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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nutricídio: como a fome e a insegurança alimentar afetam as famílias negras

Pele de frango vendida em supermercado a R$ 2,99 o quilo, em junho deste ano - Reprodução/Twitter
Pele de frango vendida em supermercado a R$ 2,99 o quilo, em junho deste ano Imagem: Reprodução/Twitter
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André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL Notícias

06/08/2022 04h00

O pedido de ajuda de uma criança à Polícia Militar de Minas Gerais porque a família estava passando fome, repercutido esta semana, é mais uma das tristes reações de desespero dos brasileiros diante da falta do que comer.

Já vimos imagens de pessoas disputando um caminhão de ossos, no Rio de Janeiro, e de um pai de família gritando por comida em meio a prédios residenciais em Brasília: "É fome, por favor, é fome!".

É a mesma agonia que levou o pequeno Miguel, de apenas 11 anos, a ligar para o 190 e pedir ajuda: "É por causa que aqui em casa não tem nada para gente comer e eu tô com fome", disse o menino ao agente que o atendeu.

A frase tem sido repetida por brasileiros em ruas, praças, embaixo de viadutos, em filas de doações, no transporte público e em loja do comércio, nas mais diversas cidades.

Bolsonaro promove o desmonte de políticas de segurança alimentar

O país que, apesar de ser um campeão mundial na produção de alimentos, historicamente convive com a desigualdade na distribuição de renda e de comida, nos últimos anos assiste ao crescimento do número de famintos: 33,1 milhões de brasileiros estão passando fome em 2022 e mais de 50% da população está em algum grau de insegurança alimentar. Ou seja, não possui acesso regular e permanente às refeições básicas.

São pessoas que não sabem quando terão na mesa alimentos de qualidade para um prato saudável e digno a um ser humano.

Inicialmente, os policiais mineiros suspeitaram que a ligação de Miguel se tratava de uma ocorrência de maus-tratos domésticos.

Era, sim, o flagrante de maus tratos de um país que não tem priorizado matar a fome do seu povo, garantido o direito à alimentação. Nem mesmo as crianças são protegidas desta violência.

Pelo contrário, o governo Bolsonaro vem sendo denunciado por promover, desde o início da gestão, o desmonte de políticas públicas essenciais para a distribuição de alimentos e combate à insegurança alimentar, como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), que integram o Sisan (Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional).

O uso eleitoreiro do Auxílio Brasil na tentativa de reeleição do presidente, que incluiu a extinção e substituição do programa Bolsa Família dos governos petistas, gerou muitas incertezas e medo de especialistas e ativistas que atuam diretamente com pessoas em situação de fome, conforme abordamos, mais de uma vez, aqui na coluna:

Alimentos fake confundem as prateleiras dos supermercados

A dificuldade em adquirir comida para alimentar a família atinge cada vez mais também as pessoas que trabalham ou possuem alguma renda.

São trabalhadores que precisam escolher entre comprar o almoço ou a janta. Pais e mães que só conseguem, minimamente, oferecer comida para os filhos e permanecem sem se alimentar.

Agnaldo Pereira - Acervo pessoal - Acervo pessoal
O nutricionista Agnaldo Pereira pesquisa na Universidade Federal da Bahia as contribuições alimentares afrocentradas que podem combater o nutricídio e a fome.
Imagem: Acervo pessoal

Nesta luta cotidiana contra a fome, alimentos mais saudáveis são substituídos por produtos de baixa qualidade nutricional e frutas e verduras dão lugar na mesa para processados oferecidos a menor custo pela indústria.

Além da venda de ossos de boi e peles de frango, a indústria da fome e a crise econômica fazem chegar aos supermercados subprodutos de menor nível nutricional que atendem à baixa capacidade de compra das famílias brasileiras.

Entre esses produtos fake está o soro de leite, composto de sobras da produção de laticínios encontrado à venda nas prateleiras como "composto lácteo" ou "pó para preparo de bebida sabor leite".

É um atentado à saúde da população cometido pela indústria alimentícia, com autorização do Estado brasileiro."
Agnaldo Pereira, nutricionista e pesquisador da Universidade Federal da Bahia

Pereira condena o que chama de mimetização de produtos convencionais, dos quais são retirados os benefícios nutricionais e acrescentados apenas resquícios de sabor. "Já se sabe que esse valor menor pago nesses produtos de baixo valor nutricional, no futuro, custará muito mais caro, com as consequências na saúde das pessoas."

Ele aponta que a falta de educação alimentar, unida à crise financeira, leva os brasileiros ao consumo de alimentos de baixa qualidade, como os ultraprocessados, com elevado índice de açúcar, sódio e gorduras trans e saturadas, prejudiciais à saúde.

"O consumo prolongado desses alimentos, com ausência de nutrientes essenciais, como as vitaminas e sais minerais, desencadeia doenças crônicas não transmissíveis, como a hipertensão e a diabetes".

Pereira cita estudos que indicam que pessoas negras são mais vulneráveis a estas doenças —as pesquisas mostram que a fome e as consequências da insegurança alimentar são mais graves em lares de famílias negras.

Por isso, pesquisadores como ele trabalham com o conceito de nutricídio, utilizado pelo médico e estudioso norte-americano Llaila O. Afrika, na década de 1990, para abordar o genocídio nutricional.

O nutricídio é o termo que entrelaça a saúde da população negra e as repercussões nutricionais de vulnerabilidade ocasionadas pelo racismo."
Agnaldo Pereira, nutricionista e pesquisador da Universidade Federal da Bahia

É genocídio porque as ameaças letais da fome e da insegurança alimentar atingem diretamente uma população específica, no caso, os negros na África ou em outros países espalhados pelo colonialismo e pela escravidão.

O nutricionista destaca que o nutricídio é percebido, além da ausência do alimento —ou seja, a fome propriamente dita—, também na dificuldade em manter uma alimentação balanceada e nutritiva, que contemple as necessidades fisiológicas de um ser humano.

Também é resultado dos chamados "desertos alimentares", regiões geograficamente distantes do acesso a alimentos naturais ou pouco processados, como feiras e mercados agrícolas, essenciais a uma alimentação saudável.

Em seu projeto de mestrado na Universidade Federal da Bahia, com o título "Dietoterapia Ancestral Afrocentrada", Pereira busca resgatar as contribuições alimentares de origem africana para diminuir as consequências do nutricídio na população negra.

"A população mais pobre e preta é a mais impactada em seu orçamento doméstico com as despesas com alimentação. Muitas dessas escolhas por alimentos ultraprocessados, de baixo valor nutricional e que mimetizam outros produtos, são estratégias de superar a escassez e enfrentar a carência econômicas. É preciso resgatar práticas ancestrais que garantiram a sobrevivência em meio ao colonialismo."

O que não podemos aceitar é que um país de rica diversidade natural, com elevada produção de alimentos, não consiga suprir as necessidades de comida da sua população e que crianças tenham a infância interrompida pelo desespero de não terem o que comer.