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Síndico dos síndicos de condomínios, Bolsonaro libera festas e despejos

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

12/06/2020 15h24

"Eu vou chamar o síndico/Tim Maia, Tim Maia!" (refrão da música "Chama o síndico", de Jorge Ben Jor, que fez a musica em homenagem ao amigo de personalidade forte que tentava por ordem em tudo e xingando quem fosse preciso).

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Sem ter muito o que fazer, depois de lotear o governo entre generais de pijama e probos patriotas do Centrão, o presidente Jair Bolsonaro agora resolveu assumir o papel de síndico dos síndicos.

Numa tuitada matutina, no melhor estilo Trump, ele anunciou nesta quinta-feira ter vetado oito artigos do projeto de lei aprovado no Congresso que cria um regime jurídico emergencial durante a pandemia do coronavírus.

Em sua campanha contra o isolamento social, ele vetou o artigo que permitia aos síndicos dos condomínios restringir o uso de áreas comuns e proibir festas.

Agora, está tudo liberado, enquanto o país bate recordes de mortos e doentes no pico da contaminação pelo vírus.

Com os shoppings, mercados, praias e feiras livres lotados de gente, pancadões de som e forrós, tudo é festa. A vida já voltou ao "normal".

Bolsonaro venceu, os governadores perdem. Daqui a 15 dias, saberemos o resultado.

Para comemorar, o presidente até mandou seus devotos invadirem os hospitais para filmar leitos vazios.

Em defesa da tradição, família e propriedade, no mesmo tuíte Bolsonaro vetou também o artigo que impedia a concessão de liminar em ações de despejo durante a pandemia. Para ele, a pandemia já acabou, é tudo invenção da imprensa.

De braços dados com o Centrão, ele acha que agora pode tudo. Mas, nesta sexta-feira, sofreu uma duro revés: Davi Alcolumbre, seu aliado na presidência do Senado, mandou devolver ao Planalto a medida provisória que liberava Abraham Weintraub para nomear reitores do seu gosto para as universidades federais. Pode-se imaginar que tipo de gente o ministro da Educação iria nomear como interventores.

Outro aliado, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já tinha avisado que a medida seria derrubada pelo plenário por ser inconstitucional.

Não tem jeito. Bolsonaro vai testando todos os limites da institucionalidade, provocando os outros poderes e agitando as massas.

Ao mesmo tempo, tentou adotar o estilo "Jairzinho paz e amor", para melhorar a sua imagem, mas o novo figurino não sobreviveu à primeira semana. O instinto belicoso é mais forte do que ele.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho