Fêmeas dominam o reino animal, e algumas delas têm até pseudopênis

Paula Moura

Do UOL, em São Paulo

  • Wikimedia Commons

    As fêmeas do urso-gato asiático têm uma espécie de pseudopênis

    As fêmeas do urso-gato asiático têm uma espécie de pseudopênis

Acostumados com grupos dominados pelo macho alfa, é difícil imaginar que a regra entre os seres vivos na verdade seja o comando das fêmeas. "Na natureza, se não contar os mamíferos, na maioria esmagadora das espécies a fêmea é sempre maior", explica o biólogo Glauco Machado, da USP (Universidade de São Paulo).

Além de maior, em muitas espécies ela passa sua liderança para suas filhas, como no caso das abelhas e das hienas malhadas. "Essa história do macho ser grande é uma particularidade dos mamíferos. Como somos mamíferos e tendemos a observar os mamíferos, a gente tende a acreditar que isso é regra na natureza, mas está longe de ser", diz o pesquisador.

No caso de insetos, sapos, cobras, peixes, as fêmeas são sempre maiores. Muitos desses animais crescem a vida inteira, e quanto maior é a fêmea, mais ovo ela coloca e gera mais filhotes.

Reprodução/museperk
As fêmeas das cobras costumam ser muito maiores que os machos

Ao longo do tempo as fêmeas maiores foram selecionadas e há fêmeas que podem ter de dez a cem vezes o peso do macho. O Nemo, peixe palhaço, a fêmea é duas a três vezes maior que o macho.

Em algumas espécies, as fêmeas chegam a ter órgãos reprodutivos que se assemelham a um pênis. 

Psocoptera 
Kazunori Yoshizawa/Rodrigo Ferreira/Current Biology/Divulgação
Neotrogla: pseudopênis feminino é inserido no macho para sugar esperma e comida

Os insetos da espécie psocoptera são pequenos e alguns deles vivem até mesmo dentro de nossas casas ou no tronco das árvores. Alguns deles vivem em cavernas e, em 2016, o pesquisador brasileiro Rodrigo Ferreira, da Universidade Federal de Lavras, e cientistas japoneses descobriram que a fêmea tem um dos pseudopênis mais eficientes já vistos.

Os autores do estudo inclusive propõem mudar o próprio conceito de pênis e defendem que deveria ser expandido para as fêmeas que o possuem.

São quatro espécies (Neotrogla curvata, N. aurora, N. truncata e N. brasiliensis) e todas desenvolveram órgãos com formato semelhante para que as fêmeas segurassem o macho em uma posição quando o pênis incha.

O macho continua sendo quem passa o esperma, mas ele tem um orifício genital. Além de passa o esperma, ele oferece uma série de nutrientes importantes. "É chamado de presente nupcial, uma comida que o macho transfere para a fêmea durante a cópula", explica Machado.

Esse conjunto de estruturas especializadas faz com que a transferência seja mais eficiente e que a fêmea consiga ter controle sobre a transferência, pois a fêmea segura o macho.

Eles vivem em cavernas secas, com pouco alimentos disponível além de carcaças de morcegos. A teoria é que a falta de nutrientes tornou o macho mais seletivo e a fêmea precisou se adaptar ao longo de milhares de anos.

JasonOndreicka/iStock
Aranha viúva negra é maior que macho e tem esse nome por devorá-lo após a cópula

Hienas malhadas

Se a dominância de tamanho nem sempre acontece entre os mamíferos, há também entre nós sociedades matriarcais, como é o caso das hienas. Além de ser maior e mais agressiva que os machos, as fêmeas da hiena malhada possuem um pseudopênis. 

Nos grupos de hienas, existe uma fêmea alfa, líder do clã e passa seu reinado para a cria fêmea. Além disso, a fêmea tem em média de 44 kg a 64 kg, podendo chegar a 90 kg. O macho em média é 12% menor em termos de massa que a fêmea, com 40 kg a 55 kg.

O pseudopênis é um clitóris aumentado que os biólogos ainda não sabem por que existe. "Até agora ninguém foi categórico em dar uma resposta final para essa peculiaridade da morfologia das hienas fêmeas", diz Machado.

O órgão chega a quase 18 cm e chega a ficar ereto. Só que a pseudo-ereção da hiena não serve para a cópula, mas sim para mostrar dominância perante fêmeas e machos do grupo.

Para procriar, a hiena fêmea precisa recolher seu pseudopênis para que o macho consiga realizar a penetração.

Custo-benefício evolutivo

ea-4 /iStock
Hiena malhada dá à luz pelo pseudopênis e isso aumenta a mortalidade dos primeiros filhotes

É pelo pseudopênis que essas hienas urinam e também dão à luz. Como o canal é muito estreito, as primeiras crias geralmente morrem sufocadas ao nascer. A taxa é de mortalidade é de 10% no primeiro parto, considerada muito alta.

Outros mamíferos cujas fêmeas têm pseudopênis são a do urso-gato-asiático e dos lemures-de-cauda-anelada, mas as pesquisas sobre esse assunto e sobre os motivos dessa características ainda são escassas.

"Quando há a evolução de uma característica morfológica ou comportamento, o custo daquela estrutura ou comportamento tem que ser menor do que os benefícios que têm com ela", explica Machado.

A hipótese, no caso das hienas, é que para conseguirem ser mais fortes que os machos e ser a fêmea alfa do grupo, as mães passam uma grande carga de testosterona para as filhotes fêmeas durante a gestação.

Esse hormônio promove aumento de tamanho, de massa muscular e agressividade, características associadas aos machos. Aumentos de testosterona no útero causam alterações genitais no filhote.

A filhote da hiena tem muitas vantagens em nascer forte, grande. A líder do bando tem uma série de vantagens: acesso à comida primeiro e sempre tem o direito de se reproduzir. As fêmeas mais abaixo no ranking às vezes sequer consegue se reproduzir e a função delas é ficar ajudando a fêmea dominante.

Outra curiosidade sobre as hienas é que elas são muito boas de caça, não são apenas "carniceiras", se aproveitando do resto da comida dos leões. Depois do advento de filmagens dos animais à noite, descobriu-se que elas são muito mais ativas no período noturno, caçando, cercando presas de forma sofisticada.

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