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Alberto Bombig

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Para aliados, inimizade figadal com Garcia levou Kassab a apoiar Tarcísio

Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Alberto Bombig

Alberto Bombig é jornalista com passagens pela Folha de S. Paulo, revista Época e O Estado de S. Paulo.

Colunista do UOL

07/07/2022 04h01Atualizada em 07/07/2022 09h54

Nos bastidores da política paulista, o apoio do PSD a Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) foi lido como mais uma manobra arrojada de Gilberto Kassab, mas que destoa de seu perfil de "estrategista" porque, na raiz do movimento, estaria sua inimizade figadal com o atual governador Rodrigo Garcia (PSDB), dizem aliados e ex-aliados de ambos ouvidos pela coluna.

Na raiz dessa desavença, capaz até de arrastar Kassab para a órbita de Jair Bolsonaro e, consequentemente, afastá-lo de Lula (PT), está um grande desafeto do presidente da República: Alexandre Moraes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).

Por muitos motivos foi muito comemorada na base governista no Congresso e nos bastidores do Executivo federal a adesão de Kassab ao projeto eleitoral bolsonarista em São Paulo: ainda que o presidente do PSD tente circunscrever seu apoio apenas a Tarcísio, que é o pré-candidato do Planalto, o entorno de Bolsonaro avalia que Kassab acabará arrastado para a disputa nacional no estado quando a eleição esquentar.

Ou seja, no plano nacional, em algum momento, dizem aliados do presidente e interlocutores de Tarcísio, Kassab será chamado a dividir um palanque com Bolsonaro em São Paulo, por mais constrangimento que isso possa causar para os dois, que já trocaram torpedos verbais.

Sempre importante também lembrar, claro, o fato de Garcia ser hoje o principal adversário de Tarcísio no cenário eleitoral. Segundo o Datafolha, o tucano e Tarcísio disputam palmo a palmo neste momento para ver quem se aproxima do líder, Fernando Haddad (PT). Por isso, a guinada radical de Kassab, que se aproximava cada vez mais de Lula, foi motivada, principalmente, pela vontade de tirar o atual governador do segundo turno da eleição.

Kassab e Garcia, que fizeram dobrada histórica em eleições para o Legislativo e sempre ocuparam o chamado "campo azul" da política paulista, se tornaram inimigos, segundo apurou a coluna com interlocutores de ambos, na década passada. O rompimento ocorreu no final da segunda administração Kassab na prefeitura da capital paulista (2009-2012) e envolveu também o atual ministro do STF Alexandre Moraes.

Os três comandavam o DEM em São Paulo. Moraes chegou a ser uma espécie de super secretário de Kassab na administração municipal, mas acabou demitido em 2010. Começava, então, uma relação de mágoas e ressentimentos, porque o atual governador acabou se aliando ao atual ministro para tentar manter o DEM ativo no estado.

Moares e Garcia não teriam aceitado a forma como o então prefeito Kassab agiu para criar o PSD, tirando quadros importantes do DEM paulista. Desde então, a relação do ex-prefeito com o atual governador só se deteriorou politicamente. Quando da formação do novo partido, Kassab chegou a suspeitar de uma interferência de Moraes nos questionamentos jurídicos sobre a nova legenda.

Por ora, os petistas adotam cautela ao abordar a aliança porque reconhecem o esforço de Kassab em favor de Lula em outros estados importantes, como Minas Gerais, onde Alexandre Kalil (PSD) está com o ex-presidente.

Alguns petistas reconhecem, em privado, que Kassab precisava "compensar" o apoio em Minas com algum gesto importante do PSD na direção de Bolsonaro, pois grande parte de seu partido é composta por políticos alinhados ao Planalto ou com interesses regionais que pendem para a direita (portanto, contra Lula).

Mas será difícil para Kassab continuar equilibrando pratos se Tarcísio for para o segundo turno contra Haddad em São Paulo. Ainda assim, nos bastidores do PT existe quem acredite que, uma vez tendo conseguido sucesso em derrotar Garcia, o presidente do PSD poderá se dedicar a outras campanhas fora de São Paulo e continuar com sua boa relação com Lula.

Com a adesão de Kassab, que deve anunciar oficialmente nesta quinta-feira (7) o apoio do PSD a Tarcísio, a ideia do Planalto é transformar o pré-candidato em um interlocutor privilegiado do presidente com o mercado financeiro e o setor produtivo. A ideia também é envolver Kassab nesse diálogo.

Por ora, Tarcísio tem mantido uma distância regulamentar do presidente. Mas, em privado, gente ligada a Bolsonaro diz que ele entrará na campanha do ex-ministro quando ele estiver mais consolidado nas pesquisas.

No PSDB, o apoio de Kassab a Tarcísio foi entendido como mais uma declaração de guerra dele contra Garcia. Uma das leituras, porém, é de que a retirada da pré-candidatura de Felício Ramuth (PSD) para ser vice do ex-ministro de Bolsonaro pode favorecer o tucano.

Ex-prefeito de São José dos Campos (SP), Ramuth era filiado ao PSDB e tinha 2% na pesquisa Datafolha. Uma parte desses votos pode migrar para Garcia, acreditam tucanos.