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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mortes após furto: Comprar carne é caro, abater corpos negros sai barato

Bruno e Ian sentados no pátio do supermercado ao lado dos quatro pacotes de carne furtados. Cada pacote custa em torno de R$ 188 - Reprodução/Redes Sociais
Bruno e Ian sentados no pátio do supermercado ao lado dos quatro pacotes de carne furtados. Cada pacote custa em torno de R$ 188 Imagem: Reprodução/Redes Sociais
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

04/05/2021 04h00

O assassinato de um tio e um sobrinho, após serem acusados de furto de pedaços de carne de um supermercado em Salvador, revela um Brasil à beira da barbárie.

A tragédia envolve miséria, desemprego, fome, poder paralelo, muita violência e racismo. Esses são os ingredientes de um caldeirão prestes a transbordar. Suas chamas já atingem de forma destruidora as famílias pretas e pobres.

Engana-se quem se acomoda em seus privilégios e se sente imune à tragédia social.

Os corpos de Ian Barros da Silva, 29, e Bruno Barros da Silva, 19, foram encontrados em 26 de abril no porta-malas de um carro abandonado na periferia da cidade, com sinais de tortura e marcas de tiros de diferentes armamentos.

Os assassinatos aconteceram horas depois de imagens circularem pelas redes sociais, mostrando os dois ao lado do possível produto do furto. A família acusa os seguranças do supermercado Atakadão Atakarejo, no bairro de Amaralina, orla da capital baiana, de terem entregue os dois para um grupo de traficantes, que os mataram.

A história bizarra envolve uma possível ligação para uma amiga feita por Bruno, solicitando o valor de R$ 700 que seria para pagar pela liberação dos dois rapazes. A família informou à imprensa que chegou a arrecadar parte do valor, mas que não houve tempo para impedir o duplo assassinato.

"Meu filho morreu com fome porque não teve coragem de me pedir comida", lamentava a dona de casa Dionésia Pereira Barros, mãe de Bruno, durante protesto realizado por familiares e entidades do movimento negro, cobrando Justiça.

Supermercado deve respostas à família e à sociedade

A polícia precisa investigar os crimes e o supermercado —as câmeras de segurança e funcionários podem contribuir na elucidação do caso.

O supermercado precisa responder quais os procedimentos exigidos aos funcionários da segurança do estabelecimento em caso de furto.

Também precisam informar como a apreensão dos dois cidadãos, feita pelos seguranças, tornou-se de conhecimento público, inclusive dos autores dos assassinatos.

"Por agir de acordo com a legislação vigente e atuar rigorosamente com as normas legais, o Atakadão Atakarejo está à disposição e colaborando com todas as informações necessárias para a investigação", limitou-se a dizer o supermercado por meio de nota.

A rede Atakadão Atakarejo possui 23 lojas espalhadas pela Bahia, de propriedade do empresário Teobaldo Luís da Costa, 66.

Filiado ao Democratas, mesmo partido do prefeito de Salvador, ACM Neto, Teobaldo disputou em 2020 a eleição para a Prefeitura de Lauro de Freitas, na região metropolitana da capital. Obteve 34,28%, perdendo para a petista Moema Gramacho.

Manifestante do Movimento Negro fazem protesto em supermercado - Lorena Ifé - Lorena Ifé
Mais uma crime racial em supermercado: movimento negro protesto contra o genocídio e pede Justiça (30/04/2021)
Imagem: Lorena Ifé

A família aguarda respostas.

É fundamental que a sociedade, especialmente os clientes do Atakadão Atakarejo, saiba quem de fato é responsável pela segurança do supermercado e se as medidas adotadas estão de acordo com a lei brasileira —que não prevê punição com tortura e muito menos pena de morte.

Já a tragédia atual do Brasil todos nós já conhecemos. Desemprego galopante atingindo mais de 14,4 milhões de brasileiros. A fome gritando nas panelas e pratos vazios de mais de 19 milhões de pessoas no país.

Comprar carne está difícil. Abater corpos negros parece não custar tanto.

A insegurança alimentar é o desespero de mais da metade dos moradores do Brasil —125,6 milhões de brasileiros —ou seja, 59,3% da população— não comem em quantidade e qualidade ideais desde a chegada do novo coronavírus.

Os dados são da pesquisa, divulgada em abril, "Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil", do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade Livre de Berlim.

Com os R$ 150 do auxílio emergencial do governo federal não é possível comprar nem metade de uma cesta básica no Atakadão Atakarejo, em Salvador. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o valor da cesta básica na capital baiana, em março, chegou a R$ 461,18. Nem juntando o auxílio de dois familiares é o suficiente para comprar o básico para alimentação e higiene.

Esse é o valor oferecido pelo governo negacionista de Jair Bolsonaro, cujo ministro da Economia, Paulo Guedes, não perde a oportunidade de demonstrar sua aversão aos pobres, colocando sobre eles a culpa pelos problemas econômicos que a sua pasta não consegue resolver.

O ministro rejeita que filhos de porteiros ousem a entrar na universidade para interromper o ciclo de fome, miséria e violência que atinge as famílias pobres e pretas brasileiras.

Na lógica genocida em que a nação está mergulhada, a carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra. Atingida pela fome, pela covid-19, pela bala institucional ou miliciana, restam poucas opções de esperança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL