PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaro dá cavalo de pau, rifa Moro para controlar PF e agradar o Centrão

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/04/2020 16h53Atualizada em 23/04/2020 19h47

Ao se reaproximar dos colegas do Centrão, o baixo clero que ele chamava de "velha política", de onde saiu direto para a Presidência da República, Bolsonaro teve que escolher entre Moro e uma base parlamentar capaz de impedir o seu impeachment.

A troca do diretor geral da PF, Maurício Valeixo, homem de confiança de Moro desde a Lava Jato, foi apenas um pretexto para se livrar do ministro da Justiça que atemoriza os seus novos sócios no poder.

Bolsonaro tinha vários motivos para bater de frente com Moro e Valeixo, nenhum deles republicano.

Desde o ano passado, o presidente queria ter o controle da Polícia Federal do Rio para proteger seus filhos, denunciados em várias ações na Justiça.

O que apressou a decisão de se livrar de Moro foi a abertura da investigação sobre os organizadores e financiadores dos atos golpistas da semana passada, que também pode chegar nos seus filhos.

Bolsonaro nunca entendeu que a Polícia Federal é uma instituição do Estado, não a serviço do presidente de turno.

Nunca se conformou que os subordinados de Moro e Valeixo nada tenham feito para confrontar o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio, que investigam as "rachadinhas " do gabinete de Flávio Bolsonaro, a fábrica de dinheiro de Queiroz e os mandantes da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, os esqueletos nos armários dos bolsonaros.

Em meio à crise da pandemia do coronavírus, Bolsonaro resolveu ele mesmo assumir o comando da Polícia Federal, por intermédio de alguém da sua estrita confiança, que possa abafar todos os casos pendentes envolvendo o clã presidencial..

Em português claro, é disso que se trata.

Não daria para conviver no mesmo governo com os cruzados heróis da luta contra a corrupção, que ajudaram a eleger Bolsonaro, e várias figuras que foram alvo de Moro quando ele era juiz da Lava Jato.

Por que ele resolveu trocar agora o diretor geral da PF, no auge da crise do coronavírus, algo que já tinha tentado várias vezes, sem êxito?

Na sua estratégia de confundir para embaralhar e mudar de assunto, Bolsonaro decidiu fazer strike e jogou todas as bolas de uma vez para agradar o Centrão e ao mesmo tempo assumir o comando da PF, livrando-se de Valeixo e Moro, e tirando a pandemia das manchetes.

O superministro Sergio Moro virou apenas um detalhe neste cavalo de pau do presidente, que só pensa em como sobreviver no cargo e, se possível, ser reeleito.

Cercado, de um lado, pelos filhos e, de outro, pelos generais de pijama, Bolsonaro quer mostrar que quem manda é ele e o resto que se dane.

No momento em que se encontra mais enfraquecido, quer dar uma demonstração de força ao defenestrar o superministro mais popular do governo.

No momento em que escrevo, os generais bombeiros ainda estão tentando reverter a situação, mas tanto Bolsonaro como Moro se mostram irredutíveis.

Parece que o presidente já fez a sua opção.

Sai Moro, entra Roberto Jefferson.

Ao que tudo indica, na escolha de sofia o capitão achou mais seguro se garantir com o Centrão e proteger os filhos.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho