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Não basta só o silêncio de Bolsonaro. Tem que tirar a caneta e o celular

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/07/2020 17h31

Desde a prisão de Queiroz e o cerco da Justiça à família, o sempre falante presidente Bolsonaro recolheu-se a um obsequioso silêncio, uma sábia providência pela qual o país só tem a agradecer.

Mas só isso não basta. Para a tranquilidade geral da nação assolada por várias crises, seria necessário que os generais do Palácio do Planalto também recolham a caneta e o celular do capitão.

Agora, com a quarentena compulsória imposta pelo coronavírus, que o obriga a passar duas semanas sem sair do Palácio da Alvorada, o perigo está no celular e na companhia dos beligerantes filhos.

Na manhã desta quarta-feira, logo cedo, Bolsonaro já danou a disparar tuítes em série, completamente fora da realidade terrestre.

Como se vivesse numa ilha da fantasia, ele escreveu:

"O nosso governo atendeu a todos com recursos e meios necessários. Mais ainda, criamos meios para preservar empregos e auxiliamos com 5 parcelas de R$ 600,00 um universo de 60 milhões de informais/"invisíveis".

Entre os "todos" a que ele se refere, não estão incluídas as populações índígenas e guilombolas, as mais vulneráveis nesses tempos de pandemia do coronavírus.

Pois na mesma hora em que ele tuitava, ficamos sabendo pelo "Diário Oficial da União" que Bolsonaro vetou o texto aprovado pelo Congresso, que obriga o governo a fornecer água potável, comida, produtos de higiene e leitos hospitalares aos índios.

Para justificar o veto, feito um burocrata qualquer, o presidente simplesmente alegou que não poderia fazer novas "despesas", não previstas no orçamento, como se o país não vivesse tempos de urgência em estado de calamidade pública.

Desde o dia 16 de junho, o texto estava pronto para ser sancionado, mas Bolsonaro vetou nada menos do que 14 trechos, assim como já havia feito com o projeto de lei do uso obrigatório de máscaras aprovado pelo Congresso.

Com tempo livre para devaneios, o presidente teve a coragem de fazer este inacreditável balanço da gestão do governo na pandemia:

"Nenhum país do mundo fez como o Brasil. Preservamos vidas e empregos sem propagar o pânico, que também leva a depressão e mortes. Sempre disse que o combate ao vírus não poderia ter um efeito colateral pior que o próprio vírus."

Efeito colateral pior do que o vírus é o provocado pela cloroquina receitada pelo dr. Bolsonaro. No dia seguinte ao resultado positivo do exame, ele já estava lépido, vendendo saúde, graças ao "remédio milagroso".

Sergio Camargo, o sabujo-mor do bolsonarismo, que preside a Fundação Palmares, acha que o chefe até deveria cobrar cachê pela propaganda que faz do remédio.

Em que mundo paralelo o presidente preservou "vidas e empregos"?

No Brasil, com o desemprego galopante e quase 70 mil óbitos, a caminho de chegar a 2 miljhões de contaminados, certamente que não é.

Quando terminar sua quarentena, e voltar à realidade, Bolsonaro vai encontrar um país destroçado, com a economia em frangalhos, sem nenhum plano de voo para o pós-pandemia.

Enquanto isso, o exterminador do futuro Ricardo Salles vai "passando a boiada".

Depois que arrombaram a porteira da Amazônia, botaram fogo na floresta e desmontaram os órgãos de fiscalização e proteção aos índios, não tem volta. Para que gastar dinheiro com água e comida?

Uma coisa não se pode negar a Bolsonaro: ele está cumprindo tudo o que prometeu. Se fosse americano, seria chamado de serial killer.

Caneta e celular nas mãos dele podem ser armas perigosas.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho