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Balaio do Kotscho

A prisão de Steve Bannon, o guru do guru dos Bolsonaros

Steve Bannon - ALESSANDRO BIANCHI
Steve Bannon Imagem: ALESSANDRO BIANCHI
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

20/08/2020 14h19

A chamada "ala ideológica" do governo, liderada pelos filhos e pelo guru Olavo de Carvalho, e a extrema direita mundial sofreram um sério baque na manhã desta quinta-feira.

Foi preso nos Estados Unidos o super-guru Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, acusado de fraude numa campanha virtual de doações destinada a erguer um muro na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes.

Bannon estreitou laços com os Bolsonaros na campanha presidencial de 2018, quando foi considerado o guru do guru oficial da família, aquele astrólogo, ideólogo e autodenominado "filósofo" Olavo de Carvalho, que mora na Virgínia, nos Estados Unidos, onde é caçador de ursos nas horas vagas.

No célebre jantar de confraternização oferecido pela embaixada brasileira em Washington, no dia 17 de março de 2019, que reuniu a fina flor da extrema direta americana em torno de Jair Bolsonaro, no primeiro compromisso da sua primeira viagem oficial aos Estados Unidos, o presidente se sentou entre os gurus Steve Bannon e Olavo Carvalho.

Sete ministros acompanhavam Bolsonaro. Entre eles, Paulo Guedes, que se dirigiu a Olavo de Carvalho chamando-o de "líder da nossa revolução".

Em seu discurso, Bolsonaro disse que "o nosso Brasil caminhava para o socialismo, para o comunismo", e atribuiu sua eleição "à vontade de Deus".

Por isso, explicou o recém-eleito presidente, era preciso destruir primeiro tudo o que existia antes, para só depois começar a construir um novo país.

Aguarda-se ainda a execução da segunda etapa do projeto.

"Sorocabannon"

Quem apresentou Steve Bannon à família foi o assessor Filipe Martins, expoente da "ala ideológica", que articulou o primeiro encontro do estrategista com Eduardo Bolsonaro, em agosto de 2018. Isso lhe valeu o apelido de "Sorocabannon", por ter nascido em Sorocaba, no interior paulista.

Em novembro do mesmo ano, no aniversário de Bannon, Eduardo chamou o americano de "ícone no combate ao marxismo cultural", papel exercido no Brasil pelo ex-ministro Abraham Weintraub.

Apontado como um dos responsáveis pela vitória de Donald Trump, em 2016, por ter montado a milícia virtual de combate a Hillary Clinton, Bannon tornou-se estrategista-chefe do governo, de onde foi demitido seis meses depois, por ter exagerado na dose de reacionarismo e xenofobia, até para os padrões do presidente americano.

Foi este know-how que Bannon transferiu para a campanha presidencial no Brasil e o plebiscito do Brexit, no Reino Unido, o que o tornou uma referência da extrema direita mundial.

Além da vaquinha virtual batizada de "Nós Construímos o Muro", que levantou US$ 25 milhões e agora o levou à prisão, por ter desviado dinheiro para pagar suas despesas pessoais, Steve Bannon criou um projeto chamado "O Movimento", para unir líderes populistas conservadores, e nomeou Eduardo Bolsonaro para ser seu representante no Brasil.

Segundo os procuradores federais de Nova York, o guru Bannon teria desviado mais de US$ 1 milhão das doações para uma entidade "sem fins lucrativos", e embolsado o dinheiro. Pode agora pegar até 20 anos de prisão. A justiça americana não brinca em serviço.

Voltas que a vida dá

Olavo de Carvalho também costumava fazer vaquinhas virtuais para pagar seus advogados e tratamentos de saúde, mas esta semana a página foi tirada do ar.

Assim como Bolsonaro em sua campanha no Brasil, Bannon dizia que seu objetivo era "lutar contra a classe política tradicional", aqui chamada de "velha política".

Nas voltas que a vida dá, o ex-capitão acabou adquirindo recentemente o apoio do Centrão no Congresso, para salvar seu governo, justamente aquela turma homenageada durante a campanha, quando o general Heleno, outro guru presidencial, cantava o refrão no palanque:

"Se gritar pega ladrão, não sobra um, meu irmão".

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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