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Por que Bolsonaro, um presidente morto-vivo, não pede para sair?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

19/06/2020 16h53

Na semana em que o cerco policial e judicial se fechou em torno dos Bolsonaros, um leitor me pergunta, singelamente: por que Bolsonaro não pede para sair?

Eu também gostaria de saber o que um morto-vivo, rejeitado pela maioria da população, com medo de viajar pelo próprio país para ver o povo morrendo nos hospitais, ainda quer fazer na presidência da República.

Morto-vivo, segundo o pai dos burros que eu consultei, é "um indivíduo com aspecto de moribundo, apático, sem ânimo ou capacidade de reação". É o retrato de Bolsonaro.

Ainda faltam dois anos e meio para esta agonia acabar, mas a cara e o comportamento de Bolsonaro na "live" da noite de quinta-feira mostraram que ele mesmo não aguenta mais fazer esse papel de presidente. Como ele mesmo já disse, não nasceu para isso.

Deu até pena de vê-lo, desta vez sentado sozinho em meio à grande mesa palaciana atulhada de papéis, sem nenhum áulico por perto, acompanhado apenas de Elisângela, a fiel tradutora de libras.

Com uma jaqueta esportiva tipo motoqueiro, os braços agitados, pondo e tirando os óculos, cabelos caindo sobre a testa, como aquele outro de triste lembrança, Bolsonaro parecia estar com pressa para sair logo dali.

O que todo mundo queria saber, e ele sabia, era o que tinha a dizer sobre a prisão do amigo do peito Fabrício Queiroz, depois de passar o dia todo em silêncio, mas o presidente em estado terminal passou pelo assunto rapidamente, como gato pisando sobre brasas.

Disse que não era advogado de Queiroz, que não tinha nada a ver com isso e, sem ninguém lhe perguntar, justificou que o amigo, coitado, estava naquela casa porque era perto do hospital onde estava se tratando de um câncer, mais uma mentira. Só faltou perguntar: Queiroz? De que Queiroz vocês estão falando?

Como não fala mais com jornalistas, não precisou explicar o fato do amigo ter sido preso justamente na casa do advogado da família Bolsonaro, o "Anjo", e o Ministério Público do Rio ter acusado o filho Flávio de "liderar uma organização criminosa em seu gabinete", quando era deputado estadual no Rio.

As tais "rachadinhas", como sabemos, são uma besteira perto das relações incestuosas do clã com as milícias cariocas lotadas em seus antigos gabinetes. É isso que atemoriza os Bolsonaros.

"Para mim, esse assunto Queiroz está encerrado", decretou o presidente, e passou a falar de "coisas boas" por intermináveis 20 minutos de pura enrolação burocrática, lendo as anotações colocadas sobre a mesa pelos assessores. .

Tanto o assunto não está encerrado, que nesta sexta-feira, pelo segundo dia seguido, Bolsonaro passou direto pelo portão do Alvorada, sem parar para falar com a turma amiga dos devotos do "cercadinho".

Não bastasse a prisão do seu homem-bomba, assim que chegou ao Planalto, Bolsonaro ficou sabendo que hoje o Brasil já passou de 1 milhão de doentes contaminados pelo coronavírus, aproximando-se dos 50 mil mortos pela pandemia. E o que eu tenho a ver com isso?

No seu gabinete de crise, no Palácio do Planalto _ qual delas?, seria o caso de perguntar _ os generais só procuravam uma saída para salvar o que resta de desgoverno.

Segundo meu colega Igor Gielow, da Folha, a ideia que surgiu foi a de montar um "ministério de notáveis", como fez Fernando Collor, nos estertores do seu governo, antes de ser impichado, em 1992.

Só que agora a situação do presidente é muito mais dramática: qual "notável", em qualquer área, a esta altura do campeonato, aceitaria entrar para o ministério moribundo de Bolsonaro? Nem o PSDB, sempre solícito, aceitaria.

O último a ser defenestrado foi o alucinado ministro da Educação, Abraham Weintraub, que só pediu "um abracinho" e um carguinho de 1 milhão de dólares por ano no Banco Mundial.

Vai passar para a história destes tempos a foto do abraço constrangido e envergonhado de Bolsonaro, olhando para o nada, diante do ex-ministro emocionado por ter sido demitido, que só faltou lhe dar um beijo.

Pensando bem, Bolsonaro poderia fazer como Weintraub, que deixou para a posteridade este último tuíte como ministro, às 8h58 de hoje:

"Aviso à trigada e aos gatos angorás (gov bem docinho). Estou saindo do Brasil o mais rápido possível (poucos dias). NÃO QUERO BRIGAR! Quero ficar quieto, me deixem em paz, porém, não me provoquem!"

Isto é uma ameaça? Quem ainda está querendo brigar com ele ou provocar este completo idiota, que saiu do anonimato e a ele voltará, depois de destruir o Ministério da Educação, assim como seu chefe está fazendo com o Brasil?

Se não aguenta mais ser presidente, e ama o Brasil, acima de tudo, o ex-capitão poderia acompanhar seu ex-ministro e fazer o favor de pedir para sair, para evitar mais mortes e desgraças.

Ninguém quer brigar com ele. Queremos apenas salvar a democracia.

Vida que segue.

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Balaio do Kotscho