou por conta da participação do bloco As Trepadeiras, mulheres que vão subindo no mobiliário urbano ou em muros. A fundadora do grupo, Thalita de Paula, 38, diz que o grupo aproveita o Carnaval para pregar o empoderamento da mulher. "Estive na formação do Boi Tolo há 13 anos e é como seu eu fizesse parte dos dois blocos", contou  Thalita.

Para garantir a segurança dos pernaltas e músicos, é feito um cordão humano de isolamento no meio da multidão. São amigos e parentes do núcleo do bloco que voluntariamente vão de mãos dadas durante o trajeto para ajudar na evolução e evitar incidentes.

 O esforço durou horas até a dispersão do bloco perto dos Arcos da Lapa. De lá, cada estandarte puxou um grupo para um trajeto, tanto de volta ao Centro quanto para a Zona Sul. Ao longo do dia, muitos foliões ainda continuam entrando numa ramificação, sem hora para acabar.

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