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PF do Rio vira Gestapo de Bolsonaro: Operação Placebo é o batom na cueca

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

26/05/2020 13h29

Está explicado por que Bolsonaro queria tanto fazer uma intervenção na Polícia Federal do Rio, nem que para isso tivesse de fritar e rifar o ex-superministro Moro.

Não era só para se proteger e aos seus filhos e amigos de perigosas investigações sobre rachadinhas, laranjas e ligações com a milícia carioca que assassinou Marielle Franco e Anderson Gomes.

Como toda polícia política, a Gestapo de Bolsonaro deveria também atacar seus inimigos, como deixou claro na reunião pró armamentismo do dia 22 de abril.

No topo da lista, sempre esteve o governador Wilson Witzel, um ex-aliado na campanha eleitoral de 2018 que levou a extrema-direita ao poder.

Na mesma reunião ministerial, a Damares do Jesus na goiabeira já tinha falado que era preciso prender governadores e prefeitos não alinhados ao governo federal.

Em entrevista à rádio Gaúcha, na véspera da Operação Placebo, deflagrada nesta terça-feira, para fazer buscas e apreensões no Palácio das Laranjeiras, residência oficial de Witzel, a deputada Carla Zambelli, nova eminência parda do governo, já havia anunciado:

"A gente já teve algumas operações da PF que estavam na agulha para sair, mas não saiam (...) Mas já tem alguns governadores sendo investigados pela PF".

Rápido no gatilho, o novo superintendente da PF no Rio, Tácio Muzzi, nomeado nesta segunda-feira, nem esperou esquentar a cadeira para cumprir as ordens do chefão da Gestapo, que acumula as funções de presidente da República.

Logo cedo, seus homens apreenderam celulares e computadores nas Laranjeiras, no Palácio Guanabara, e na casa de Witzel, no Grajaú, alem de vasculhar o escritório de advocacia da primeira-dama.

A operação para apurar corrupção na instalação de hospitais de campanha ainda nem havia terminado e Bolsonaro já estava comemorando com os devotos no cercadinho do Alvorada.

"Parabéns para Polícia Federal", disparou todo sorridente, quando foi questionado sobre o que aconteceu no Rio.

Como se não tivesse nada com isso, foi logo dizendo que tinha acabado de ser informado sobre a operação contra Witzel.

Era mais uma mentira, claro,

Na semana passada, ele antecipara para a youtuber Bárbara Destefani o que estava sendo preparado para pegar o governador fluminense.

"Já começou a estourar acusações (sic) da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Dando minha opinião, porque eu nunca procurei saber inquéritos (sic) na Polícia Federal. Acho que tem metástase: vai pegar um Estado vizinho e mais gente pelo Brasil, tá? É isso que tá parecendo".

Em seu linguajar trôpego, o presidente fingiu que estava dando apenas uma opinião sobre o que iria acontecer nesta semana. O Estado vizinho de quem ele fala só pode ser o de outro inimigo declarado, o governador paulista João Doria

Ao se livrar de Moro, chamar Doria de "bosta" e Witzel de "estrume", na mesma reunião, Bolsonaro estava querendo afastar de uma vez três possíveis concorrentes na sua campanha pela reeleição, que já começou, e ocupa todo o seu tempo útil.

Com a retaguarda protegida pelo delegado Tácio Muzzi, escolhido a dedo para comandar a Gestapo bolsonariana no Rio, o presidente vai partir para cima de quem se colocar no seu caminho, rumo ao golpe que agora vem a galope. A turma do general Heleno nas Agulhas Negras já fala até em "guerra civil".

Se o procurador-geral Augusto Arras ainda tinha alguma dúvida de que Bolsonaro tentava interferir politicamente nas investigações da Polícia Federal, como denunciou o ex-ministro Moro, a Operação Placebo é o batom na cueca.

Foi só trocar o ministro da Justiça, o delegado geral e o superintendente da PF no Rio para o presidente não só interferir, mas comandar as operações daqui para frente.

Ou alguém vai acreditar que tudo foi apenas uma coincidência?

Se a PF encontrar o que está procurando nas casas de Witzel, será um escândalo de bom tamanho, que já derrubou a cúpula da Secretaria de Saúde do Estado e pode atingir o governador no esquema de fraudes na compra de respiradores durante a instalação dos hospitais de campanha.

Aí ninguém mais vai falar do show de horrores da reunião de 22 de abril, nos rolos de Flávio Bolsonaro, na aquisição dos deputados do Centrão, no desmazelo do Ministério da Saúde militarizado, no sumiço do Queiroz, no pedido de apreensão do celular do presidente, que está nas mãos de Aras.

Pelo menos, é o que espera o governo em sua nova escalada autoritária com o cerco a Wilson Witzel, que era candidato dele mesmo a presidente.

Por falar nele, sempre ele, é caso de se perguntar ao general Heleno, o guardião do Planalto, se a apreensão do celular do governador também pode gerar uma "crise institucional" com desdobramentos imprevisíveis.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho