PUBLICIDADE
Topo

André Santana

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Homenagem a Jagunço: Para líder do MST, repúdio virá em forma de ocupação

Governo Bolsonaro publica foto de homem armado para parabenizar pelo Dia do Agricultor - Reprodução/Twitter @secomvc
Governo Bolsonaro publica foto de homem armado para parabenizar pelo Dia do Agricultor Imagem: Reprodução/Twitter @secomvc
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

28/07/2021 14h10

Uma arma feita com os dedos polegar e indicador se tornou o símbolo da campanha presidencial de Jair Bolsonaro, repetida pelo então candidato e seus seguidores.

A defesa do armamento ocupou o poder executivo no Brasil e hoje deu mais uma demonstração pública da importância desta pauta para o governo.

Em referência ao Dia do Agricultor (28 de julho), a Secretaria de Comunicação do Governo Federal resolveu homenagear os profissionais que atuam no cultivo da terra com uma imagem de um homem com uma espingarda. Para o Governo Bolsonaro, nas mãos do agricultor é necessário, ao invés de enxada, arma.

MST repudia e promete ocupação de latifúndios

O agricultor João Paulo Rodrigues, integrante da Coordenação Nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), utilizou o twitter para repudiar a postagem do governo:

"Inacreditável que esse #BolsonaroNazista homenageia os agricultores com uma imagem de um jagunço! Nossos agricultores produz (sic) alimentos e não violência! O repúdio do @MST-Oficial virá em forma de ocupação do latifúndio. Queremos terra e paz para produzir comida para nosso povo!", ameaçou Rodrigues, sendo repostado pelo perfil do MST.

Atuante no movimento pelo direito à terra, o deputado federal (PT-BA), Valmir Assunção também reagiu à postagem:

"A imagem da agricultura do Governo Bolsonaro é a de um jagunço. O governo dos ruralistas assume que é o responsável pela violência no campo! Afinal, agricultor de verdade produz alimento, não violência! #ForaBolsonaro"

Questionado pela coluna, o deputado confirmou as acusações feitas via rede social:

"O governo Bolsonaro é responsável pela violência por priorizar os interesses do latifúndio, o mesmo que tem invadido territórios indígenas e quilombolas inspirado na proteção dada por órgãos como Funai e Incra.

Ao negligenciar políticas de reforma agrária, a tendência é piorar os conflitos no campo. Isso é inadmissível, e celebra essa 'política de extermínio' em uma ação de gestão. Essa imagem utilizada pelo governo é uma demonstração de qual lado Bolsonaro está".

Deputado federal Valmir Assunção, do PT da Bahia - Reprodução  - Reprodução
Deputado federal Valmir Assunção apoia ações do MST em resposta às provocações do governo e se diz indignado, mas não surpreso. "Essa imagem é uma demonstração de qual lado Bolsonaro está"
Imagem: Reprodução

O deputado também afirmou à coluna que o governo federal vetou um projeto, aprovado no Congresso no ano passado, que tentava minimizar os prejuízos causados no campo pela pandemia, com a liberação de linhas de créditos para a agricultura familiar.

Sobre a ameaça feita pelo líder do MST, o parlamentar demonstrou total apoio:

"Há mais de um ano e meio o MST não realiza ocupações em respeito aos protocolos exigidos por esse momento de pandemia, mas não há outro caminho do que lutar, lutar e lutar contra a fome, a carestia e as provocações e violências deste governo".

Conflitos por terra cresceram no Governo Bolsonaro

O jagunço é um personagem muito popular em narrativas de filmes e telenovelas brasileiras, representado como um funcionário de fazendeiros, que resolvem todos os problemas dos patrões, incluindo a eliminação de desafetos.

Quem conhece de perto essa realidade dos conflitos por terra no Brasil sabe bem o terror e a violência provocadas pelos jagunços, tendo como principais vítimas pequenos agricultores, comunidades indígenas e quilombolas.

Levantamento anual feito pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) da Igreja Católica mostra que o número de conflitos no campo no Brasil, que cresceu no Governo Bolsonaro, bateu recorde em 2020. Ao todo, foram registradas 2.054 ocorrências envolvendo quase 1 milhão de pessoas.

O número de conflitos é o maior desde que o levantamento começou a ser realizado em 1985. Uma alta de 32% em relação a 2018.

Em maio, UOL publicou reportagem completa sobre o tema. Levantamento aponta recorde de conflitos no campo no Brasil em 2020.

Lázaro Barbosa: maníaco ou jagunço?

O Brasil acompanhou os mais de 20 dias de buscas por Lázaro Barbosa, foragido após cometer inúmeros crimes, como invasões, estupros e mortes no Centro-Oeste.

O criminoso foi localizado e morto, mas as investigações continuam. Há suspeitas de que Lázaro agia a serviço de fazendeiros, comerciantes e políticos da região.

Tweet de João Paulo Rodrigues, líder do MST - Reprodução twitter - Reprodução twitter
Imagem: Reprodução twitter

Toda a crueldade cometida por Lázaro, que levou rapidamente a imprensa e autoridades policiais a nomearem o criminoso como um maníaco, pode ser parte das práticas violentas que frequentemente se repetem no Brasil a dentro, tendo como motivador a disputa por terras.

Aos invés de proteger a população da ação dos jagunços, o Governo Bolsonaro escolhe destacar essa figura como propaganda da política armamentista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL