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A morte do meu amigo POC: lembranças do diplomata que honrou o Itamaraty

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

10/07/2020 17h10

Na manhã desta sexta-feira, recebi a notícia da morte do diplomata Paulo César de Oliveira Campos, o POC, aos 67 anos.

Deixei de lado os assuntos sobre os quais pretendia escrever nesta coluna, sempre os mesmos, e geralmente muito desagradáveis nos últimos tempos, para prestar uma singela homenagem a este amigo do peito, um ser humano da melhor qualidade, que honrou o Itamaraty por onde passou, qualquer que fosse o governo.

"Fala com o POC", a sigla do chefe do cerimonial do primeiro governo Lula, sempre que aparecia um problema e a gente não sabia o que fazer.

Discreto, objetivo, sem frescuras, sempre atento a tudo o que se passava nas viagens internacionais do presidente, profundo conhecedor do seu ofício, POC era o nosso guia seguro nas conversas de Lula com os principais líderes mundiais da época.

Éramos quatro os que sempre acompanhavam Lula nas viagens pelo Brasil e pelo mundo: POC, o general Gonçalves Dias, chefe da segurança, Ricardo Stuckert, o fotógrafo oficial, e eu, secretário de imprensa.

A gente sacaneava muito um ao outro nas cansativas agendas que não deixavam tempo nem para ir ao banheiro.

POC era muito duro no cumprimento dos protocolos da diplomacia, algo que não era fácil com um presidente indisciplinado como Lula e seus assessores, que nunca tinham trabalhado em governo, como eu.

Como o general Dias era muito lhano no trato com as pessoas, cheguei sugerir que os dois trocassem de função.

Aí resolvi sacanear o POC, sempre bravo com os repórteres que cobriam a presidência.

Certa vez, a repórter Zileide Silva, da Globo de Brasília, veio me perguntar sobre o roteiro de uma viagem que o presidente faria no exterior.

"Fala com o POC, que ele tem todas informações. Mas tem que falar alto com ele porque o POC é meio surdo".

Zileide falou alto com ele, o POC não entendeu nada, e eu fiquei de longe, só para ver a reação dele.

No dia seguinte, durante uma cerimônia no Palácio do Planalto, dei um toque no POC, quando cheguei perto do general Dias, que na época era apenas coronel.

Dei-lhe um tapão na careca, Dias levou o maior susto, botou a mão na cintura e me alertou:

"Seu moleque, você poderia ter levado um tiro..."

Não me aguentei e lhe respondi, falando sério:

"Coronel, me desculpe, mas eu não poderia deixar de fazer isso, a ditadura acabou..."

Ele riu. E somos amigos até hoje.

O general deve ter ficado muito triste com a morte do POC porque eles eram unha e carne, cada um no seu papel.

Governo, qualquer governo, é um ambiente muito tenso, sempre encarando alguma crise, e se a gente não faz isso não aguenta.

Mas também tem suas compensações, como quando fizemos uma escala não programada, para abastecimento do avião em Kiev, na Ucrânia, em viagem à China.

Informado da nossa escala, às seis da manhã, o presidente do país mandou convidar a comitiva do Lula para um café da manhã no palácio.

Já estava todo mundo meio morto da longa viagem, mas só POC não reclamou.

"Vocês vão ver o que nos espera..."

De fato, o governo ucraniano nos ofereceu um café da manhã que nunca vou esquecer na vida.

POC conhecia o seu homólogo, o chefe do cerimonial do governo da Ucrânia, e na nossa mesa fomos servidos como príncipes.

Champanhe, peixes defumados, caviar à vontade, foi uma festa.

Difícil foi nos acordar, cansados e quebrados, quando chegamos à China.

Fomos salvos pelo Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo, que fazia parte da comitiva e nos indicou uma casa de massagistas cegos.

Era uma coisa estranha, porque a massagem foi feita só apertando os pés, de modo cada vez mais forte, o que me fazia gritar de dor.

Quanto mais me doía o aperto das mãos do massagista, mais ele sorria. Foi mais de uma hora nesse suplício.

O intérprete me explicou o que estava acontecendo:

"É que cada vez que ele acerta o ponto da dor que você sente no teu corpo, ele fica feliz".

POC também só dava risada, sem nenhuma compaixão.

Saí de lá levitando, sem sentir dor nenhuma,

À noite, diante do magnífico banquete de mil pratos exóticos oferecido pelo governo chinês, até comi cérebro de macaco, e achei bom.

Fazia muito tempo que não me encontrava com o amigo POC para lembrar dessas histórias.

Depois de passar pelas embaixadas do Brasil em Washington, Tóquio (duas vezes), Bonn e Londres, antes de trabalhar no governo Lula, POC foi nomeado embaixador em Madri, e depois em Paris.

Assim que assumiu o governo e nomeou o terraplanista Ernesto Araújo para destruir o Itamaraty, disposto a mudar a política externa do país, Bolsonaro transferiu POC da embaixada de Paris para o consulado em São Francisco, na Califórnia.

Depois de uma longa batalha contra o câncer de pulmão, logo ele que não fumava, como eu, morreu hoje em São Paulo, onde veio se tratar no Hospital Albert Einstein.

Vou sentir muito a falta desse amigo, que não via há muito tempo, embora ele tenha me convidado muitas vezes para visitá-lo em Madri e Paris.

Fico te devendo essa, meu bom amigo.

Olhando em volta, tenho cada vez menos amigos de verdade como POC, Dias e Stuckhinha, os dois que também não vejo há tanto tempo.

Foi um tempo bom que vivemos juntos, quando o Brasil era mais feliz, mais respeitado no mundo inteiro, e a gente ainda podia brincar um com o outro, mesmo trabalhando no governo.

POC foi um diplomata que honrou o Itamaraty, hoje tão vilipendiado. Eu sou testemunha disso.

Vida que segue.

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Balaio do Kotscho