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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Flávio compra mansão de R$ 6 milhões e só Queiroz continua preso em casa

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/03/2021 16h26

Nunca mais se falou no coitado do Fabrício Queiroz, o ex-PM que era uma espécie de faz-tudo dos Bolsonaros e tomava conta do esquema das "rachadinhas", a origem do respeitável patrimônio imobiliário da família presidencial.

Lembram-se dele? Queiroz era o operador que recolhia parte do salário de funcionários fantasmas do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio.

Com a coleta mensal, ele pagava despesas pessoais do filho do presidente, que agora acaba de comprar uma mansão de R$ 6 milhões em área nobre de Brasília, o seu vigésimo imóvel adquirido nos últimos 16 anos (a maior parte com dinheiro vivo).

Por coincidência ou não, este é exatamente o mesmo valor investigado pelo Ministério Público do Rio, que denunciou o hoje senador Flávio Bolsonaro, em novembro do ano passado, por comandar uma organização criminosa com o dinheiro das "rachadinhas".

Na semana passada, às vésperas de o Superior Tribunal de Justiça anular as quebras de sigilo bancário e fiscal da investigação do MP do Rio, Flávio fechou o negócio, pagando uma entrada de R$ 3 milhões e financiando o restante em 360 meses no Banco Regional de Brasília (BRB), com taxas de juros de pai para filho.

Segundo nota divulgada hoje pela assessoria do senador, a casa foi adquirida com "recursos próprios, em especial oriundos da venda de imóvel no Rio de Janeiro, tudo registrado em escritura pública. Qualquer coisa além disso é pura especulação ou desinformação por parte de alguns veículos de comunicação".

O fato de a escritura ter sido registrada em Brazlândia, a 45 quilômetros do Plano Piloto de Brasília, é mero detalhe.

O problema maior é que as contas não fecham. Em 2018, quando se candidatou a senador, Flávio declarou um patrimônio total de R$ 1,7 milhão. Mesmo que tivesse vendido tudo, não teria como pagar a entrada, quase no dobro desse valor.

Com um salário líquido de R$ 25 mil no Senado (a mulher trabalha como dentista), Flávio não teria como conseguir um financiamento no valor de R$ 3,1 milhões, a ser pago em 30 anos, que exigiria do banco uma renda líquida mínima de R$ 46,8 mil. O gerente foi camarada com ele.

O presidente do BRB é o executivo Paulo Henrique, um dos nomes cotados para assumir o Banco do Brasil. Na mesma tarde de segunda-feira, quando o site "O Antagonista" divulgou a notícia sobre a compra da mansão, o julgamento de dois recursos da defesa de Flávio Bolsonaro, para enterrar de vez as investigações sobre as "rachadinhas", foram retirados da pauta de hoje da Quinta Turma do STF.

Melhor esperar baixar a poeira causada pelo novo negócio milionário do primogênito do presidente, que causou um certo incomodo na ala militar do Palácio do Planalto, no momento em que o governo regateia para conceder um auxílio emergencial de R$ 250 (um quarto do salário mínimo) a alguns milhões de desempregados famintos.

E o Queiroz, que deu início a esta história em dezembro de 2018, logo após a eleição de Bolsonaro, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) divulgou relatório sobre movimentações atípicas no valor de R$ 1,2 milhão na conta bancária do ex-policial, motorista e segurança de Flávio, e amigo de Jair Bolsonaro há mais de 30 anos? Por onde andará?

Queiroz - Evandro Cardoso Reprodução/GloboNews - Evandro Cardoso Reprodução/GloboNews
13.jul.2020 - Fabrício Queiroz na varanda de seu apartamento no Rio onde cumpre prisão domiciliar
Imagem: Evandro Cardoso Reprodução/GloboNews

Sem atender às convocações do Ministério Público para prestar depoimento, Queiroz se refugiou primeiro na favela de Rio das Pedras, área dominada pelas milícias, e só seria preso em junho de 2020, quando estava homiziado na chácara de Frederic Wassef, advogado da família Bolsonaro, em Atibaia, no interior de São Paulo.

Passou poucos dias na cadeia e ganhou o benefício de prisão domiciliar, por causa da pandemia, obrigado apenas a usar tornozeleira, no seu modesto apartamento no bairro da Taquara, na zona oeste do Rio.

Ao mesmo tempo, invocando a prerrogativa de parlamentar, Flávio Bolsonaro recusou-se a prestar depoimento ao MP e solicitou a suspensão das investigações ao STF, pedido prontamente atendido pelo ministro Luiz Fux, que estava de plantão.

De lá para cá, com o aparelhamento da PF pelo presidente e do MP do Rio, que afastou os promotores do Gaeco das investigações sobre o "Caso Queiroz", Flávio colheu seguidas vitórias nas várias instâncias da Justiça e achou tempo para se dedicar a procurar uma confortável morada em Brasília.

Sem falar no mau gosto do caixote branco com vidraças espelhadas verdes, e da decoração cafona, o filho do presidente não tem do que reclamar.

A nova morada tem uma bela piscina, suíte com hidromassagem, espaços amplos, em 1.100 metros quadrados de área construída, num terreno de 2.500 metros quadrados, no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul de Brasília.

Mais de mil quilômetros separam os dois domicílios, do operador e do receptor das "rachadinhas", assim como os diferentes tratamentos dados a eles pela Justiça, mas Queiroz, de tornozeleira eletrônica e tudo, continua firme e forte lá na Taquara, mantendo o pacto de silêncio sobre as "rachadinhas", para livrar a cara do antigo chefe.

Só ele poderia esclarecer como um ficou tão rico e o outro continua em prisão domiciliar, vendo o mundo pobre do subúrbio da sua pequena varanda.

Mas isso nunca vai acontecer. Afinal, estamos no Brasil dos Bolsonaros, com a familícia acima de tudo.

Mais fácil é Queiroz ser libertado em breve.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL