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Balaio do Kotscho

Por que tanta ansiedade, tanta pressa agora, general Pazuello?

Dia D e hora H: depois de muitas voltas, cá estamos esperando pela vacinação - Divulgação/Ministério da Saúde
Dia D e hora H: depois de muitas voltas, cá estamos esperando pela vacinação Imagem: Divulgação/Ministério da Saúde
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

13/01/2021 17h05

Outro dia, o general Eduardo Pazuello, lotado no Ministério da Saúde, resolveu debochar de quem lhe perguntava sobre o início da vacinação.

"Por que essa ansiedade, essa pressa toda?".

Na segunda-feira, em Manaus, o ministro finalmente marcou uma data: "Vai ser no Dia D, na Hora H".

Hoje, ele escolheu o Dia D e o local do início da vacinação: dia 19 de janeiro, uma terça-feira, no Palácio do Planalto. Só falta marcar a Hora H.

A cerimônia prevê a aplicação da vacina num idoso e em profissional da saúde, e já tem até slogan pronto: "Brasil imunizado, somos uma só nação".

Depois de sabotar as vacinas o quanto pode (ver mais abaixo), Bolsonaro agora quer porque quer ser o primeirão na corrida disputada com o governador João Doria, que marcou no ano passado o início da campanha de imunização em São Paulo para o dia 25 de janeiro.

Foi aí que alguém mais lúcido no Planalto lembrou as reiteradas declarações do presidente de que não tomará a vacina de jeito nenhum. Ficaria estranho se agora Bolsonaro comandar uma festa para a vacina em pleno palácio, com Hino Nacional e tudo. O que diriam seus milhões de seguidores antivacina?

Outro detalhe é que o governo federal até hoje sequer tem vacinas em estoque para aplicar.

Por isso, o fiel tarefeiro Pazuello foi encarregado de arrumar as vacinas às pressas, qualquer uma, de qualquer jeito, nem que tenha de buscá-las na Índia, onde o imunizante da Oxford, no Brasil sob cuidados da Fiocruz, também é produzido.

Um avião da FAB ficou dias de prontidão para cumprir a missão, mas agora foi montada correndo uma operação de emergência com aparelhos comerciais fretados que são mais rápidos.

As últimas informações de Brasília dão conta de que as vacinas de Oxford deverão chegar "nos próximos dias".

Por enquanto, o Brasil só conta com as 10,8 milhões de doses da CoronaVac, a "vacina chinesa" do Doria, produzida em parceria do Instituto Butantan com o laboratório Sinovac, da China.

Quando viu que não tinha outro jeito, Pazuello assinou às pressas um contrato para a compra de todas as doses produzidas pelo Butantan, mas apesar disso o presidente Bolsonaro resolveu ironizar a eficácia global da CoronaVac, anunciada ontem, depois de o governo paulista fazer uma lambança na comunicação dos resultados, informando diferentes índices desde a semana passada.

"Essa de 50% é boa?", caçoou ele ao ser questionado por um devoto no portão do Alvorada sobre o índice de 50,38% de eficácia global, anunciado na véspera pelo Butantan, depois de falar em 78% na quinta-feira.

"Agora estão vendo a verdade... O que eu apanhei por causa disso... Estou há quatro meses apanhando por causa da vacina. Entre eu e a vacina, tem a Anvisa. Não sou irresponsável".

Doria respondeu logo em seguida:

"Lamentável a declaração do presidente Bolsonaro sobre a vacina do Butantan. Ao invés de comemorar o fato de o Brasil ter um imunizante seguro e eficaz para combater a pandemia, ele ironiza a vacina. Enquanto brasileiros perdem vidas e empregos, Bolsonaro brinca de ser presidente".

A Anvisa deve anunciar no domingo sua decisão sobre os pedidos para o uso emergencial das vacinas apresentados pelo Butantan/Sinovac e pela Oxford/Fiocruz.

Na terça-feira, a Human Rights Watch divulgou a nova edição do relatório anual sobre a situação dos Direitos Humanos em mais de 100 países, no qual o Brasil não aparece bonito na fotografia.

Segundo o relatório de 761 páginas, o presidente Bolsonaro "tentou sabotar os esforços para desacelerar a disseminação da covid-19 no Brasil em 2020 e tomou medidas que prejudicam diretamente os Direitos Humanos".

A organização afirma que Bolsonaro minimizou a doença, chamando-a de "gripezinha", e disseminou informações incorretas, entre outras violações aos Direitos Humanos no combate à pandemia.

O Brasil deve ser o único país do mundo civilizado onde a luta pela vacinação para salvar vidas provocou uma guerra política federativa, que ainda está longe de acabar, tendo como pano de fundo as eleições presidenciais de 2022.

Enquanto isso, mais de 200 mil brasileiros já morreram e mais 8 milhões foram contaminados pelo coronavírus, que deve estar rindo de nós.

Se as vacinas da Índia não chegarem a tempo, só restará ao governo central recorrer às prateleiras do Instituto Buntatan, em São Paulo, para finalmente dar início ao programa nacional de vacinação.

O que importa agora é que as vacinas, venham de onde vierem, cheguem aos nossos braços. Nem que a gente tenha de levar seringa e agulha.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.