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Quem quer o porto de Santos? Bolsonaro se agarra a militares e Centrão

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

27/04/2020 16h09

"Me ofereceram o porto de Santos e eu não vou aceitar, não vou para o governo uma hora dessas", disse Paulo Pereira da Silva (Solidariedade-SP) à Folha, em reportagem sobre a aproximação do presidente Jair Bolsonaro com o Centrão velho de guerra, que voltou a frequentar o Palácio do Planalto.

Se até ele, o popular Paulinho da Força, um expoente do que há de mais fisiológico na "velha política", está desdenhando de ofertas do governo, rejeitando o antigo feudo de Michel Temer, pode-se ter uma ideia da fragilidade da articulação política do Planalto para enfrentar a ameaça de um impeachment, cada vez mais real após a delação premiada de Sergio Moro.

Antes de descartar o então ministro da Justiça na semana passada, Bolsonaro cuidou de preparar a sua retaguarda na Câmara com esse grupo de deputados de aluguel, que já foi de Eduardo Cunha, depois seria herdado por Rodrigo Maia e agora estava órfão, solto no espaço.

Já passaram pelo balcão de cargos e emendas montado no Planalto lideranças de partidos como PP, PL, Republicanos, PSD, Solidariedade, MDB e DEM, que tinham em Moro um inimigo comum desde a Lava Jato.

Além do Porto de Santos, estão sendo oferecidos neste butim federal jóias da coroa como o Banco do Nordeste, Codevasf, Dnocs, Funasa, FNDE e outras siglas com altos orçamentos e centenas de cargos.

Uma pergunta que tenho ouvido muito é o que os generais palacianos estão achando desse cavalo de pau do presidente, que fez campanha contra a corrupção e criticava o loteamento do governo entre partidos.

Não tenho fontes militares, nem mesmo um simples tenente para me ajudar a responder à pergunta, mas devem estar achando bonito, diante do seu obsequioso silêncio.

Quando Bolsonaro resolveu entregar seu destino ao general Braga Netto, o "presidente executivo", mentor da aproximação com o Centrão e encarregado de coordenar um programa econômico de investimentos estatais para o pós-pandemia, o presidente sabia que estava mexendo num vespeiro.

Os dois movimentos batiam de frente com os superministros Moro, que não se veria confortável ao lado de donos de prontuários na Lava Jato, e Paulo Guedes, o seu Posto Ipiranga, que andava desaparecido no auge da crise sanitária.

Nesta segunda-feira, logo cedo, quando eram cada vez mais fortes o rumores de que o ministro da Economia estava prestes a jogar a toalha, Bolsonaro o chamou ao Palácio da Alvorada.

Na saída do encontro, falando aos jornalistas pela primeira vez desde a demissão de Moro, o presidente encheu a bola de Guedes, garantindo que ele continua mandando na economia.

Depois de perder os lavajatistas de Moro, Bolsonaro não poderia correr o risco de perder o outro pau da barraca, que ainda lhe garante algum apoio de empresários.

Como Braga Netto não estava nessa reunião do Alvorada, ainda não se sabe como vai reagir à ciranda arriscada do presidente para se manter na cadeira.

Paulo Guedes já detonou esse Pró-Brasil do general, um conjunto de meia dúzia de folhas de power-point, apelidado pela equipe econômica de PAC-3, o plano de aceleração do crescimento de Dilma Rousseff que a acompanhou no ocaso do seu governo.

Bolsonaro vai ter que ser mágico para conciliar no mesmo governo duas visões de país tão antagônicas.

Nada parece impossível para quem agora se segura numa estranha aliança entre militares e o Centrão, o que não orna a participação das Forças Armadas no governo do capitão encurralado por crises em todas as áreas.

Até o começo da tarde, a demora para definir a nomeação dos amigos dos filhos para o no Ministério da Justiça e a Polícia Federal era outro sintoma da dificuldade crescente para o presidente impor as suas vontades.

Para tornar ainda mais dramático o cenário político nesse começo de semana, aliados de Bolsonaro temem que o Supremo Tribunal Federal determine a prisão de um dos seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, apontado nas investigações da Polícia Federal como chefe do "gabinete do ódio", que dispara fake news contra adversários políticos e ministros do STF.

O que falta ainda? Com esse governo, nunca se sabe. A cada dia, sua agonia.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho