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Perdeu, capitão: milícias reais e virtuais assombram o governo zumbi

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/06/2020 17h00

Organização criminosa: essas duas palavras, que acompanham as investigações sobre as milícias reais e virtuais envolvendo os Bolsonaros, transformaram o presidente num zumbi.

Sem saber por onde começar a apagar os incêndios que o cercam, o ex-capitão vaga como uma assombração entre os palácios do Alvorada e do Planalto, fugindo da imprensa desde a prisão de Queiroz.

A organização montada durante a campanha eleitoral e levada para o governo, agora é chamada de criminosa, tanto pelo ministro Alexandre de Moraes, no inquérito sobre as milícias virtuais, como pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, nas investigações que apuram, entre outros crimes, a ligação de Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz com as milícias reais de Rio das Pedras.

Como é que Bolsonaro vai arrumar tempo para governar o país, em meio à maior crise sanitária da história, se para onde ele olha só vê fantasmas, reais ou virtuais, que ameaçam a família e a continuidade do seu governo?

É por isso que seus seguidores pediam o fechamento do Judiciário e do Congresso para fazer "uma intervenção militar com Bolsonaro no poder": ele simplesmente não consegue governar com os limites impostos pela Constituição.

Não haverá intervenção militar. O presidente terá que se virar sozinho, sem a menor chance de um autogolpe, para se defender nos muitos processos que correm contra ele nos tribunais superiores.

Com o Congresso, ele não precisa se preocupar, depois da aquisição de votos do Centrão, em troca de cargos e verbas gordas, e diante da inapetência do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que hoje voltou a falar sobre as "reformas de Guedes" e um "pacto entre Poderes", sentado em cima de quase 50 pedidos de impeachment. O problema de Bolsonaro é com a Justiça.

Ninguém ameaçará impunemente e por muito tempo as instituições democráticas e o Estado de Direito.

Aliados de primeira hora, muitos fardados e civis já estão pulando do barco furado, navegando rumo ao iceberg, que Bolsonaro já antevia na reunião de 22 de abril, quando falou das hemorroidas. .

Ficaram pelo caminho ministros, generais, advogados, empresários amigos e assessores abandonados à beira da estrada, com muitos esqueletos guardados no armário, que agora ameaçam sair a qualquer momento, à medida em que as investigações avançam.

Os valentões das milícias sociais, que ameaçavam Deus e o mundo para defender Bolsonaro, também já estão tirando o time. Parece que os robôs se cansaram de dar murro em faca. Sumiram até aqui do Balaio.

Desde maio, quando o cerco começou a se fechar, já tiraram mais de 3 mil vídeos das redes sociais, mas muitos escaparam e estão fichados no inquérito conduzido por Alexandre de Moraes.

Só hoje o ministro tirou o sigilo das investigações e proibiu que fossem apagados.

E Queiroz ainda não abriu o bico, mais preocupado com as operações policiais e do MP do Rio e de Minas, que estão no encalço da sua mulher, Márcia Oliveira Aguiar, foragida desde a semana passada.

Funcionários fantasmas, laranjas, rachadinhas, uso ilegal de verbas parlamentares, relação com milícias, mortes ainda não esclarecidas, advogados fanfarrões, quadrilhas de bandidos fardados _ tudo isso, que faz a gênese do poder dos Bolsonaros, do Rio para Brasília, de repente vem à luz do dia e já não dá mais para esconder.

"Um golpe que passa do delírio à farsa", resumiu hoje o Globo, em editorial de página inteira, uma verdadeira declaração de guerra ao que resta do bolsonarismo.

Com apenas um ano e meio deste desgoverno de dementes, que veio para destruir o país, o cenário é de fim de festa, só esperando a polícia chegar para acabar de vez com esse furdunço institucional.

Perdeu, capitão.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho