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Anonimato nas redes sociais para defender governo é covardia

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

13/07/2020 14h32

"Uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade leva o mesmo tempo para calçar os sapatos" (Mark Twain)

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Nos quase 12 anos em que este Balaio está no ar, eu me habituei a receber numa boa as críticas dos internautas, mesmo as mais severas, sobre os textos que escrevo. Não reclamo, é jogo jogado, como diz o Elio Gaspari.

"Quem está na chuva é para se queimar", como já ensinava o filósofo corintiano Vicente Matheus. "Todo mundo vai pegar chuva", completa o estadista capitão Bolsonaro.

Nos primeiros tempos do blog, este espaço era palco de debates acalorados entre internautas petistas e tucanos, o Fla-Flu de antigamente.

Não havia moderação. Quando me vi obrigado a delatar os comentários mais ofensivos contra terceiros, alguns internautas chegaram a criar um blog alternativo no Google, chamado "Boteco do Balaio", onde eles podiam se xingar à vontade.

Conforme o assunto, muitas vezes o blog recebia mais de 500 mensagens, às vezes passava de 1.000 e chegou a bater nos 2.000 comentários diários. Eu lia todos e respondia a alguns.

Passava o dia no computador, mas não me queixava. A internet estava cumprindo seu papel, no qual todos eram, ao mesmo tempo, emissores e receptores de informações e opiniões.

Não havia mais donos da verdade nem formadores de opinião. Era algo essencialmente democrático. Todo mundo batia e apanhava.

No espaço aberto, todos podiam entrar sem pedir licença, apenas se identificando.

Do ano passado para cá, notei que as coisas mudaram. Os comentaristas não tinham mais nomes, mas apenas codinomes, apelidos, siglas, senhas, apelidos.

Passou a ser difícil manter um diálogo civilizado.

Como você vai se dirigir a alguém que se identifica, por exemplo, como "rg4gjkhk486r" ou "sapinhocururu"?

Recolhi aleatoriamente algumas das identificações desses internautas, que frequentam também outros blogs e colunas do UOL:

"Radar da hora", "sempre verde nunca maduro", "wil Brazil", "Palmeirense de Prudente", "pkrupins", "Tricolino", "Yared", "precopi", "visitante", "malícula", "dialético", "3xxw14fvhb2z", "Uaitrembão", "corintiano sempre mais", e por aí vai.

Qualquer que seja o assunto, eles entram na área de comentários para me esculhambar e defender o governo Bolsonaro, centrando seus ataques no fato de eu ter 72 anos e ainda continuar trabalhando, e por ter sido Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, nos anos 2003 e 2004, no primeiro governo Lula, como consta do meu perfil no blog.

Aos que não sabem, informo que outros jornalistas ocuparam esta função, como Alexandre Garcia, no governo do general João Figueiredo, que se aposentou na Globo, e Carlos Castello Branco, o grande Castelinho, que faria 100 anos este mês, considerado o mestre do colunismo político nos anos de chumbo. Castelinho, aliás, foi homenageado por mim quando eu estava no governo, dando o nome dele à sala de redação da SID.

Não posso mudar minha idade e minha biografia profissional para agradar a quem não tem coragem de colocar seu nome nos comentários que escreve, e se esconde num covarde anonimato. Exerci com correção e dedicação uma função pública, pela qual fui condecorado pelo Exército, Marinha e Aeronáutica.

Agora que estão debatendo a Lei das Fake News no Congresso e investigando no STF a fábrica oficial de desinformação e difamação, no momento em que o Facebook estoura o bunker das 88 contas falsas da esgotosfera bolsonarista sediada no Palácio do Planalto, poderiam também investigar quem forma e banca essa rede de anônimos, especializados em atacar jornalistas profissionais nos portais de notícias.

São comentários tão cretinos que nem merecem resposta.

Há muito mais sujeira do que se pensa nas redes subterrâneas de algoritmos a serviço do assassinato de reputações dos que não se alinham ao governo de turno.

"Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados", na perfeita definição de Millôr Fernandes.

É uma luta desigual, porque eu assino e me responsabilizo por tudo o que escrevo, enquanto a rede anônima não respeita sequer um texto, como aquele que escrevi homenageando um amigo diplomata, que morreu no sábado.

Por que essa gente tem tanto medo de se identificar? Por que não se pede o nome completo de quem escreve nas redes sociais?

Seria uma boa forma de combater as fake news e a baixaria, que nada tem a ver com "liberdade de expressão". É crime, que deveria ser capitulado no Código Penal.

Vida que segue.

Uma vez por ano, no dia 11 de setembro, a gente fazia um encontro presencial para comemorar o aniversário do Balaio em algum boteco, quando o mundo virtual se tornava real, e todos podiam tirar suas diferenças ao vivo.

A grande diferença é que naquela época todos tinham nome e sobrenome e muitos botavam sua cara nos comentários.

Balaio do Kotscho