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Balaio do Kotscho

"Menina compactuou com o estupro". Quem diz isso é um padre

O padre Ramiro José Perotto, de Carlinda (MT) - Reprodução
O padre Ramiro José Perotto, de Carlinda (MT) Imagem: Reprodução
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/08/2020 16h34

Quando a gente pensa que já viu de tudo e não é capaz de se espantar com mais nada, eis que leio no portal G1 uma notícia estarrecedora sobre o caso da menina de 10 anos, estuprada e engravidada por um tio, que foi chamada de "assassina" na porta do hospital, por fazer um aborto autorizado pela Justiça para salvar a sua vida.

Na cidade de Carlinda, a 744 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso, vive um padre que teve a coragem de escrever a seguinte mensagem nas redes sociais:

"Você acredita que a menina é inocente? Acredita em Papel Noel também. Por quatro anos, não disse nada. Claro que estava gostando. Ela compactuou com tudo e agora é menina inocente. Gosta de dar, então que assuma as consequências".

Dá para acreditar que um ser humano seja capaz de escrever uma desumanidade dessas, ainda mais em se tratando de um religioso?

Pois o padre Ramiro José Perotto, a milhares de quilômetros de onde se deram os fatos desta tragédia humana, se sentiu no direito de vilipendiar a imagem de uma criança sem mãe, que morreu, e sem pai, que está preso, criada pelos avós em São Mateus, no Espírito Santo.

"Àqueles que se sentiram ofendidos, só resta meu pedido de perdão", publicou no dia seguinte. Em seguida, excluiu sua conta das redes sociais, relata a reportagem de Pollyana Araújo, que deveria sair na primeira página do jornal.

Antes, o padre havia compartilhado a nota do presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo, que qualificou o aborto da menina de "crime hediondo", equiparando-o à violência sexual do estupro.

O padre e o bispo podem dizer o que é pecado, segundo as leis da Igreja, mas não cabe a eles julgar o que é crime, algo que só cabe à Justiça, nem colocar a culpa na vítima.

"Vai se tratar, seu doente... Deus não poupará você, seu herege", respondeu o padre a um fiel que ousou criticá-lo e o chamou de hipócrita: "Obrigar uma criança vítima de estupro a seguir com a gravidez é repugnante".

Herege, senhor padre, é quem não sente compaixão e piedade pelo sofrimento de uma menina indefesa, que corria risco de vida e só queria ficar com seus bichos de pelúcia e voltar a jogar futebol.

Ao justificar a exclusão da sua conta na rede social, padre Perotto ainda escreveu: "Excluí meu Facebook por não querer mais ofender e ser ofendido. Precisamos ser fraternos. Sempre preguei isso. Lutemos pela vida, ela é dom de Deus".

Se esse é o seu jeito de ser fraterno e lutar pela vida, cuidem-se os pobres moradores de Carlinda, lá nos confins do Mato Grosso.

Assim dá para entender por que a Igreja Católica no Brasil, desconectada da realidade e apegada a velhos dogmas, perde cada vez mais fiéis para os pastores do dízimo, nivelando-se a eles no fundamentalismo religioso.

Esse padre e o presidente da CNBB deveriam ler a matéria de capa da revista Veja desta semana que publica uma pesquisa do Instituto Locomotiva, mostrando que 66% dos brasileiros são favoráveis ao aborto em caso de estupro.

Ah, se o papa Francisco soubesse o que estão fazendo com a sua igreja por aqui...

Bom fim de semana gelado a todos.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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