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Agora é oficial: Rio abre a temporada da esbórnia, sem máscara

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/07/2020 19h59

Um a um, prefeitos e governadores foram cedendo à pressão dos comerciantes e autorizaram a reabertura de bares e restaurantes pelo país afora, como queria Bolsonaro, desde o início.

A temporada da esbórnia foi aberta na noite de quinta-feira, no Rio, em grande estilo.

Imagens, que correram o mundo, mostram um verdadeiro carnaval fora de época no Baixo Leblon, em Copacabana e em bairros da zona oeste, todo mundo sem máscara, copos na mão, confraternizando como nos velhos tempos, ignorando o perigo e debochando da pandemia.

Nenhum "protocolo", essa palavrinha mágica, foi respeitado depois da segunda cerveja, com grupos de gente amontoada nas calçadas e bares lotados, como se o coronavírus já tivesse ido embora sem deixar saudade.

Com aquela solenidade de quem ajudou a escrever os dez mandamentos, o prefeito-pastor Marcelo Crivella prometeu uma "força-tarefa" de fiscalização, depois da ressaca da véspera, quando os guardas municipais ficaram só olhando, como se estivessem participando da festa.

A folia tomou conta da rua Dias Ferreira, o epicentro da grande farra, onde garçons e carros tinham que pedir licença para passar.

Aconteceu o esperado, depois de mais de 100 dias de um isolamento social meia boca.

Para não ficar atrás, São Paulo também resolveu liberar o funcionamento de bares e restaurantes a partir de segunda-feira.

Vice-campeão de mortos e contaminados, atrás apenas dos Estados Unidos de Trump, o Brasil deve ser o único país do mundo que resolveu "flexibilizar" a quarentena justamente no auge da pandemia, que ainda atinge largas regiões do país.

Bolsonaristas comemoraram a alforria no Leblon gritando "Brasil acima de tudo", mas a celebração foi suprapartidária e ecumênica, juntando todos os credos, tribos e times de futebol.

"Mas na Europa também não foi assim e você achou bonito?", provocarão os bots que frequentam esse espaço, lembrando a coluna de ontem.

Só que lá reabriram aos poucos o comércio e as praias, com regras rígidas, quando a pandemia já estava controlada.

Não foi o que aconteceu em vários estados americanos, que também se precipitaram, e agora estão sendo obrigados a fechar tudo de novo.

Daqui a alguns dias vamos saber o resultado da irresponsabilidade das autoridades e do distinto público, que não se importam com a própria vida, muito menos com a dos outros.

"Morra quem morrer", como já proclamou aquele prefeito de Itabuna, na Bahia, que também resolveu mandar abrir tudo, como se fosse um Odorico Paraguaçu redivivo.

É o que pensa também o agora manso presidente, que não acredita nesse negócio de pandemia.

Para dar sua contribuição à esbórnia, Bolsonaro vetou 17 dispositivos do projeto de lei aprovado dia 9 de junho no Congresso, que torna obrigatório o uso de máscaras em lugares públicos.

Entre eles, o que determinava o uso de máscaras em igrejas, comércios e escolas.

Também vetou as multas para quem desobedecer a lei, ou seja, só cumpre quem é bobo, não é mesmo?

Ao justificar os vetos, o presidente alegou uma "possível violação de domicílio, o que é contra a Constituição".

Maravilha. Desde quando igreja, comércio e escola são domicílios? Sempre achei que fossem lugares públicos, mas hoje em dia tudo é muito relativo, no país em que fake news virou "liberdade de expressão".

Eu também gostaria de estar a essa hora tomando minha cervejinha com os amigos no boteco da esquina, ouvindo as histórias do seu Zezinho, o cearense boa gente que deve estar sentindo a nossa falta.

Mas, como ainda acredito mais nos médicos do que nas autoridades constituídas, fico recolhido aqui no meu canto, vendo a vida pela televisão.

Velho, gordo e fumante, estou no grupo de alto risco, e espero sobreviver a esse pandemônio, mistura de pandemia com demônio, ignorância e má-fé, tudo junto e misturado.

A cada dia desta semana, morreram mais de mil brasileiros de Covid -19.

Bom final de semana.

Vida que segue.

Entre outros,

Balaio do Kotscho