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Balaio do Kotscho

Com o país em colapso sanitário, Bolsonaro culpa imprensa e o PIB desaba

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/03/2021 19h55

Por onde começar?

São tantas as boçalidades, absurdos, dramas e tragédias em série neste país colapsado de vez, que agora o mundo todo está ficando preocupado com o Brasil.

No final da tarde, depois de passar o dia longe do noticiário, o colunista do cotidiano brasileiro fica sem saber qual deve ser o assunto principal.

Com a mesa cheia de anotações, vou e volto no noticiário, pulando de um tema a outro e paro no título de uma matéria do Globo: "Avanço da Covid-19 no Brasil alarma o mundo inteiro, dizem cientistas a NYT e Guardian".

Talvez esteja aí nossa última chance de conter o avanço demencial do bolsonarismo contra a vida dos brasileiros. A esta altura, com o Supremo e o Congresso só assistindo de longe ao massacre da população, já sem vagas nos hospitais e nos cemitérios superlotados, só um fator externo poderá impor um freio a esta barbárie.

O americano New York Times e o britânico Guardian, dois dos jornais mais influentes do planeta, publicaram nesta quarta-feira reportagens sobre o avanço da pandemia no Brasil que se tornou uma ameaça global, "com o risco de gerar novas e ainda mais letais variantes do coronavírus".

Cada vez mais países fecham as portas a viajantes brasileiros e mercados europeus deixam de comprar nossos produtos, e o que faz o capitão presidente?

Manda seu chanceler, o terraplanista Ernesto Araújo, com grande comitiva, embarcar para Israel em busca de um spray mirabolante, mais um remédio milagroso que está em fase inicial de testes com 30 pessoas, em mais uma tentativa de surgir como salvador da pátria da cloroquina. Por que não mandou o general trapalhão e sua tropa do ministro da Saúde?

Na mesma terça-feira em que o Brasil bateu mais um recorde de mortos em um só dia, com 1.726 vítimas em 24 horas (hoje, o número subiu para 1840), Bolsonaro convidou 30 políticos mineiros, quase todos sem máscara, como ele, para um festivo almoço no Palácio do Planalto em torno de um leitão pururuca trazido pelo deputado Fábio Ramalho.

Estavam comemorando o quê? Bolsonaro já disse várias vezes que não lê jornal nem assiste ao Jornal Nacional, para não se aborrecer, mas algum general poderia, de vez em quando, lhe contar o que está acontecendo no Brasil. Ou eles têm medo de contar a verdade ao capitão?

Segundo Ramalho, o presidente estava "alegre e descontraído" no almoço "temático", enquanto os governadores se reuniam com o presidente da Câmara, Arthur Lira, que só pensa em escapar do STF, para discutir a crise sanitária fora de controle.

Se depender dele e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o popular "pois não, sim senhor", os governadores ainda vão sentir saudades de Pazuello.

"Para a mídia, o vírus sou eu", choramingou Bolsonaro no ombro dos devotos durante a oração matinal no cercadinho do Alvorada, antes de se dirigir ao convescote palaciano.

O presidente parecia inconsolável com as notícias do dia, embora queira distância delas.

"Querem me culpar pelas 200 e tantas mil mortes", desabafou. "Criaram o pânico. O problema está aí. A gente lamenta? Lamentamos. Mas tem outros países com renda e orçamento melhor do que o meu em que morre mais gente".

E daí?, como ele mesmo diria. Se lesse o noticiário do dia, já que gosta de fazer comparações com outros países, Bolsonaro ficaria sabendo que o Brasil deixou o ranking das 10 maiores economias mundiais depois da queda de 4,1% do PIB registrada em 2020.

Dez anos antes, o Brasil tinha superado o Reino Unido e subido para o 6º no lugar no mesmo ranking da agência de classificação de risco Austin Rating. Nos últimos dois anos, caiu para o 9º, e agora o Brasil despencou para o 12º lugar, ao ser ultrapassado por Rússia, Coreia do Sul e Canadá.

A seguir nesta marcha a ré, no ano que vem desceremos para o 14º lugar, segundo as estimativas.

A culpa, claro, não é do presidente. É da pandemia, porque ele já falou que não erra nunca. E a responsabilidade pelos mortos na pandemia?

É da imprensa, diz ele, que cria pânico ao defender o distanciamento social e as máscaras.

Está tudo tão fora de ordem e de lugar, que antes do final do dia ficamos sabendo de mais um deboche de outro terraplanista, Ricardo Salles, o sinistro do Meio Ambiente: nomeou uma advogada de infratores ambientais para cuidar do Ibama no Acre. Chega de intermediários. Já tem muitos militares no governo.

Isso sem falar no jegue atropelado na pista por um avião que levava vacinas para Ibotirama (BA). O jegue ferido fugiu, mas o piloto e as vacinas passam bem.

Em tempo: soube agora que, pelo segundo dia seguido, Bolsonaro cancelou o pronunciamento que faria hoje às 20h30. Ficou para sexta-feira. Melhor assim.

Vida que segue.

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