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Balaio do Kotscho

O que pensaria Mário Covas sobre a eleição em São Paulo?

Bruno Covas (à esquerda) ainda criança com o avô, Mário Covas - Divulgação
Bruno Covas (à esquerda) ainda criança com o avô, Mário Covas Imagem: Divulgação
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

27/11/2020 17h43

Mário Covas era meu amigo. Ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, avô de Bruno Covas, era um legítimo social-democrata, um político de esquerda, que combateu a ditadura militar desde o primeiro momento e liderou a dissidência do antigo PMDB, que deu origem ao PSDB, por razões éticas.

Convivemos por mais de 40 anos nas muitas lutas pela redemocratização do país, onde Covas sempre esteve presente. Ele não era de ficar em cima do muro.

Foi o candidato do PSDB a presidente da República, em 1989, quando ficou em quarto lugar, e cortou pela raiz as negociações de alguns caciques do partido para entrar no governo do vitorioso Fernando Collor. Bateu na mesa, ameaçou sair do partido, e venceu a parada.

Chamavam-no de "Espanhol" pelo seu jeitão impetuoso, que certa vez o levou a enfrentar de peito aberto, abrindo caminho, uma barreira de professores grevistas em frente à Secretaria de Educação, na praça da República.

Não alisava com os subordinados, que cortavam um doze nas mãos dele, mas sempre foi muito cordial com os adversários.

Qualquer comparação com seu neto é covardia. Não tem nada a ver.

Covas (avô) foi cotado para suceder FHC

Covas morreu antes de ver o PSDB dominado pelo grupo do governador João Doria, do qual o neto faz parte, que se aliou nas eleições presidenciais a Bolsonaro e hoje faz parte da base informal do presidente no Congresso.

É inimaginável que isso pudesse acontecer com Mário Covas vivo.

A última vez que o entrevistei foi no programa Roda Viva, em agosto de 2000, quando ele estava no segundo mandato de governador, e seu nome era cogitado no partido para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso, também tucano.

Covas tinha acabado de sair de uma delicada operação de câncer na bexiga e negou várias vezes aos repórteres da bancada que pudesse ser mais uma vez candidato a presidente. Estava dando por finda sua participação em disputas políticas.

"Entrou na parada, toca pra frente"

Perguntei-lhe se estava arrependido de ter disputado a reeleição, já que se mostrava inconformado com os rumos do país.

"Não, não é que eu me arrependi. Na vida, a gente se arrepende do que não fez, não do que faz. Entrou na parada, toca pra frente".

Resolvi insistir no assunto, mas não teve jeito:

"O senhor ainda vai se arrepender de não ser candidato a presidente..."

"Eu não tenho do que me arrepender. Se eu lhe contar o que esse governo já fez..." (referindo-se ao segundo mandato).

Em 2018, numa entrevista à Record TV, Fernando Henrique Cardoso lembrou desse período: "Mário Covas seria meu sucessor natural".

Sonho de menino

Serra, depois Alckmin, Serra outra vez e, por fim, Aécio Neves acabaram sendo os candidatos tucanos derrotados em quatro eleições presidenciais seguidas.

Dias antes de tomar posse, em março de 2018, fui entrevistar Bruno Covas para a Folha.

O quadro do avô estava na parede atrás da mesa no gabinete, como se prestasse atenção na conversa.

"Quase prefeito de SP, Bruno Covas prevê gestão menos liberal que Doria", foi o título do jornal. "Tucano diz que prevê um governo social-democrata mais para o de Mário Covas".

Perguntei-lhe qual era o sonho de menino de Bruno Covas Lopes?

"Eu sempre tive o sonho de ser prefeito de São Paulo", respondeu na lata.

"Você já era, Ricardinho"

Nascido em Santos (SP), Bruno veio para São Paulo, com 16 anos, morar com o avô no Palácio dos Bandeirantes. Era a melhor escola que ele poderia encontrar para realizar seu sonho.

Mas, fora as pirotecnias do antecessor, o jovem prefeito acabou mantendo na prefeitura a mesma aliança de João Doria, com partidos de direita que o seu avô combatia, e tocou o expediente, sem deixar nenhuma marca própria, a não ser a polêmica reforma do Vale do Anhangabaú.

Na entrevista, Bruno contou que gostava de acompanhar o avô nos mutirões de casas populares, nos fins de semana, uma iniciativa também adotada por Luiza Erundina, mas abandonada nas administrações seguintes.

Como já vimos em tantos outros casos, a vocação política não é hereditária, o tempo não volta.

Mário Covas Neto, tio de Bruno, por exemplo, não conseguiu se reeleger vereador em São Paulo este ano. Teve apenas 10 mil votos.

Saudades do Brasil do velho Mário Covas, que tinha fama de mal-humorado, mas não perdia a piada.

"Foi furado pela filha... Você já era, Ricardinho...", ele mandou ver quando me viu com cara de tacho, depois de anunciar que seria candidato à reeleição, em entrevista exclusiva para minha filha Mariana, que era da TV Globo. Na época, eu era diretor local da TV Bandeirantes, que é vizinho do Palácio do Bandeirantes, e insistia com ele para ser o primeiro a dar a noticia. .

Não me conformo até hoje. Respondendo à pergunta do título: acho que Mário Covas não gostaria de ver o que está acontecendo nesta campanha eleitoral da pandemia, sem participação popular. Iria achar tudo muito chato. Ele gostava de um palanque e uma boa briga.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.