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A guerra da cloroquina: "Me respeite, senhor presidente", diz David Uip

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/04/2020 14h29

Antes da audiência com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na manhã desta quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro publicou várias mensagens nas redes sociais em defesa do uso da cloroquina, a sua grande obsessão e bandeira contra o Covid-19.

Num dos posts, ele se dirigiu diretamente ao infectologista David Uip, coordenador do combate à pandemia do governo paulista, sem citar o nome, como de costume, mas sem deixar dúvidas sobre o destinatário da mensagem. Nem precisava.

"Cada vez mais o uso da cloroquina se apresenta como algo eficaz. Dois renomados médicos do Brasil se recusam a divulgar o que os curou do Covid-19. Seriam questões políticas, já que um pertence à equipe do governador de SP?", escreveu o presidente.

Na entrevista coletiva diária do governo de São Paulo, David Uip dirigiu-se diretamente ao presidente para responder à cobrança de Bolsonaro:

"Senhor presidente, eu respeitei o seu direito de não revelar o diagnóstico nos testes do coronavírus. Respeite, por favor, também o meu direito à privacidade, para não falar sobre o meu tratamento. Minha privacidade foi invadida, a privacidade da minha clínica foi invadida. Vou tomar as providências legais adequadas contra essa invasão da minha privacidade e dos meus pacientes".

David Uip lembrou ainda que participou de uma reunião com o ministro Mandetta, na semana passada, sobre o uso da cloroquina, na qual deixou clara sua posição.

"Eu era o único infectologista na reunião e disse ao ministro que a cloroquina só deveria ser usada em pacientes internados, com acompanhamento médico, porque pode ter efeitos colaterais sobre pessoas com problemas cardíacos e hepáticos. Tem que tomar muito cuidado e pedir a autorização do paciente para ministrar esse remédio". Infectado pelo vírus, Uip não chegou a ser internado em hospital e cumpriu a quarentena em casa.

O outro médico renomado a quem o presidente se referiu é o cardiologista Roberto Kalil. Em entrevista a Mônica Bergamo, da Folha, o médico confirmou ter usado a cloroquina durante o seu tratamento contra o coronavírus.

No final da entrevista, o governador João Doria também se dirigiu ao presidente para lembrar que Bolsonaro veio buscar tratamento em São Paulo quando sofreu a facada, em Juiz de Fora, durante a campanha eleitoral.

Cada vez mais, a guerra da cloroquina deixa o campo da medicina para se transformar num ativo eleitoral, como a única garantia de cura recomendada por Bolsonaro, enquanto Doria e os outros governadores, o Ministério da Saúde, a OMS e o resto do mundo defendem o isolamento social, que é combatido pelo presidente.

Nem parece que o país já registra mais de 700 mortes e 14 mil infectados pela Covid-19. Bolsonaro se recusa a mudar de ideia.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho