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Balaio do Kotscho

"Ter 6 milhões de doses de vacina na prateleira e não usar é doloroso"

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

11/01/2021 12h53

De tudo o que Dimas Covas, o diretor do Butantan, falou em mais de 50 minutos de entrevista ao vivo a mim e ao repórter Nathan Lopes, do UOL, na manhã desta segunda-feira, teve uma frase que me marcou muito.

Num país onde morrem mais de mil pessoas por dia vítimas de coronavírus, doutor Dimas lamentou que tenha mais de 6 milhões de doses de vacina prontas para serem aplicadas, empilhadas nas prateleiras do Butantan, só esperando que o Ministério da Saúde decida logo o que vai fazer com elas e quando começará a vacinação.

Quem vai se responsabilizar por estas mortes que poderiam ser evitadas há tempos?

Em outubro, o Ministério da Saúde chegou a fazer um acordo com o Butantan para a compra de 46 milhões de vacinas, mas o presidente Jair Bolsonaro desautorizou seu general ministro e no dia seguinte cancelar tudo porque não queria saber da "vacina chinesa do Doria".

De lá para cá, chegamos a mais de 200 mil mortos, o governo federal enfim resolveu comprar 100 milhões de vacinas da Coronavac para salvar a sua própria pele, mas começamos mais uma semana na incerteza porque hoje o ministro da Saude resolveu fazer uma visita a Manaus para inaugurar oficialmente 10 leitos de UTI e adiou para amanhã a reunião com governadores para discutir o Plano Nacional de Imunização.

Já não deveríamos mais estar discutindo nada, nem fazendo reuniões, mas aplicando vacinas, como estão fazendo mais de 50 países pelo mundo, alguns já oferecendo a segunda dose do imunizante.

Eu só quero ser vacinado, o mais breve possível

Mais do que uma entrevista, a conversa com esse médico que dedicou todo seu tempo nos últimos meses a desenvolver a vacina, em parceria com o laboratório chinês Sinovac, nos deu uma lição de vida, contando como enfrentou a "guerra das vacinas", sem nunca perder a calma, mesmo nos momentos mais dramáticos, quando a Anvisa mandou suspender os testes porque tinha morrido um voluntário (como se soube depois, ele tinha se suicidado, nada tinha a ver com a vacina) Bolsonaro chegou a comemorar a morte em sua campanha antivacina.

Vale a pena ver a integra desse depoimento de um humanista, que bota fé na ciência e recomenda a vacina da educação, para combater o vírus da ignorância, do negacionismo e da burrice.

Trata-se, acima de tudo, de um grande ser humano, que gostaria de aplicar a primeira vacina em sua mãe, e se emociona ao revelar isso.

Aconteça o que acontecer, daqui para a frente, Dimas Tadeu Covas é o grande vencedor dessa inominável "guerra da vacina" que inferniza a vida dos brasileiros e mata cada vez mais gente.

Daqui a cem anos, quando se pesquisar sobre o Brasil de 2021 certamente falarão dele e não dos que boicotaram até onde puderam a vacinação da população brasileira.

A vida não é feita só de política, números e estatísticas, mas de sentimentos e emoções. Roberto Carlos que o diga...

Apesar de tudo, não devemos nunca perder a dimensão humana dos acontecimentos que marcam nossa época, como a descoberta destas vacinas.

Eu só quero ser vacinado, o mais breve possível. O resto é o resto.

Vida que segue.

Errata: o texto foi atualizado
O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou no UOL Entrevista que a instituição possui 6 milhões de vacinas contra covid-19 em estoque, e não 6 mil. A frase foi corrigida.