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André Santana

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Racismo recreativo no BBB: Chega de ter paciência com racistas

João Luiz, alvo de racismo no BBB21 - Reprodução/Globoplay
João Luiz, alvo de racismo no BBB21 Imagem: Reprodução/Globoplay
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

06/04/2021 13h33

É preciso parar com essa história de que pessoas negras precisam ter paciência com os racistas. Que as vítimas têm obrigação de ensinar a eles e de entender que agressões raciais são fruto da ignorância. Aceitar sempre que os racistas "não tinham intenção de ofender".

Até quando?

O comentário preconceituoso de cantor Rodolffo sobre o cabelo do professor João Luiz, que o agressor confirmou ao vivo, na edição de ontem (5) do #BBB21, revela a tranquilidade em exercer aquilo que é chamado de "racismo recreativo".

São discursos, pretensamente cômicos, que servem para hostilizar e menosprezar grupos.

A televisão brasileira é cheia dessas microagressões, que parecem divertidas, mas revelam o ódio racial e a não-aceitação da diversidade, o repúdio ao que foge do padrão eurocêntrico

O tema é explorado no livro do doutor em Direito pela Universidade de Harvard Adilson Moreira e integra a Coleção Feminismos Plurais.

Procure saber por que "não saber" não pode ser desculpa para racismo.

O racismo é crime no Brasil desde a Constituição de 1988.

Bem antes disso, os movimentos negros denunciaram a permanência de práticas racistas no país como causadoras da pobreza, da falta de oportunidades e da morte em massa da população negra.

Nas décadas de 1960 e 1970, movimentos pelos Direitos Civis, Panteras Negras, Black Power, os blocos afro da Bahia, entre outros, colocaram em destaque a autoestima do povo negro e a valorização estética, na qual o cabelo crespo é o grande símbolo de resistência.

Desde 2003, uma lei obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira em todos os níveis da educação.

Mal e porcamente, os meios de comunicação mostram casos de racismo e protestos antirracistas no Brasil e no mundo. O assassinato de George Floyd, em 2020, gerou uma onda que mobilizou a imprensa e personalidades públicas a também se manifestarem contra a violência racial.

Em que mundo estava Rodolffo enquanto tudo isso acontecia?

Somente o pacto da branquitude pode legitimar que, em 2021, uma pessoa se dê ao luxo de ser racista e justificar com o "não sabia", "não foi minha intenção". Aceitar esse tipo de desculpas é criar as condições para a manutenção do racismo e do genocídio negro.

O mesmo discurso que pede paciência com o racista, não oferece a menor empatia com as lágrimas de João, o alvo da agressão, xingado de "mimizento", de "vitimista". É a dupla violência que se abate sobre os corpos negros.

Racistas precisam ser constrangidos, freados e punidos por suas falas e práticas contra a dignidade da pessoa negra.

Parem de matar negros

A morte da pessoa negra por racismo começa no choro pela ofensa ao cabelo, ao nariz, à religião; prossegue pelas ausências de imagens positivas na televisão; nas cenas de violências brutais e gratuitas contra personagens negros nas telenovelas; na criminalização dos bairros negros no noticiário policialesco; e se concretiza na falta de políticas públicas de saúde e de alimentação ou na bala institucional dos agentes da segurança pública.

Não dá para tratar Rodolffo do #BBB21 como um personagem de novela que comete violências absurdas (ele já havia sido machista com Carla Diaz e homofóbico com Fiuk e Gil), justificadas pelas narrativas criadas por autores comprometidos com o pacto da branquitude.

Na novela, depois das maldades, o vilão, ou se regenera e é desculpado, ou se torna caricatura cômica da maldade. Nos dois casos, o público é levado a amá-lo.

Já as vítimas, ou morrem tragicamente em cenas que satisfazem o fetiche sádico da mentalidade racista brasileira ou nem mais são lembradas no desfecho da trama.

O racismo é um mal coletivo e estrutural que precisa ser enfrentado com políticas públicas, que envolvem educação, cultura e leis. Mas práticas individuais podem, sim, ser interrompidas por cada pessoa.

Quem não quer continuar sendo racista tem muitas possibilidades de não ser.

Basta buscar informação, não compartilhar piadas e comentários que ofendem, ter empatia com a dor de quem sofre preconceito e incentivar a denúncia.

Racismo não é entretenimento, nem "fogo no parquinho".

Racismo mata.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL