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Horda nazifascista desfila em carreata da morte na véspera da Páscoa

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

12/04/2020 13h45Atualizada em 12/04/2020 21h18

Quem viu na internet as imagens macabras de uma horda nazifascista desfilando pelas ruas de São Paulo, na véspera da Páscoa, com seus carrões importados, caminhões novos e motos envenenadas, pode ter-se lembrado de filmes de época em branco e preto, que mostravam a tomada do poder na Alemanha dos anos 30 por um suboficial alucinado que queria declarar guerra ao mundo.

Enrolados na bandeira brasileira, os dementes não se vexaram em impedir a passagem de ambulâncias com as sirenes ligadas, na avenida Paulista, a região onde se concentram vários hospitais, lotados de vítimas da pandemia de coronavírus.

Guardando-se as devidas proporções, pois aqui o terror se misturava ao ridículo e ao grotesco, por algumas horas a maior cidade do país serviu de palco neste sábado a um dos espetáculos mais deprimentes já encenados pelos bolsominions em fúria, como se fossem soldados das SA (Sturmabteilung) e das SS (Schutzstaffel), as tropas de assalto nazistas.

Bradavam contra a China, a Globo e o governador paulista João Doria, os inimigos da hora. Para essa gente, somos todos, os que não aderimos à nova ordem miliciano-militar, um bando de judeus comunistas, que precisam ser varridos da terra santa do bolsonarismo.

Às margens do desfile de malucos que atravessou a cidade, gritando e buzinando, o povo bestificado não entendia o que estava acontecendo e os policiais a tudo apenas assistiam placidamente, sem intervir na desordem patriótica.

Em Águas Lindas, cidade próxima a Brasília, onde foi inspecionar o início das obras de um hospital de campanha, o líder dos devotos enfurecidos, um tenente que foi defenestrado do Exército e virou capitão, desafiava o seu ministro da Saúde e seguia caminhando solerte, sem máscara, cumprimentando e abraçando quem encontrava pela frente. .

Na cena mais patética do dia, antes de embarcar no helicóptero para voltar a Brasília, o presidente ainda em exercício ficou mais um tempão acenando para ninguém no descampado onde será montado o hospital.

Misturando filme de terror com chanchada, o líder de fancaria e seus devotos da política suicida de enfrentamento da pandemia com um remédio milagroso, orações e jejum, querem que nesta segunda-feira todos voltem às ruas e reabram suas lojas para levar uma "vida normal", enquanto se multiplicam nas estatísticas fúnebres os números de mortos e contaminados, no momento mais agudo da proliferação do coronavírus.

As embaixadas da Alemanha e de outros países europeus que enfrentaram os horrores da Segunda Guerra, e sabem o que pode acontecer aqui, já pediram que seus cidadãos deixem o Brasil o mais rapidamente possível.

E nós, que não temos para onde fugir, com nossas instituições em obsequioso silêncio, até quando vamos resistir, sem reagir, a essa escalada insana das SA e SS nativas, comandadas pelo "gabinete do ódio" do clã presidencial?

Vida que segue.

Errata: o texto foi atualizado
Versão anterior deste texto informou incorretamente a cidade visitada pelo presidente Jair Bolsonaro. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Balaio do Kotscho